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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 05 de janeiro de 2008 16:45:11                                               

 
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COLUNISTAS

Questão de tempo

   

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 26/12/2007

 

 

Outro dia, eu dirigia meu carro quando teve início, no rádio, um diálogo entre um homem e uma mulher:

Ele se apresentava; logo em seguida ela dizia: “Aceito!”; mais adiante, ela revelava a gravidez... Na vertigem de poucos segundos, eles percorreram várias fases da vida em comum, passando por formatura e casamento de filho, nascimento de neto, uma dor no peito, um pedido para segurar a mão e um adeus...

Era uma simples publicidade de seguradora, mas eu senti um imenso nó na garganta.

Não pensei em sair correndo para comprar o produto oferecido, pois já tenho seguro de vida. Senti, sim, uma angustiante sensação de contagem regressiva ao ver um “filme” semelhante ao relato publicitário ser projetado em minha mente, num tempo tão curto quanto o da transmissão. Felizmente, uma história ainda sem fim, por mercê de Deus.

Lembrei de contos da infância, que falavam de vidas quais velas de cera, ampulhetas, tênues fios... Mas não havia nada de mórbido nesses pensamentos: Era um simples momento de reflexão, daqueles que tenho desde que me entendo por gente. Reconheço que eles me tiravam o sono na infância, mas, hoje, não tiram mais, pois aprendi a ser mais curioso do que temeroso com a vida.

Isso vale para mim, mas não é o mesmo para com a minha família: a mera sensação de estar longe deles já me tira o sono!

Será que eu resolvi ser sentimental depois de burro velho?

Pensando bem, talvez sempre tenha sido (sentimental e não burro velho!). Só me faltava inspiração.

Pensei em dar meia volta e ir ao encontro deles, para beijá-los e abraçá-los, como sempre faço, mesmo sem motivo (e precisa?); mas, ficaria meio estranho eu irromper no consultório da dentista (para onde eles tinham ido) e fazer isso... Eu poderia transformar uma limpeza de rotina num tratamento de canal!

Resolvi, então, continuar dirigindo...

O rádio continuava ligado, mas eu já não ouvia quase nada. O tema, agora, era carência de planos de saúde... Mas eu estava sintonizado em outra faixa de onda, transcendental.

Pensei no que já havia feito: no que era minha vida antes e depois de conhecer minha mulher, e após o nascimento de meu filho. A presença deles me encheu de vida!

Pensei, novamente, do casal fictício da publicidade radiofônica, para lembrar que já dobrei o “Cabo da Boa Esperança”. Mas isso é apenas parte da viagem de circunavegação que é a existência humana. Sei, no entanto, que ela pode ser mais curta que o previsto; que o fim de uma jornada nem sempre é o ponto de partida; que sempre existe o imponderável no percurso.

Alguns se inquietam tanto com isso, que passam a viver alucinadamente, mas vidas vazias.

Assim, não quero pensar se meu tempo escoa como a areia da ampulheta, ou se ela pode se quebrar antes do ciclo completo. Também não importa que meus dias se esvaiam como a cera das velas, ou que um vento mais forte possa apagar sua chama antes do fim do pavio:

Só quero saber o quanto eu já amei, e dedicar cada momento futuro, sejam segundos ou décadas, para que cada grão de areia e mínima luz emitida sejam para continuar amando quem segura a minha vida!

O nó na garganta foi apenas um reflexo de laços que unem as almas.

 
  

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::sobre o autor::

Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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