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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 05 de novembro de 2011 20:28:27                                               
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COLUNISTAS

Papel sem dono

   

Maria Luiza Falcão

publicado em 05/11/2011

 

João ficou radiante ao receber aqueles cem reais, pois enfim ia poder saldar sua dívida com o Manoel da venda. Manoel recebeu o pagamento de cara fechada, afinal já estava esperando há quase um mês. Mas também não queria deixar transparecer a um simples pintor de paredes como João que ele, o dono daquela venda que era quase um supermercado, estava tão precisado daqueles cem reais para pagar um de seus fornecedores, o Pedro das farinhas. Pedro, porém, não escondeu o alívio que sentiu ao receber aqueles cem reais, pois a doença da mulher não podia esperar pelos remédios e ele não tinha mais cara para pedir fiado na farmácia do Augustinho. Assim, pôde chegar em casa e ver o sorriso da esposa quando ele lhe entregou os remédios. Augustinho... ah... vivia um tormento, pois o filho, o Junior, andava às voltas com uma turma da pesada, que vivia lhe cobrando umas dívidas que ele, Augustinho, não conseguia bem entender. Na verdade, ele não queria entender... há tempo o filho pedia e ele negava, mas o coração de pai ficava apertado vendo-o naquela agonia. Enfim, decidiu lhe entregar os cem reais, não sem antes lhe passar um monte de conselhos, avisos, ameaças... Junior mal acabou de ouvir aquele desfiar de rosário e partiu para o morro, onde o Wando do pó fazia ponto.

Novas ameaças: daqui pra frente, sem grana, sem bagulho. Wando não era má pessoa, apenas mais um trabalhador. Pelo menos era assim que a mãe o via e recebeu de suas mãos aqueles tão esperados cem reais. Maria tinha uma lista de prioridades, mas encabeçando estava seu compromisso com a fé. Afinal, as obras de sua igreja, e o próprio local onde os encontros aconteciam, não eram de graça. Aluguel, tanta gente mais precisada que ela pra ser ajudada... de todas as obras, a que mais lhe tocava o coração, era a que trabalhava com os jovens viciados... tanto sofrimento daquelas pobres criaturas, das famílias... agradecia aos céus o seu Wando nunca ter caído no vício... nos dias de hoje, é sorte mesmo! À noite, na hora de sempre, deixou lá sua contribuição. Uma benção, pensou Ernestina... naquela noite o povo compareceu direitinho...

Deus não cobra dinheiro pelo tanto que nos dá, mas a vida aqui na Terra não anda sem ele... no dia seguinte, bem cedinho, deixou com João os cem reais que ele, meio envergonhado, cobrara pela pintura e os consertos que a casa de obras assistenciais há tanto precisava... ele bem preferia fazer de graça, mas a dívida com o Manoel da venda não lhe saía da cabeça...

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Maria Luiza Falcão escritora, artista plástica, atriz, cenógrafa e figurinista.
 

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