João ficou radiante ao receber aqueles cem reais, pois enfim ia poder saldar
sua dívida com o Manoel da venda. Manoel recebeu o pagamento de cara fechada,
afinal já estava esperando há quase um mês. Mas também não queria deixar
transparecer a um simples pintor de paredes como João que ele, o dono daquela
venda que era quase um supermercado, estava tão precisado daqueles cem reais
para pagar um de seus fornecedores, o Pedro das farinhas. Pedro, porém, não
escondeu o alívio que sentiu ao receber aqueles cem reais, pois a doença da
mulher não podia esperar pelos remédios e ele não tinha mais cara para pedir
fiado na farmácia do Augustinho. Assim, pôde chegar em casa e ver o sorriso da
esposa quando ele lhe entregou os remédios. Augustinho... ah... vivia um
tormento, pois o filho, o Junior, andava às voltas com uma turma da pesada, que
vivia lhe cobrando umas dívidas que ele, Augustinho, não conseguia bem entender.
Na verdade, ele não queria entender... há tempo o filho pedia e ele negava, mas
o coração de pai ficava apertado vendo-o naquela agonia. Enfim, decidiu lhe
entregar os cem reais, não sem antes lhe passar um monte de conselhos, avisos,
ameaças... Junior mal acabou de ouvir aquele desfiar de rosário e partiu para o
morro, onde o Wando do pó fazia ponto.
Novas ameaças: daqui pra frente, sem grana, sem bagulho. Wando não era má
pessoa, apenas mais um trabalhador. Pelo menos era assim que a mãe o via e
recebeu de suas mãos aqueles tão esperados cem reais. Maria tinha uma lista de
prioridades, mas encabeçando estava seu compromisso com a fé. Afinal, as obras
de sua igreja, e o próprio local onde os encontros aconteciam, não eram de
graça. Aluguel, tanta gente mais precisada que ela pra ser ajudada... de todas
as obras, a que mais lhe tocava o coração, era a que trabalhava com os jovens
viciados... tanto sofrimento daquelas pobres criaturas, das famílias...
agradecia aos céus o seu Wando nunca ter caído no vício... nos dias de hoje, é
sorte mesmo! À noite, na hora de sempre, deixou lá sua contribuição. Uma benção,
pensou Ernestina... naquela noite o povo compareceu direitinho...
Deus não cobra dinheiro pelo tanto que nos dá, mas a vida aqui na Terra não
anda sem ele... no dia seguinte, bem cedinho, deixou com João os cem reais que
ele, meio envergonhado, cobrara pela pintura e os consertos que a casa de obras
assistenciais há tanto precisava... ele bem preferia fazer de graça, mas a
dívida com o Manoel da venda não lhe saía da cabeça...