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- Senhor, dizem que o Nazareno
está vivo! E há várias testemunhas!
- Quem? Aquele místico que
pregava nas ruas e montes, a prometer liberdade para escravos e subjugados, mas
que também encontrava ouvidos entre alguns nobres de seu povo? Aquele que uns
chamavam de rabino, outros de Messias, outros de subversivo e outros de
sacrílego? O que foi crucificado?
- Ele mesmo!
- Mas como, se nós o
açoitamos, coroamos com espinhos, fizemos com que carregasse seu próprio
instrumento de morte, perfuramos seus membros para cravá-lo nele, demos-lhe
vinagre quando pediu água, ferimos seu lado e rifamos suas vestes? Não o viram
expirar e ser sepultado?
- Sim, e ele suportou tudo
isso resignado. Ficou em silêncio, quando qualquer um de nós teria abandonado
suas crenças e amaldiçoado seus deuses.
- Mas ele não era um simples
carpinteiro? Dizem que nasceu num estábulo! Como alguém de origem tão humilde
pode ser tão grandioso? Com tal carisma ele poderia ser um grande
revolucionário, perigoso ao nosso domínio!
- Pelo contrário, ele exortava
a dar a César o que é de César, e pregava a paz e amor ao próximo! Dizia que seu
reino não era desse mundo... Ele pregava a libertação do espírito, mesmo que o
corpo estivesse acorrentado. Falava em livre-arbítrio e igualdade entre os
povos, para a glória de Deus. Dizem que até nossos centuriões se aconselhavam
com ele!
- Pensando bem, por isso o
deixamos morrer... Afinal, o poder é mantido à custa de escravidão, traição,
espoliação, alienação, sofrimento e dor dos que orbitam e exorbitam em torno
dele. Pregar paz, amor e igualdade é uma ameaça à crença de que uns são
superiores aos outros.
- Mas não o somos, senhor?
- Claro! Guerreamos,
submetemos e exaurimos para provar isso!
- Por isso nos admiram?
- Não! Por isso nos temem e,
assim, nos obedecem. O poder e o medo fascinam e escravizam, até quem os exerce.
Já o amor que esse Jesus pregava, liberta a alma! E não há liberdade mais
difícil de controlar que a do espírito!
- Então, nosso domínio corre
perigo?
- Enquanto as armas forem
extensão das mentes e o medo limitar raciocínios, qualquer império estará
seguro! Mas se os que lideramos e os que dominamos acreditarem que não há
diferença entre eles, e que todos temos a mesma origem e fim no seio de um Deus
que ama, abençoa e perdoa, a ignorância que nos divide, daria lugar a uma
consciência que nos aproximaria. Não haveria senhores nem escravos!
- Mas era isso que Jesus
pregava!
- E por isso o deixamos
morrer! Mas se é como dizes: “Ele está vivo!”, temo por nosso futuro, pois se um
ideal não morre, a ressurreição de seu criador o torna uma verdade
inquestionável e, igualmente, imortal!
- Nosso tempo de glória,
então, se esgota?
- Talvez... Mas outros virão
depois de nós. Sua mensagem tanto libertará como, nas mãos erradas, escravizará.
Com certeza, muitos guerrearão ou cometerão atos ilícitos em seu nome, em busca
de poder mundano. Muitos duvidarão de sua mensagem por conta disso. Creio que
ainda haverá muito espaço para impérios baseados no medo e na repressão, com ou
sem armas.
- E o que podemos fazer para
preservar nosso poder?
- Talvez isso não esteja em
nossas mãos... Aliás, traga-me aquela bandeja com água... |