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Finge-se não compreender... |
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Elias Mattar Assad |
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publicado
em 01/10/2008 |
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Convidado para proferir uma das palestras inaugurais do "II Congresso
Internacional de Direitos Humanos" (Anhembi/SP - 21 a 26/9/2008), afirmei
que preocupa-nos o declínio ou quase falência da palavra. Outrora, se falava
e escrevia menos e a compreensão era maior. Hoje, com todas as ferramentas
tecnológicas, exaustivamente escrevemos e falamos e a real compreensão é
quase nula. Finge-se compreender ou, pior ainda, finge-se não compreender...
Episódio dos livros sagrados retratando a ira divina, conhecido como "torre
de babel", nos mostra que o maior castigo para a humanidade é a
incompreensão. A destruição se dará pela incompreensão!
O maior dos humanistas, "in articulo mortis", perdoou e pediu ao Pai que
perdoasse, julgando: "eles não sabem o que fazem..." Dois mil e tantos anos
após, não podemos perdoar os violadores de direitos humanos porque eles
sabem muito bem o que estão fazendo!
Dia destes nos indagaram se cultores dos direitos humanos eram esquerdistas
ou direitistas... (entre outros "istas" das decadentes ideologias políticas
reinantes). Traçando um paralelo com o movimento ecumenista, que surgiu para
aplanar diferenças religiosas, afirmei que, se buscamos unicamente o
equilíbrio, devemos ser "equilibristas".
Ideal seria que não precisássemos nos reunir para falar de direitos humanos,
mas estamos muito aquém do respeito. Bem pensado, reuniões como esta contém
uma inescondível e tragicômica situação: seres humanos reunidos para pedir
respeito aos próprios seres humanos, para outros seres humanos...
Em nossa quadra histórica, dentro da visão de equilíbrio, a propriedade de
todas as coisas ou valores deve conter dose, maior ou menor, de função
social, pois não existe direito contra direito! E foi uma semana tempestuosa
para as bolsas de valores. Em verdade, lamentavelmente, há um novo deus no
universo porque as religiões, famílias e escolas falharam no ensino da ética
e dos verdadeiros valores que povoam e enobrecem a alma humana... Há um novo
deus! Novos vaticanos com novas concepções, novos pastores, pregadores e
confessores, novas igrejas e novos fiéis. Novos céus, purgatórios e novos
infernos...
Esse novo deus chama-se dinheiro, num mundo onde tudo está a venda! Os novos
vaticanos são as bolsas de valores! As novas concepções e normas não derivam
unicamente das leis de mercado (que não é mais aquela natural e até ingênua
"mão invisível" de que falavam os economistas da escola clássica - Adam
Smith e contemporâneos) agora das selvas ou das guerras, num salve-se quem
puder! Novos pastores e pregadores são os operadores das bolsas e os
executivos financeiros! Novos confessores são os marqueteiros! Novas igrejas
são os bancos e assemelhados! Novo céu é o poder aquisitivo! Purgatório é a
expectativa do projeto legal ou ilegal dar certo e, inferno, é quando dá
errado com o fogo e o ranger de dentes da falência, da miséria e da prisão!
Os novos fiéis? Essa imensurável legião que denominamos consumidores...
Participantes deste congresso, por muitos rotulados como românticos (ou
obsoletos) sonhadores, temos ideais nobres e almejamos uma espécie de "bolsa
de valores humanos"! Imaginem, se dez por cento (até menos) dos interesses,
das atenções, da energia e vigor dos gritos ouvidos dos pregões das bolsas
de valores, em todo o mundo, fossem voltados aos valores humanos e sua
proteção? Todos ligando para todos, naquelas imagens das bolsas: "estão
violando direitos humanos no Paquistão, no Timor Leste, etc... Onde está a
ONU?" Ou, "como abriram hoje as ações de Kofi Annan? Em alta? Estáveis? E as
de Dalai Lama e do Papa? E as de Bush como estão? Em baixa?
É bom sonhar com um mundo genuinamente humano...
Como presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas, tomo a
liberdade de propor, nesta solenidade de abertura, uma moção de recomendação
ao governo brasileiro para que assegure, para todos os brasileiros e
estrangeiros aqui residentes, ou em trânsito pelo País, o que já está
previsto na nossa Constituição Federal e tratados internacionais firmados
pelo Brasil, entre outros, o direito humano à privacidade ou da
confidencialidade, punindo exemplarmente violações como aquelas das quais
foram vítimas recentes o Presidente do STF e um Senador da República
Federativa do Brasil (justificando que se isto está a ocorrer nos escalões
mais altos, imagine-se com o restante da população. Foi aprovada por
aclamação).
Sonhadores, cá estamos, semelhantes na maneira diferente de sermos iguais!
Desejo um excelente evento e proveitosas discussões das metas do milênio da
ONU...
Elias Mattar Assad
é presidente da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas.
abrac@abrac.adv.br
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