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A
prostituta de
todos
O filósofo
inglês
Francis Bacon (1501-1626) ficou
conhecido
como o pensador
que
via a natureza como
"a prostituta de todos"
e que fazia um
chamado para todas as futuras gerações
para "domesticar", "ajustar",
"moldar" e "configurar" a
natureza como pretexto
para o homem tornar-se o
senhor
soberano, indiscutível,
do mundo físico.
Bacon
fundamentava seu pensamento
nas possibilidades tecnológicas de construção de uma
nova
sociedade de acordo
com
a natureza do homem
real
e com sua
capacidade
para controlar as leis
naturais descobertas
pela
ciência.
Segundo Bertrand Russell,
Bacon "foi o primeiro
de uma longa série de
filósofos de espírito cientifico que
ressaltou a importância da indução
como coisa oposta
à dedução como a
maioria
de seus sucessores".
(Russell, 1969: 63).
Jeremy Rifkin,
autor
de uma das obras mais
controversas sobre a engenharia
genética onde diz
que
o gene não é uma
invenção
e sim uma descoberta
da natureza, afirma que
encontrar novas e
mais
poderosas forças para
controlar
e utilizar a natureza
com
finalidades utilitárias e comerciais
tem sido o sonho máximo
e o tema central
desde
Idade Média.
"Foi Francis
Bacon,
fundador da ciência
moderna,
que instigou as futuras gerações
a "ajustar", "moldar" e "configurar"
a natureza, de modo a
"ampliar as fronteiras
do império humano
para
a realização de tudo
que
é possível". Munido
de seu método
científico,
Bacon estava convencido
de que tínhamos, finalmente,
uma metodologia que
permitiria "conquistar e subjugar" a
natureza e "abalar até
suas fundações".
Bacon, com
sua
noção de sociedade
inteiramente
regulada por
métodos
científicos, estabeleceu os
fundamentos
para o Iluminismo
que
se seguiu, fornecendo uma visão
sistemática
da ascendência final da
humanidade
sobre a natureza.
Isaac Newton (1642-1727), René
Descartes
(1596 – 1650), John Locke (1632-1704) e outros
filósofos iluministas construíram uma visão do
mundo
que continua a inspirar
muitos
biólogos moleculares e empresários
de hoje, em
sua
jornada rumo a
capturar
e colonizar a última
fronteira, o domínio
genético, cerne
do mundo natural." (Rifkin,
1999: 238).
Niklas Luhmann, ao analisar duas correntes
teóricas de signo
diferente, afirma que
o posicionamento de Bacon
e de toda a tendência
científica que
com
ele se inicia é “Conhecer
cientificamente os princípios da
natureza
e evitar os juízos erróneos
não
é requisito indispensável
para que o mundo
continua a existir. Como
também
não se precisa
ter
conhecimento de ótica
para ver correctamente. Não
obstante este
conhecimento
serve para a eliminação dos
defeitos
e para a melhoria progressiva das
condições de vida da
humanidade.” (Luhmann, 1992: 40)
No
século XVII, as mudanças revolucionárias foram implementadas e
complementadas por René Descartes,
considerado o pai do racionalismo
moderno e criador do
método analítico. Escreveu:
“Rejeitamos todo conhecimento
que é meramente
provável e consideramos que
só se deve acreditar naquelas
coisas que são
perfeitamente conhecidas e sobre as
quais não pode haver
dúvidas.” O corpo cartesiano é
apenas uma máquina. Em
sua concepção, o
universo material e os
organismos vivos eram
máquinas, e a natureza
era regulada por
leis mecânicas.
Descartes formula um
pensamento filosófico dualista: a res cogitans (o
reino da mente) e a res
extensa (o reino da
matéria), o que permitiu aos
cientistas tratar a matéria
como inerte, morta.
Descartes tinha como
projeto atingir, no que
se refere à mente, o mesmo
grau de precisão
matemática: “penso,
logo existo”.
