.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 04/04/2007 21:02:47

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 Adilson Luiz Gonçalves         

 
Sobre Preconceitos


 

Eu sempre me surpreendo com lembranças que “não deveriam estar mais lá”, mas que o cérebro retém, o que demonstra que elas foram significantes em algum momento de nossas vidas, ou que, pacientemente, aguardam nosso discernimento para adquirirem significado ou re-significado.

Outro dia, eu conversava com minha esposa sobre infância, quando lembrei do presente material mais significativo que meus pais nos deram naqueles tempos difíceis: um pebolim (“totó”), com pés altos e um único esquema de jogo: o 2-5-3. Ele só tinha um defeito: eu não torcia por nenhum dos dois times, mas isso não importava, pois sempre que eu jogava o meu virava o Santos ou a Seleção Brasileira.

Subitamente, uma imagem nítida surgiu em minha mente: minha mãe me levando ao barbeiro, para fazer o econômico corte “americano curto”. Mas não íamos a um salão convencional: parecia mais uma cozinha. E o barbeiro não falava com a gente, contrariando a regra insofismável.

Essa lembrança parecia ter um significado especial...

Liguei para minha mãe para saber se ela lembrava do barbeiro. Ela disse que era um vizinho surdo-mudo. Numa época em que deficiências físicas ainda eram encaradas como “castigo” ou “desgraça”, seus pais o haviam incentivado a aprender aquela profissão; avisaram os vizinhos e logo ele conquistou uma clientela fiel.

Enquanto ela falava, outra imagem veio à minha mente: a de uma vistoria para identificar as causas de danos numa calçada. Um rapaz de pernas atrofiadas se aproximou e explicou que aquilo era provocado pela conversão de caminhões de grande porte. Passamos a conversar e ele se expressava de forma articulada e prestativa, até que sua mãe, uma senhora portuguesa, veio ver o que se passava... Ao saber o que eu fazia, ela apontou teatralmente na direção do filho e falou, em tom suplicante, que precisávamos consertar a calçada para que aquele “infeliz” pudesse se arrastar sobre ela. O rapaz, visivelmente constrangido, não disse mais nada.

As duas lembranças me fizeram pensar nas diferentes formas com que pais encaram os filhos com necessidades especiais: Normalmente, o amor e o instinto protetor estão presentes, mas são estranhas algumas de suas manifestações. Como diz a música de Erasmo: é uma “proteção que desprotege”, limita e pode ser um castigo ou desgraça muito maior do que a representação que alguns pais fazem das limitações físicas e mentais dos filhos. Muitas vezes elas são preconceitos herdados.

Minha mãe disse que ela e meu pai procuraram nunca nos afastar de pessoas por esse motivo, ou de raça, ou de condição financeira.

Ela também lembrou de uma outra situação, que reforçava a sua tese:

Uma vizinha exortou outra a que só deixasse seu filho ter amigos ricos, pois eles tinham melhor formação e possibilidades sociais. Ela falava de sua própria condição. Ironicamente, um de seus filhos foi viciado em drogas por um desses “amigos” socialmente “bem posicionados”, e teve um fim trágico em função disso: o suicídio.

É... O preconceito pode ser ensinado em casa, com vários enfoques, mas sempre com resultados ruins. Boas sementes, no entanto, tendem a gerar bons frutos, seja como fatos, seja como lembranças.

Assim, educar continua a ser o maior desafio dos pais. E eu continuo a aprender muito com os meus, graças a Deus!

 

Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor Universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
algbr@ig.com.br

 



 

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