|
O primeiro movimento de fuga -sob o manto da "proteção" -foi o realizado pelas elites, já na década de 1980 e mais
acentuadamente na década de 1990, deslocando-se para os chamados bairros "alfaviles"
e seus similares. Preocupados com a violência, os assaltos e a insegurança pública,
esta parcela da sociedade preferiu encastelar-se em suas mansões protegidas por
seguranças, cercas elétricas, câmaras etc. Pensaram que a arquitetura do
isolamento acabaria com seus problemas. Ledo engano.
A pobreza e a exclusão permaneceram. Pior, em
muitos lugares mesmo com todo este aparato de segurança, os casos de assaltos,
arrombamentos e invasões de condomínios persistiram. A arquitetura cedeu seu
lugar para uma espécie de antropofagia urbana, onde os mais fortes vão comendo
os mais fracos.
Outro movimento foi - e está sendo realizado em
escala acentuada - o da blindagem dos automóveis isolando os indivíduos,
tornando-os um estranho no meio da urbe. Reclusos numa atmosfera de ar
condicionado, luxo desigual, blindagem dos vidros, alarmes e seguranças: tudo
como uma imagem virtual.
De nada adiantou... de que adianta?
Enquanto estes senhores e blindam e levam seus
filhotes de cachorros para "pets" e lá deixam cerca de R$ 1.000,00 por mês para
manter este mimo. Nada contra tratar bem os animais domesticados. Lá fora, as
crianças pedem o mínimo... Quanto custa uma doação para uma instituição
séria que contribui para melhorar a qualidade de vida destas pessoas, dando-lhes
cidadania e dignidade?
Lá na ponta, na periferia,
muitas associações precisam e pedem ajuda para se manter e tentar tirar da
exclusão centenas de crianças e adolescentes da marginalidade. Uma luta dura,
séria e geralmente sem recursos. Quanto custa uma
criança na escola? Quanto custa tirá-la da marginalidade? Uma ação aqui outra
ali, mas é muito pouco.
A elite prefere dizer que
isto é problema do Estado... Prefere remeter ao sistema corrompido as mazelas da
sociedade.
O Estado já sabemos o que
não faz...
Enquanto isto vejo na TV
que um trabalhador no Piauí, recebe R$ 5 reais por dia (R$ 200,00 por mês) para derrubar
folhas de carnaúba e alimentar um rico negócio lá na outra ponta da escala de
produção. Trabalho duro efetuado das 5 horas da madrugada até as 14 horas do dia
sob sol ardente. E este trabalho só durará 4 meses, nos outros o trabalhador
estará desempregado. R$ 1.000,00 (o valor do gasto no pet-shop) representa o que
este trabalhador vai receber durante cinco meses de intenso trabalho debaixo do
sol escaldante do Norte.
Os seres blindados da
realidade, não sentem as agruras do real, muito menos o sol escaldante do Norte
(a não ser em seus espirituosos passeios turísticas de "aventura"). Estes
sujeitos blindados são como seres vivendo numa espécie de "second life":
preferem viver uma "realidade fabricada". Só se dão conta quanto a violência
bate na sua porta. A blindagem não é só no carro, parece já ter chegado no
corpo, na alma.
Digamos que cansei sim,
cansei da hipocrisia das elites que preferem isolar em "sua realidade" e ignorar
a verdade real e não enfrentar o desafio da exclusão e da diminuição da
violência.
A culpa é sempre dos
outros. Nunca nossa.
http://gilpartes.spaces.live.com/ |