A
metáfora da máquina cartesiana é,
posteriormente, projetada para a
visão de Isaac Newton,
que forneceu as bases da
Mecânica Clássica estabelecendo uma
visão do mundo como
uma espetacular máquina
perfeita, movida por
leis causais determinadas,
em última instância,
por seu Divino
criador: as leis de
Deus.
Locke segue os
passos
empíricos de Bacon,
reformulando-os. Para Locke, a idéia
de propriedade surge quando
o homem olha
algo, decide pegar e dizer
que
é seu. A idéia de
propriedade
é dada pelo homem,
a natureza está somente à
serviço
dele. O homem não se
confunde com a própria
natureza, porque o
homem
é o ser principal sobre
a terra e a natureza
só
está ali para servi-lo. E de
preferência,
bem servido!
Uma boa
batalha
no campo social se dá
entre Rousseau e Hobbes (1588-1679), filósofo
que
investigou a essência do Estado
moderno, fornece a idéia
de que a transição
para
o social faz-se a custa
do total aniquilamento
do natural. Para Hobbes, no
estado
natural o homem
era
livre, egoísta, igual
em capacidade a
todos
os outros: o homem
era
o lobo do homem.
Em
contraposição a Hobbes, o pensador
francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778),
expressão
máxima do pensamento iluminista,
afirma que o homem
nasce essencialmente bom,
desprovido do vício e
de qualquer forma de
egoísmo. A vida
social
é que corrompe o homem.
A sociedade civil e
não
o estado da natureza
é o que prevalece na ótica
de Rousseau.
Um
dos
primeiros estudiosos
de Rousseau no Brasil, Lourival Gomes Machado,
destacava na década de 50: "O
contrato
social nada
mais
é do que a transposição, para o
plano
da consciência, da realidade
social
e a formulação explícita,
em regra
racionalmente
formulada e voluntariamente aceita, do processo
natural
da formação dos grupos
e da transformação do indivíduo pelas
relações
sociais. (Machado,
1954 : 103).
Podemos
observar analisando com a
experiência histórica as
relações profundas da comunicação e
de suas tecnologias
com o poder incrementado desde
o século XVII. A imprensa
serviu para suprimir a carência
da burguesia, detentora do capital
econômico, mas
desprovida de capital simbólico,
compartilhando assim dos anseios
e de uma visão de mundo
notadamente burguês.
Modernidade
degradante
Esta
visão
de que a degradação
da natureza se dá no início
da modernidade é compartilhada pelo sociólogo português
Boaventura José dos Santos:
”Quanto
ao vínculo com a
natureza
a condição teórica da
sua degradação teve
início
nos primórdios da
modernidade com a revolução
científica galiláica, neutoniana. As
condições
sociais foram múltiplas e começaram
com
a expansão do capitalismo
comercial e os descobrimentos. O
conceito
de res extensa, a que
Descartes reduziu a natureza,
é isomórfico do conceito de terra
nullius desenvolvido pelos
juristas europeus
para
justificar a ocupação dos
territórios
do Novo Mundo.
É
também
por essa razão
que
a concepção dos povos
ameríndios como
homo naturalis traz consigo a
descontextualização da sua subjectividade. Daí
em
diante, a natureza
só
poderia ter acesso
à cidade por duas
vias, ambas ditadas por esta:
como
jardim botânico,
jardim
zoológico e museu
etnográfico, por um
lado,
ou como
matéria-prima,
por outro. O
papel
do estado foi crucial
por ter sido
indireto
ao criar e aplicar um
regime jurídico de
propriedade
que simultaneamente legitimava pelo
mesmo princípio e
matinha incomunicáveis dois
processos
históricos simbólicos: a exploração
da natureza e a exploração
do homem pelo homem”.
(Santos, 1997 : 142).
