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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 17 de março de 2008 21:53:29                                               

 
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COLUNISTAS

Ele está vivo

   

Adilson Luis Gonçalves

publicado em 17/03/2008

 

Num tranqüilo domingo, depois de um fim de semana agitado, Pilatos lia, quando seu secretário irrompeu em seu gabinete:

- Senhor, dizem que o Nazareno está vivo! E há várias testemunhas!

- Quem? Aquele místico que pregava nas ruas e montes, a prometer liberdade para escravos e subjugados, mas que também encontrava ouvidos entre alguns nobres de seu povo? Aquele que uns chamavam de rabino, outros de Messias, outros de subversivo e outros de sacrílego? O que foi crucificado?

- Ele mesmo!

- Mas como, se nós o açoitamos, coroamos com espinhos, fizemos com que carregasse seu próprio instrumento de morte, perfuramos seus membros para cravá-lo nele, demos-lhe vinagre quando pediu água, ferimos seu lado e rifamos suas vestes? Não o viram expirar e ser sepultado?

- Sim, e ele suportou tudo isso resignado. Ficou em silêncio, quando qualquer um de nós teria abandonado suas crenças e amaldiçoado seus deuses.

- Mas ele não era um simples carpinteiro? Dizem que nasceu num estábulo! Como alguém de origem tão humilde pode ser tão grandioso? Com tal carisma ele poderia ser um grande revolucionário, perigoso ao nosso domínio!

- Pelo contrário, ele exortava a dar a César o que é de César, e pregava a paz e amor ao próximo! Dizia que seu reino não era desse mundo... Ele pregava a libertação do espírito, mesmo que o corpo estivesse acorrentado. Falava em livre-arbítrio e igualdade entre os povos, para a glória de Deus. Dizem que até nossos centuriões se aconselhavam com ele!

- Pensando bem, por isso o deixamos morrer... Afinal, o poder é mantido à custa de escravidão, traição, espoliação, alienação, sofrimento e dor dos que orbitam e exorbitam em torno dele. Pregar paz, amor e igualdade é uma ameaça à crença de que uns são superiores aos outros.

- Mas não o somos, senhor?

- Claro! Guerreamos, submetemos e exaurimos para provar isso!

- Por isso nos admiram?

- Não! Por isso nos temem e, assim, nos obedecem. O poder e o medo fascinam e escravizam, até quem os exerce. Já o amor que esse Jesus pregava, liberta a alma! E não há liberdade mais difícil de controlar que a do espírito!

- Então, nosso domínio corre perigo?

- Enquanto as armas forem extensão das mentes e o medo limitar raciocínios, qualquer império estará seguro! Mas se os que lideramos e os que dominamos acreditarem que não há diferença entre eles, e que todos temos a mesma origem e fim no seio de um Deus que ama, abençoa e perdoa, a ignorância que nos divide, daria lugar a uma consciência que nos aproximaria. Não haveria senhores nem escravos!

- Mas era isso que Jesus pregava!

- E por isso o deixamos morrer! Mas se é como dizes: “Ele está vivo!”, temo por nosso futuro, pois se um ideal não morre, a ressurreição de seu criador o torna uma verdade inquestionável e, igualmente, imortal!

- Nosso tempo de glória, então, se esgota?

- Talvez... Mas outros virão depois de nós. Sua mensagem tanto libertará como, nas mãos erradas, escravizará. Com certeza, muitos guerrearão ou cometerão atos ilícitos em seu nome, em busca de poder mundano. Muitos duvidarão de sua mensagem por conta disso. Creio que ainda haverá muito espaço para impérios baseados no medo e na repressão, com ou sem armas.

- E o que podemos fazer para preservar nosso poder?

- Talvez isso não esteja em nossas mãos... Aliás, traga-me aquela bandeja com água...

 
  

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Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, professor universitário (UNISANTOS e UNISANTA). Cursando Mestrado em Educação (UNISANTOS).
 

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