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Acho um absurdo ver pessoas
nas portas de delegacias e casas de suspeitos, gritando palavras de ordem,
ameaçando fazer justiça com as próprias mãos. É querer aparecer na mídia, virar
notícia! Ou ser mosca... Mas será que isso não é sintomático, também, de
descrença na justiça?
Essa descrença não aumenta com
exemplos de policiais que se associam à criminalidade que deveriam inibir e
combater? Ou quando operadores da lei se envolvem em esquemas ilegais? Ou quando
ocupantes de cargos públicos, eleitos ou nomeados, desviam verbas para
enriquecimento pessoal ou favorecimento dos grupos a que pertencem?
O curioso é que não se vê
aglomerações nas portas de distritos, nem em frente das residências desse tipo
de acusado, gritando palavras de ordem ou fazendo ameaças. Isso, talvez, porque,
no imaginário popular, seus crimes envolvam “apenas” dinheiro. Não são suspeitos
de matarem crianças inocentes e indefesas... Será?
Será que o dinheiro ilícito
que os enriquece, mas nunca sacia, não poderia salvar vidas, se aplicado na
saúde ou na educação? Os esquemas fraudulentos de que participam não são
instrumentos de morte e desesperança em larga escala: crimes contra a
humanidade?
Com certeza! Mas não há
cadáveres visíveis. As mortes acontecem longe de seus olhos e dos da sociedade.
Assim, algozes logo se
transformam em vítimas, vertendo lágrimas diante de câmeras, em patéticos
espetáculos. E não lhes falta a solidariedade de seus iguais, por amizade, temor
ou dívida.
Denúncias a granel! Crimes
escabrosos! Prisões espalhafatosas!
Um circo é montado para, quase
sempre: nada!
Pouco tempo depois, o
esquecimento ou a conivência os reelegerá ou os reconduzirá a cargos públicos ou
posições de destaque. Tudo como se nada tivesse acontecido, como se fossem
modelos de dignidade. Dignidade tosca que, infelizmente, tende a proliferar na
sociedade, pela impunidade.
Assim, é quase certo que
continuarão a praticar as mesmas ou mais elaboradas falcatruas. No máximo, serão
condenados ao ostracismo, “mortos politicamente”. Mesmo assim, alguns viverão em
alto estilo, saboreando os frutos de seus atos dolosos, ardilosamente
escamoteados por artifícios escusos. Outros serão silenciados, de múltiplas
formas...
Assim, com o tempo e esses
exemplos de impunidade, quem denunciaria poderá não denunciar mais. Quem for
vítima, talvez se cale. Quem acreditava na justiça, perderá a fé. Já quem tem
desvios de caráter, desembestará sem freios.
A imagem que ficará
consolidada será a de que o crime compensa, de que “um raio não cai duas vezes
no mesmo lugar”.
Estaremos a um passo da
barbárie!
É essa a sociedade que
queremos? |