A
natureza, da Idade Média
até
o início da Modernidade, passa
a ser uma natureza
abstrata. A “velha”
natureza passa
a ser vista como
a paisagem, o espaço
da floresta, criando assim
o mito da floresta
intocável. Uma natureza
sem ciência. A
natureza é aquilo que
o pintor pode pintar,
retratar
paisagísticamente. Com
o Iluminismo a natureza
cede lugar à razão.
Segundo Edgar Morin, “Thomas Kuhn
demonstrou em seu
livro A Estrutura
das Revoluções Científicas
que
a ciência evolui não
só
“progressor” e “seletiva”, mas
também, “revolucionariamente” (Morin, 2001: 149),
no nível dos princípios de
explicação
ou paradigma
que
comandam nossa visão
do mundo; não
só
a visão do mundo
que
se alarga mais e mais,
é a própria estrutura
da visão do mundo
que
se transforma.
A
insustentável
comunicação
de massas
"A
comunicação
de acordo
com
Maturana, não
é uma transmissão
de informações
mas,
em
vez
disso, é uma coordenação
de comportamentos
entre
organismos
vivos
por
meio
de um
acoplamento
estrutural mútuo.
Essa coordenação
mútua
de comportamento
é característica-chave de
comunicação
para
todos
os organismos
vivos,
com
seus
sistemas
nervosos
e se torna
mais
sutil
e elaborada em
sistemas
nervosos
de complexidade crescente.
(Capra, 1998 : 224).
A
comunicação
de massas está baseada
numa posição insustentável
e precisa urgente de
um
processo de reformulação de conceituação
de um novo paradigma
para seguir enfrente o fluxo
da vida, da harmonia
das relações e do desenvolvimento
sustentável.
Para
Rifkin, ”A imprensa
criou um modo de
pensar
e uma visão de mundo
apropriados
para um modo
de viver e de ser “industrioso”
no mundo.”
“Ao
conceber a natureza
como uma improbabilidade superada acede-se a uma
nova
dimensão a partir da
qual
se pode valorizar o que
já
se conseguiu e o que falta
melhorar; torna-se então
patente, pelo menos
que toda a
destruição
de uma ordem remete para a
improbabilidade de uma reconstrução.” (Luhmann,
1992 : 41). Mesmo
não tendo a mesma
concepção
de comunicação de massas
de outros pensadores,
podemos nos apropriar do
conceito
de improbabilidade de Luhmann para nossa
reflexão dobre a
degradação
da comunicação.
Mesmo, o mais
cibernético dos filósofos modernos
não deixa de
reconhecer
que “os meios de
comunicação
de massa pouco ajudam
a elaborar coletivamente
soluções
para seus problemas
e a pensar em
conjunto” (Lévy. 2001 : 60).
A sustentabilidade
“Não
se pode já continuar
a pensar ingenuamente que
existem possibilidades ilimitadas de aperfeiçoamento a partir
da “natureza”,
tanto se se trata
da natureza
física como da
humana” Niklas Luhmann.
Improbabilidade da comunicação.
O
tema
da sustentabilidade originou-se na economia,
sintetizado na expressão “desenvolvimento
sustentável” e apropriado
pela ecologia, para
inserir-se definitivamente, e de forma
urgente na nossa
visão, no campo da
comunicação
de massas. Tal
preocupação
pode ser sintetizada no lema “uma
comunicação sustentável
para a sobrevivência do
planeta
e para a harmonia dos
homens”.
Mas
o que
seria uma comunicação sustentável?
Acreditamos que esse
tema
deverá dominar muitos
debates
no campo da comunicação
nas próximas décadas.
Há uma
crescente
preocupação de estudiosos
sobre a explosão de
imagens
e da ausência de elementos
éticos na mídia.
Notícia
que se mistura
com
a propaganda e vice-versa,
verdades e mentiras
numa sucessão de debates
que em
outra
análise podemos dizer
que
o “mercado de peixes
não
cheira bem”.
