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COLUNISTAS

Paixões barrocas

 

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 16/03/2009

 

Já era madrugada quando, antes de dormir, resolvi dar um último "zap" nos canais da TV... De repente, fui surpreendido pelo documentário "A Paixão Segundo João Carlos Martins" (Die Martins-Passion, 2004, França-Alemanha). Eu já tinha ouvido falar do filme e conhecia parte da história deste pianista genial; tive inclusive a oportunidade de apertar seu antebraço quando o conheci (ele nunca apertava mãos, por motivos mais do que óbvios).

Para quem não conhece sua trajetória, aqui vai um brevíssimo relato:

No início da década de 1960 ele foi considerado um dos dois maiores intérpretes vivos de Bach, e tocava com algumas das melhores orquestras do mundo, em apresentações concorridíssimas e, sempre, ovacionadas. Alguns críticos o consideravam um possesso diante do teclado!

Em 1966 ocorreu sua primeira tragédia pessoal: Ao disputar uma "pelada" no Central Park, feriu gravemente sua mão direita com uma pedra pontiaguda... Perfeccionista, ele resolveu abandonar sua carreira de solista, transtornado. Tornou-se homem de negócios, bem-sucedido, mas fora de compasso.

Tempos depois, encheu-se de motivação e voltou ao circuito internacional, com renovado sucesso! Mas seu virtuosismo era tão exigente que não conseguia afastar-se dos teclados, salvo para jogar futebol (usava luvas de boxe para proteger as mãos) e gerar filhos. Por conta disso, depois de alguns anos, já não era a lesão da mão direita que exigia superação: Martins passou a sofrer de LER, o que lhe tolhia os movimentos dos dedos e causava fortes dores. Alguns dedos apresentaram, inclusive, atrofia, e Martins fez nova pausa em sua carreira. Foi quando cometeu seu maior desatino: assumiu uma empreiteira de mão-de-obra e acabou fazendo "Caixa 2" para campanha eleitoral. Disse que todos que ele conhecia o faziam (nada de novo ao Sul do Equador...), mas como o candidato que ele apoiava perdeu, ele foi o único punido! Ele não negou seus atos, mas sentiu-se magoado pela forma com que foi devassado; achava que merecia alguma consideração por tudo o que havia feito por nosso país, através da música! Em razão disso ele mudou-se para Miami, onde tomou conhecimento de um tratamento inovador, em Nova York, com o qual poderia reeducar seu cérebro, para que novos neurônios permitissem o controle hábil das mãos. Ele o fez e, mais uma vez, voltou a brilhar, cheio de inspiração! Resolveu, então, coroar seu arrebatamento (já antevendo novos problemas) concluindo a gravação da obra completa de seu grande mestre: Bach! E o fez na Bulgária, o mesmo país que presenciou mais uma etapa de seu calvário: durante um assalto Martins foi golpeado na cabeça, com uma barra de ferro... Desta vez, as seqüelas foram piores: todo o seu lado direito foi afetado! Mesmo assim ele insistiu com uma única mão, interpretando obras como o "Concerto para a mão esquerda", que Ravel compôs para um pianista que perdera o braço direito durante a I Guerra Mundial.

Seguiu-se mais uma reeducação neurológica que, desta vez, demandava todo o braço: primeiro o ombro, depois o cotovelo e, por último, a mão. Ele exigiu somente a mão... E tão logo o conseguiu, lá foi ele para o Carnegie Hall! Mas os ensaios intensos em condições físicas adversas logo levaram ao diagnóstico fatal: ele teria que abandonar sua carreira de solista!

Ele mesmo reconhece que toda a vez que se afastou da música só desafinou... A regência passou a ser, então, seu bálsamo: em vez do teclado, uma batuta! Mas, ao vê-lo, com as mãos atrofiadas, a demonstrar sua técnica de interpretação a alunos de Nova York, ficou claro que ele mais do que ensinar queria se apossar daqueles corpos jovens e virtuosos, para usar suas mãos perfeitas para exercitar sua arte. Ficou inequívoco que ele não desistiria (sua cena ao piano com octogenário Dave Brubeck é, simplesmente, mágica!). Martins faz tratamento com injeções de toxina botulínica, para tentar recuperar a musculatura atrofiada. As dores parecem ser insuportáveis, mas ele as aceita com a resignação da esperança e de um amor tão intenso e infindo pela música, que consegue extrair acordes fantásticos do piano mesmo com os poucos dedos ativos, e os atrofiados amarrados! Ouvir o que brota de suas mãos faz lembrar a obra de outro gênio: Aleijadinho, outro brasileiro que transformou sua dor em magnífica e divina arte barroca, como magnífica, divina e barroca é a música de Bach, que Martins re-esculpe em sua vida.

É certo que não há sobre a face da terra nenhum ser humano perfeito, mas há que se respeitar àqueles que buscam a perfeição diante da adversidade, qualquer que seja. Para nós, como observadores da vida, é preciso reconhecer e repudiar defeitos seculares; mas, como amantes dessa mesma vida, e do que ela tem de mais belo, é indispensável aprender a separar os defeitos das virtudes, que encontram na obstinação e paixão pela música de João Carlos Martins, alguns de seus contornos mais divinamente humanos!

Que nossos ouvidos, diariamente tão maltratados, ainda possam ser abençoados com o fruto natural de sua possessão divina no marfim e no ébano das teclas dos pianos do mundo, cuja sonoridade eu tentei exaltar, agradecido, com as teclas que eu, com minha pouca arte de escrita, aprendi a usar!

 
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Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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