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Noel Rosa, no samba “Não
tem tradução”, de 1933, dizia: “O cinema falado é o grande culpado da
transformação...”. Eram os primórdios da sonorização dos filmes e a letra
falava da influência de outros idiomas na cultura de massa de então.
O “Poeta da Vila”
afirmava, ainda, que: “A
gíria que o nosso morro criou, bem cedo a cidade aceitou e usou”. Hoje, no
entanto, importamos gírias, roupas e trejeitos a cada nova moda inventada no
Hemisfério Norte. Até imitar o submundo dos países desenvolvidos é “fashion”!
As línguas são
vivas, daí as gírias, os neologismos. Novas palavras também surgem por conta
de descobertas científicas ou inovações tecnológicas, normalmente vindas do
exterior. Quase tudo tem tradução,
mas preferimos incorporá-las a traduzi-las.
O problema é quando isso
deixa a literatura científica, os jargões profissionais, as placas das
lojas, razões sociais, marcas “fantasia” e ambientes de escolas de idiomas,
e entra no cotidiano. É quando desconto vira “off”; ponta de estoque, “outlet”;
lixeira, “garbbage”; grátis, “free”; balsa, “ferry-boat”; plataforma ou
deque, “deck”; lema, “slogan”; ou populariza-se expressões como: “self-service”,
“pet shop”,“drive thru”, “barbecue”...
Tem tradução, mas parece
que alguns preferem esquecer disso, por esnobismo, desconhecimento ou
desprezo. O “complexo de vira-lata” faz alguns acreditarem que publicidade
em outros idiomas dá confiabilidade e modernidade a produtos,
empreendimentos e discursos.
É o “marketing”, “feed
back”, “gap”, “up date”, “turn key”, “triple A”, “insight”, “schedule”,
“play off”, “tie-brake”...
Existem até faculdades brasileiras e cursos com nome em
inglês: “business school”, MBA, com sotaque inclusive!
Globalização não significa
colonização cultural!
Mas isso não deve virar
uma neurose nacionalista. Querem usar palavras ou expressões em outros
idiomas? Tudo bem, mas desde que as coloquem também em português, pois,
salvo engano, esse é o idioma oficial do Brasil. Obviamente, o exemplo deve
partir do governo, permeado pelo bom-senso e ao encontro de iniciativas com
a unificação ortográfica lusófona.
Isso não solucionará a
questão moral e ética que aflige nosso país. Nesse âmbito, alguns dos
aspectos “culturais” das elites governantes precisam realmente ser banidos,
junto com seus adeptos. Afinal, nenhuma nação independente e progressista se
constrói desprezando sua identidade.
Pode ser exagero de minha
parte, mas essas práticas contribuem para o enfraquecimento de nossa
consciência nacional. Não é à toa que outro dia vi na entrada de uma loja de
“shopping” (centro comercial), as formas e cores da bandeira brasileira num
capacho. Quando critiquei aquilo, a vendedora disse que nunca haviam
reclamado, e que aquele era um dos produtos mais vendidos da loja...
Será que a culpa é só do
cinema falado?
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