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Já era
madrugada quando, antes de dormir, resolvi dar um último "zap" nos
canais da TV... De repente, fui surpreendido pelo documentário "A Paixão
Segundo João Carlos Martins" (Die Martins-Passion, 2004,
França-Alemanha). Eu já tinha ouvido falar do filme e conhecia parte da
história deste pianista genial; tive inclusive a oportunidade de apertar
seu antebraço quando o conheci (ele nunca apertava mãos, por motivos
mais do que óbvios).
Para
quem não conhece sua trajetória, aqui vai um brevíssimo relato:
No
início da década de 1960 ele foi considerado um dos dois maiores
intérpretes vivos de Bach, e tocava com algumas das melhores orquestras
do mundo, em apresentações concorridíssimas e, sempre, ovacionadas.
Alguns críticos o consideravam um possesso diante do teclado!
Em
1966 ocorreu sua primeira tragédia pessoal: Ao disputar uma "pelada" no
Central Park, feriu gravemente sua mão direita com uma pedra
pontiaguda... Perfeccionista, ele resolveu abandonar sua carreira de
solista, transtornado. Tornou-se homem de negócios, bem-sucedido, mas
fora de compasso.
Tempos
depois, encheu-se de motivação e voltou ao circuito internacional, com
renovado sucesso! Mas seu virtuosismo era tão exigente que não conseguia
afastar-se dos teclados, salvo para jogar futebol (usava luvas de boxe
para proteger as mãos) e gerar filhos. Por conta disso, depois de alguns
anos, já não era a lesão da mão direita que exigia superação: Martins
passou a sofrer de LER, o que lhe tolhia os movimentos dos dedos e
causava fortes dores. Alguns dedos apresentaram, inclusive, atrofia, e
Martins fez nova pausa em sua carreira. Foi quando cometeu seu maior
desatino: assumiu uma empreiteira de mão-de-obra e acabou fazendo "Caixa
2" para campanha eleitoral. Disse que todos que ele conhecia o faziam
(nada de novo ao Sul do Equador...), mas como o candidato que ele
apoiava perdeu, ele foi o único punido! Ele não negou seus atos, mas
sentiu-se magoado pela forma com que foi devassado; achava que merecia
alguma consideração por tudo o que havia feito por nosso país, através
da música! Em razão disso ele mudou-se para Miami, onde tomou
conhecimento de um tratamento inovador, em Nova York, com o qual poderia
reeducar seu cérebro, para que novos neurônios permitissem o controle
hábil das mãos. Ele o fez e, mais uma vez, voltou a brilhar, cheio de
inspiração! Resolveu, então, coroar seu arrebatamento (já antevendo
novos problemas) concluindo a gravação da obra completa de seu grande
mestre: Bach! E o fez na Bulgária, o mesmo país que presenciou mais uma
etapa de seu calvário: durante um assalto Martins foi golpeado na
cabeça, com uma barra de ferro... Desta vez, as seqüelas foram piores:
todo o seu lado direito foi afetado! Mesmo assim ele insistiu com uma
única mão, interpretando obras como o "Concerto para a mão esquerda",
que Ravel compôs para um pianista que perdera o braço direito durante a
I Guerra Mundial.
Seguiu-se mais uma reeducação neurológica que, desta vez, demandava todo
o braço: primeiro o ombro, depois o cotovelo e, por último, a mão. Ele
exigiu somente a mão... E tão logo o conseguiu, lá foi ele para o
Carnegie Hall! Mas os ensaios intensos em condições físicas adversas
logo levaram ao diagnóstico fatal: ele teria que abandonar sua carreira
de solista!
Ele
mesmo reconhece que toda a vez que se afastou da música só desafinou...
A regência passou a ser, então, seu bálsamo: em vez do teclado, uma
batuta! Mas, ao vê-lo, com as mãos atrofiadas, a demonstrar sua técnica
de interpretação a alunos de Nova York, ficou claro que ele mais do que
ensinar queria se apossar daqueles corpos jovens e virtuosos, para usar
suas mãos perfeitas para exercitar sua arte. Ficou inequívoco que ele
não desistiria (sua cena ao piano com octogenário Dave Brubeck é,
simplesmente, mágica!). Martins faz tratamento com injeções de toxina
botulínica, para tentar recuperar a musculatura atrofiada. As dores
parecem ser insuportáveis, mas ele as aceita com a resignação da
esperança e de um amor tão intenso e infindo pela música, que consegue
extrair acordes fantásticos do piano mesmo com os poucos dedos ativos, e
os atrofiados amarrados! Ouvir o que brota de suas mãos faz lembrar a
obra de outro gênio: Aleijadinho, outro brasileiro que transformou sua
dor em magnífica e divina arte barroca, como magnífica, divina e barroca
é a música de Bach, que Martins re-esculpe em sua vida.
É
certo que não há sobre a face da terra nenhum ser humano perfeito, mas
há que se respeitar àqueles que buscam a perfeição diante da
adversidade, qualquer que seja. Para nós, como observadores da vida, é
preciso reconhecer e repudiar defeitos seculares; mas, como amantes
dessa mesma vida, e do que ela tem de mais belo, é indispensável
aprender a separar os defeitos das virtudes, que encontram na obstinação
e paixão pela música de João Carlos Martins, alguns de seus contornos
mais divinamente humanos!
Que
nossos ouvidos, diariamente tão maltratados, ainda possam ser abençoados
com o fruto natural de sua possessão divina no marfim e no ébano das
teclas dos pianos do mundo, cuja sonoridade eu tentei exaltar,
agradecido, com as teclas que eu, com minha pouca arte de escrita,
aprendi a usar! |