Mas mesmo em
tempo de paz não havia esperança nesse mundo. Quanto mais se produzia, mais era
tomado: bens materiais, dignidade, a própria vida!
A nobreza era
divina: senhora de tudo o que houvesse em suas terras! O resto era descartável,
fosse escravo ou plebe. Homens e mulheres não passavam de peças descartáveis no
jogo do poder.
Depois, a
revolução industrial transformou seres humanos em ferramentas de fábricas, com
jornadas de trabalho estafantes e intermináveis.
O século XX
trouxe a sensação de que isto poderia mudar. O direito ao voto deu a impressão
de que era possível ao povo influir em seus destinos. O Estado-Previdência fez
crer que o povo deixara de ser mera matéria-prima da máquina de moer gente de
empresários gananciosos e governantes insensíveis. Os ares da liberdade
permitiam sonhar e era possível viver com dignidade e trabalhar com esperança de
progresso.
As famílias
tinham pais, mães e filhos que se viam; parentes e amigos que se visitavam nos
fins de semana; a conversa era fiada e jogada fora sem maiores conseqüências; a
vida era difícil, mas não era impossível.
Aí veio o
neoliberalismo, e a máquina de moer gente voltou com força total! O “mercado”
passou a ditar regras que voltaram a tirar homens e mulheres de suas casas para
lutar em suas “guerras”, não contra a vontade, mas acreditando que essa era a
sua opção de vida.
As conversas
viraram oportunidades de negócios; o sono, um inconveniente improdutivo; a
doença, um risco muito mais profissional do que de saúde.
Transformaram os
objetivos e interesses de poucos, muito poucos, num “sonho” universal, que nos
invade, transtorna e quase sempre vira pesadelo.
Trabalho que
nunca termina; celulares permanentemente ligados; comida sem paladar; prazer sem
satisfação; ansiedade constante; paixões que se consomem quando se consumam;
amores e amizades descartáveis ou com segundas intenções; famílias que não se
vêem, mesmo quando estão juntas.
Parece que
agora, além de máquinas que pensem e ajam como humanos, também querem humanos
que funcionem como máquinas: sempre ligadas e processando; máquinas que devem
funcionar em qualquer circunstância; máquinas cuja pessoalidade é vista como
falha; máquinas que sentem “culpa” ou “síndrome de abstinência” quando param;
máquinas que persistem mesmo quando seu limite é superado e o risco de pane é
iminente.
E quase sempre
aceitamos essa “exigência de mercado” em nome das pessoas que amamos, sem notar
que, com o tempo, ela nos cobrará que as coloquemos em segundo ou terceiro
plano; que as esqueçamos...
Por tudo isso,
que a triste história do pai, cansado e doente, que esqueceu o filho no carro,
nos sirva de alerta para que nos redescubramos como seres humanos e nos
conscientizemos de que não somos máquinas a serviço exclusivo e submisso das
insensíveis e insaciáveis expectativas do “mercado”. |