ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 22 de outubro de 2008 20:23:04                                               

 
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COLUNISTAS

Sinais vermelhos

 

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 22/10/2008

Outro dia, assisti “O voto é secreto” (Raye Makhfi, Irã, 2001), de Babak Payani.

Numa ilha longe de tudo, dois soldados se revezam: enquanto um descansa, o outro vigia. De repente, uma caixa cai do céu. Mistério... Logo em seguida chega uma jovem, de barco. Vestida em trajes tradicionais, ela esclarece ser uma agente eleitoral. A caixa é uma urna e  um dos soldados deve ajudá-la a coletar votos.

Num jipe, os dois passam a visitar aldeias locais, lugares perdidos no tempo.


 

Por ser mulher, ela é desprezada pelos homens. Também o é pelas mulheres, que a vêem como transgressora.

Um dos poucos que vota é o responsável por uma central de energia solar: tecnologia de ponta até para aquecer a água do chá! Mas, ele não conhece os candidatos, por isso vota em Deus, que ele conhecia. Pelo jeito, eles não confiam muito em políticos.

No retorno à praia, o soldado pára o jipe nomeio do nada: havia um inconcebível sinal vermelho na estrada!

Não havia veículos à vista e a moça pergunta por que ele não prosseguia. Ele afirma que por respeito à lei. Ela pondera que não havia sentido naquilo. O soldado, ironicamente, diz que ela tentara convencer as pessoas a votar por ser uma regra a ser seguida, mas, agora, pedia para ele desrespeitar outra!

A jovem volta para o carro, vencida; mas, para sua surpresa, o soldado ultrapassa o sinal vermelho! Calmamente, ele justifica que pensava que ele já fora consertado.
 

Quando não há computação gráfica, sangue aos borbotões e atores famosos para distrair, alguns filmes fazem a gente pensar:

Quantos sinais vermelhos colocam em nossas vidas e, funcionando ou quebrados, impedem que pensemos e evoluamos?

Quantas pessoas nos dizem o que podemos ou não fazer apenas para manterem seu poder sobre nós? Quantas pessoas dizem que uma coisa é boa para nós, quando só o é para elas? E quantos lembram de nós apenas quando lhes somos úteis?

Assim, nem toda tradição é boa e nem toda transição faz sentido.

No final do filme, o soldado pede para votar...

Ao ver seu nome na cédula, a jovem diz que não era candidata. “Pensei que o voto fosse secreto”, diz ele. Depois, justifica que também não conhecia nenhum dos candidatos, mas a conhecia.

O barco não veio buscá-la, mas, sim, um moderno avião. Ela iria para o céu, junto com a urna!

Num filme ocidental haveria um fraterno abraço entre esses dois aprendizes de viver, mas isso seria impensável nesse filme. Sequer houve acenos...

Ela voltou à cidade grande. Ele voltou ao seu posto de vigia da praia. Nada havia mudado... Será?

 
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Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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