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Não
faz tanto
tempo
assim,
as pessoas
tinham um
único
emprego
e eram capazes
de viver
dele com
relativo
conforto.
Hoje, a maioria precisa se
desdobrar em várias ocupações e jornadas insanas, verdadeiros zumbis, para
corresponder às expectativas do “mercado”: freqüentar restaurantes “refinados”,
não necessariamente bons; usar roupas e acessórios caros, nem sempre bonitos;
cultivar hábitos onerosos, mas raramente prazerosos, às vezes, viciosos.
O que importa é que isso seja
feito em público, com grifes e rótulos bem visíveis; dizendo em que loja ou país
comprou, ou qual a procedência, mesmo que ninguém pergunte. Tudo para “ser
notado”, mostrar que “está bem”, para se sentir “superior”.
Numa sociedade condicionada a
julgar indivíduos por aparências, muitos se endividam para viver esse sonho
“terceirizado”; e não poucos vivem em função dele.
Nesse contexto, é comum vermos
“mostruários” ambulantes, que pagam caríssimo para fazer “merchandising”
gratuito de seus “símbolos de status”; indivíduos que enviam sinais de fumaça
com seus charutos e cachimbos em locais públicos, para serem notados.
O curioso é que, não faz muito
tempo, o “must” era usar roupa feita sob medida. Nada era concluído sem a prova
das roupas alinhavadas, e o uso de símbolos, normalmente brasões, só ocorria
entre nobres e ricos burgueses: uma heráldica conveniente. Mas isso também
ocorria no extremo oposto: em uniformes de clubes desportivos, escolas e
empresas. Fora desse âmbito, exibir etiquetas era considerado “vulgar”.
Hoje, a obstinação em seguir
“modas” e a doutrinação consumista transformou pessoas em escravas das
aparências. Algumas, de tanto mudar seus conceitos e hábitos para se adaptarem
às “novas tendências”, acabam entrando “em parafuso”, beirando ou mergulhando
fundo no ridículo.
Podem passar horas diante do
espelho, com a intenção de chocar ou agradar aos outros, mas não gastam nem um
minuto para sonhar algo de verdadeiramente seu, que as faça pessoalmente
felizes.
Todos somos um pouco vítimas
dessa escravidão, mesmo aqueles que se acreditam libertos por terem poder
aquisitivo para comprar e descartar sem culpa. Deixamos de ser o que somos para
sermos o que esperam lucrativamente de nós, não necessariamente para o nosso bem
ou felicidade. Deixamos de sonhar para nos render ao afã de possuir objetos de
desejo impostos, paixão autoconsumptiva; ou sermos meros instrumentos para a
concretização dos sonhos mutantes e oportunistas dos outros, massa de manobra,
rebanho de corte financeiro.
Nessa maratona intempestiva
para sobreviver num mundo que exalta com a mesma velocidade que despreza, somos
exortados a estabelecer focos esquecendo que, assim, perdemos a visão do todo.
Depois, nos dizem que precisamos ser multidisciplinares, flexíveis... Podemos
ser tudo isso, mas se não parecermos... Em compensação, muitos parecem, mas não
o são.
E os sonhos de cada um: onde
ficam em meio a tudo isso? |