Terça-feira, tarde chuvosa, 17:30 horas.
No meio do engarrafamento na Avenida Brasil, RJ, direção Caxias, libertei o
pensamento e o olhar passeou pelo entorno. Tudo conhecido, nada novo, a não
ser aquela figura humana, encostada a amurada de um dos viadutos de acesso à
Ponte Rio-Niterói. De bermuda e camiseta, empunha numa das mãos um
guarda-chuvas aberto contra a garoa e na outra carrega dois grandes sacos
repletos de algo que não entendi a primeira vista.
Mas, afinal, que diabos faz ela ali?
A cena inusitada trouxe-me de volta o pensamento. Imaginei um carro
enguiçado, um acidente, isso, aquilo, até mesmo que ela estivesse tentando
atravessar as pistas.
Quanta ignorância a minha...
Aquela mulher solitária, na chuva, em meio ao trânsito lento, simplesmente
tentava, em investidas arriscadas, vender biscoitos. Era este o conteúdo dos
sacos.
O pensamento voou de novo, mas desta vez, na direção de tantos brasileiros
que, como aquela mulher, driblam carros, etc e tal para trabalhar e levar
para casa o dinheiro honesto.
Lembrei-me de meu pai citando um contemporâneo seu que disse: "chegará o dia
em que o brasileiro sentirá vergonha de ser honesto". Particularmente
discordo, e exemplos vivos como esta mulher reforçam o meu pensar.
Honestidade nunca sai de moda. O povo não quer "bolsa-esmola", mas sim,
trabalho digno para viver e criar a família. Ao contrário do que muitos
pensam, a "lei de Gerson", aquela de levar vantagem em tudo, não pegou. O
povo brasileiro é trabalhador e honesto.
O resto é exceção.
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