Recebemos da colega Carmem Pio (Porto Alegre),
um manifesto intitulado "ao 'Senhor dos porcos".
Ei-lo: "...Defender os interesses dos réus,
neste processo, tem sido um verdadeiro calvário,
um drama, pois presenciei a dor e o desespero de
um cidadão de bem e de toda sua família. (...) O
'Senhor dos porcos', como era conhecido há mais
de 45 anos na cidade vizinha de Cel. João Pio-RS,
onde criava porcos para o sustento de sua
família. Quase analfabeto, trabalhava e jamais
desviou-se na conduta. Nunca lhe foi
proporcionado ingresso em projetos municipais,
estaduais ou federais, que pudessem lhe ensinar
o manuseio com a criação de porcos. Foi deixado
à deriva. Era melhor multá-lo do que investir em
seu fortalecimento como cidadão. Afinal, o
"Senhor dos porcos', para o Estado, era um
simples analfabeto que tinha um pequena criação
de porcos, catava lixo e que em nada incomodava.
Seu bairro era agrícola, muito distante do
centro da cidade. Entretanto, quando o lugar
começou a ter interesses imobiliários e grandes
grupos começaram a querer investir no local, o "Senhor dos porcos', já no fim da vida, velho,
cansado, sem perspectivas, começou a ser um
estorvo para muitos interesses financeiros
daquela promissora cidade. Ninguém pensou na
vida do "Senhor dos porcos', que tinha direito a
terminar seus dias dignamente pois foi homem
honesto e guardião de sua família. Colono, que
viveu sempre dentro de sua propriedade, mal
conhecendo outros bairros da cidade. Talvez,
nunca saindo fora dela.
E a família do 'Senhor dos porcos' se sente hoje
desamparada, aflita, ansiosa, desesperada, com
muita dor e revolta pela morte do esposo, pai e
avô. A família está insegura, pois não
compreende muito bem o que está acontecendo e o
que irá lhe acontecer, após a propositura de um
tal processo judicial, visando o fim da criação
dos porcos... O 'Senhor dos porcos' está morto!
Ele morreu de tristeza! Veio morrendo, morrendo
em conta-gotas, desde que toda essa aberração
começou.
Quando lhe arrancaram os porcos, expresso aqui
minha percepção daquele momento, arrancaram-lhe
a vida. Presenciei um homem morrer aos poucos,
de tristeza, de desânimo, de desalento, de
imensa humildade, pois nem conseguia compreender
direito o que estava acontecendo, por mais que
se lhe tentasse explicar. Tal problema tinha
chegado como uma lança no seu coração. Seu
físico ainda vivo, mas sua alma e sua emoção,
não mais estavam. Buscavam-se palavras,
expressões, gestos, tudo para que o 'senhor dos
porcos' pudesse compreender e reagir, mas nada
teve o poder de trazer-lhe novamente o sentido
pela vida.
Que Estado é esse que castiga um filho com
tamanha crueldade? Que jamais teve qualquer tipo
de preocupação em lhe proporcionar capacitação
profissional, fortalecimento e conhecimento,
para que pudesse ir se adaptando aos novos
tempos e às novas tecnologias. No final da vida,
ficou sem seus porcos, os quais foram retirados
de sua propriedade por Oficial de Justiça!
Os senhores conseguem imaginar o que significa
processo judicial e oficial de justiça para uma
pessoa nas condições sociais e intelectuais do
réu? Alguém se preocupou com esta parte do
processo? Um cidadão, de mais de 70 anos, ficou
sem trabalho!
O Estado agiu como se um criminoso fosse. Nada
foi feito a seu favor. Nada. E o 'Senhor dos
porcos' morreu de tristeza por ter perdido o
trabalho de uma vida inteira. Mas, não me
conformo, certamente estou tão doente quanto a
família, eis que acompanhei seu definhamento.
Este foi o desabafo de uma advogada, que, em 27
anos de formada, jamais havia se deparado com
uma situação que lhe causasse tamanha
perplexidade e tristeza, desalento e desencanto
pela Justiça e pelo Estado como um todo... O ser
humano não vale nada em nossa estrutura
social... Continuarei lutando por um mundo mais
justo e tentando amenizar a dor brutal de meus
clientes. Advocacia, para mim, tem esse
sentido..."
Quero parabenizá-la pela sensibilidade e por não
ter perdido a capacidade de se indignar diante
de injustiças. Tenho dito que há um novo deus no
universo e que ele se chama dinheiro, onde tudo,
lamentavelmente, está a venda...
Elias Mattar Assad
é presidente da Associação Brasileira dos
Advogados Criminalistas.
abrac@abrac.adv.br