”Desde
a caverna, os homens
se comunicam para congregar politicamente. A
invenção
da imprensa é um dos
momentos
maiores da história
da humanidade pela
liberdade
de expressão e opinião
que propicia, e o aumento de
oportunidades
iguais para todos
que favorece. O problema
é que, apesar de
todo
o aparato comunicativo
moderno, maximizado pela
Internet – teoricamente a grande
propulsora democrática e de aproximação
de mundos -, a civilização
atingiu um paroxismo
tal
que a entropia do
sistema
pode estar à vista,
como
gritam a violência urbana
e o terrorismo globalizado. Sintoma
de uma profunda crise
da pretensa organização
por nós sonhada?
Estaremos indo de volta à barbárie?
Contra esta situação,
a mídia tem uma responsabilidade
inarredável, porque o
diálogo entre
todos
os setores sociais é
imprescindível
para que prevaleça o
consenso
democrático.” (Paiva, 2002 : 42).
Seguindo o
desenvolvimento
do pensamento de Maturana e Bateson de
que
“perturbações provenientes do meio
ambiente
desencadeiam mudanças estruturais nos
organismos
vivos” e apostando na autonomia
e na auto-referencialidade “Outros
autores
têm afirmado que uma rede
social autopoética pode ser
definida
se a descrição de sistemas
sociais humanos
permanecer
inteiramente dentro
do domínio social.
Essa escola de pensamento
foi introduzida na Alemanha pelo sociólogo Niklas Lulmann,
que
desenvolveu a concepção de autopoiese
social
de maneira consideravelmente detalhada”.
O ponto
central
de Luhmann consiste em identificar
os processos sociais
da rede autopoética como
processos de comunicação.
Os sistemas sociais
usam a comunicação como
modo particular de
reprodução
autopoética. Seus elementos
são comunicações
que
são produzidas e reproduzidas por
uma rede de comunicações
e que não podem
existir
fora dessa rede.” (Capra,
1998: 237).
O
conceito
de autopoiese empregado por
Luhmann foi criado pelos
biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco
Varela e refere-se à capacidade de
autoprocessamento dos organismos
vivos.
Um sistema
autopoético é aquele que
pode criar a sua
própria
estrutura e os elementos
de que se compõe. Cada
indivíduo cria e
modifica seu meio
ambiente
e com isso
cria
e modifica a si mesmo,
cada um a
seu
modo dá sentido às
coisas
do seu redor, uma
diferença
no posta mais na
relação
parte-todo e sim sistema-meio
ambiente.
Num
futuro, provavelmente dominado pela
tecnologia
da genética - apresentada a partir
dos anos 90, do século
XX - e que representa uma mudança
de qualidade no processo de
transformações tecnológicas. Num cenário
em
que o rompimento das
barreiras
biológicas, passa a ser
cada
vez mais
tênue
entre o que é
natural
e o que é sintético.
Se antes, trabalhávamos com
a idéia de que a
natureza
poderia ser fundida,
queimada, derretida, forjada, soldada:
a prostituta
de todos. Agora,
sobretudo
no desenvolvimento das complexidades se
passa
a juntar, recombinar,
inserir
e costurar matéria
viva.
Para
a humanidade
o fim da era da
pirotecnia
nos meios de
comunicação
e a restituição da consensualidade, do
amor
e da ética como
fundamento
de nossas diferenças e não
negar que somos
humanos
é o desafio da contemporaneidade. Um
desafio nada fácil
diante da complexidade do ser
humano.
Afinal, ainda
tão
racionalistas, os homens e, sobretudo
os intelectuais tremem quando
outros elementos
além
dos “meramente racionais”
ou objetivos entram
em
campo. Não é à
toa
que durante
muito
tempo, por
exemplo, o tema meio
ambiente
era retratado pejorativamente
como assunto de de
gente
“não muito
homem”.
Parafraseando
Edgar Morin acreditamos que compreender
é ao mesmo
tempo meio e
fim
da comunicação humana,
portanto não pode
ser
desconsiderado pelas novas
tecnologias. Estamos aqui
para tentar
compreender.
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uma nova
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