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Eu sempre me surpreendo com lembranças que “não deveriam estar
mais lá”, mas que o cérebro retém, o que demonstra que elas
foram significantes em algum momento de nossas vidas, ou que,
pacientemente, aguardam nosso discernimento para adquirirem
significado ou re-significado.
Outro dia, eu conversava com minha esposa sobre infância, quando
lembrei do presente material mais significativo que meus pais
nos deram naqueles tempos difíceis: um pebolim (“totó”), com pés
altos e um único esquema de jogo: o 2-5-3. Ele só tinha um
defeito: eu não torcia por nenhum dos dois times, mas isso não
importava, pois sempre que eu jogava o meu virava o Santos ou a
Seleção Brasileira.
Subitamente, uma imagem nítida surgiu em minha mente: minha mãe
me levando ao barbeiro, para fazer o econômico corte “americano
curto”. Mas não íamos a um salão convencional: parecia mais uma
cozinha. E o barbeiro não falava com a gente, contrariando a
regra insofismável.
Essa lembrança parecia ter um significado especial...
Liguei para minha mãe para saber se ela lembrava do barbeiro.
Ela disse que era um vizinho surdo-mudo. Numa época em que
deficiências físicas ainda eram encaradas como “castigo” ou
“desgraça”, seus pais o haviam incentivado a aprender aquela
profissão; avisaram os vizinhos e logo ele conquistou uma
clientela fiel.
Enquanto ela falava, outra imagem veio à minha mente: a de uma
vistoria para identificar as causas de danos numa calçada. Um
rapaz de pernas atrofiadas se aproximou e explicou que aquilo
era provocado pela conversão de caminhões de grande porte.
Passamos a conversar e ele se expressava de forma articulada e
prestativa, até que sua mãe, uma senhora portuguesa, veio ver o
que se passava... Ao saber o que eu fazia, ela apontou
teatralmente na direção do filho e falou, em tom suplicante, que
precisávamos consertar a calçada para que aquele “infeliz”
pudesse se arrastar sobre ela. O rapaz, visivelmente
constrangido, não disse mais nada.
As duas lembranças me fizeram pensar nas diferentes formas com
que pais encaram os filhos com necessidades especiais:
Normalmente, o amor e o instinto protetor estão presentes, mas
são estranhas algumas de suas manifestações. Como diz a música
de Erasmo: é uma “proteção que desprotege”, limita e pode ser um
castigo ou desgraça muito maior do que a representação que
alguns pais fazem das limitações físicas e mentais dos filhos.
Muitas vezes elas são preconceitos herdados.
Minha mãe disse que ela e meu pai procuraram nunca nos afastar
de pessoas por esse motivo, ou de raça, ou de condição
financeira.
Ela também lembrou de uma outra situação, que reforçava a sua
tese:
Uma vizinha exortou outra a que só deixasse seu filho ter amigos
ricos, pois eles tinham melhor formação e possibilidades
sociais. Ela falava de sua própria condição. Ironicamente, um de
seus filhos foi viciado em drogas por um desses “amigos”
socialmente “bem posicionados”, e teve um fim trágico em função
disso: o suicídio.
É... O preconceito pode ser ensinado em casa, com vários
enfoques, mas sempre com resultados ruins. Boas sementes, no
entanto, tendem a gerar bons frutos, seja como fatos, seja como
lembranças.
Assim, educar continua a ser o maior desafio dos pais. E eu
continuo a aprender muito com os meus, graças a Deus!
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