spacer

ISSN 1678-8419         última atualização em: domingo, 24 de fevereiro de 2008 22:10:08                                               

 
  Principal
 Agenda
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Cultura
 Crônicas
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Humor
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Mirim
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Memória Sindical
 Assédio Moral
.
Leia na Revista Partes
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
COLUNISTAS

As maçãs não caem para trás

   

Gilberto da Silva

publicado em 08/11/2007

quando nosso acoplamento estrutural fracassa em alguma dimensão do nosso existir, refletimos e nos damos conta de até que ponto a trama de nossas coordenações comportamentais na manipulação de nosso mundo – e a comunicaçãosão inseparáveis de nossa experiência”. Humberto Maturana
 

 

A prostituta de todos

O filósofo inglês Francis Bacon (1501-1626) ficou conhecido como o pensador que via a natureza como "a prostituta de todos" e que fazia um chamado para todas as futuras gerações para "domesticar", "ajustar", "moldar" e "configurar" a natureza como pretexto para o homem tornar-se o senhor soberano, indiscutível, do mundo físico. Bacon fundamentava seu pensamento nas possibilidades tecnológicas de construção de uma nova sociedade de acordo com a natureza do homem real e com sua capacidade para controlar as leis naturais descobertas pela ciência.

Segundo Bertrand Russell, Bacon "foi o primeiro de uma longa série de filósofos de espírito cientifico que ressaltou a importância da indução como coisa oposta à dedução como a maioria de seus sucessores". (Russell, 1969: 63).

Jeremy Rifkin, autor de uma das obras mais controversas sobre a engenharia genética onde diz que o gene não é uma invenção e sim uma descoberta da natureza, afirma que encontrar novas e mais poderosas forças para controlar e utilizar a natureza com finalidades utilitárias e comerciais tem sido o sonho máximo e o tema central desde Idade Média.

"Foi Francis Bacon, fundador da ciência moderna, que instigou as futuras gerações a "ajustar", "moldar" e "configurar" a natureza, de modo a "ampliar as fronteiras do império humano para a realização de tudo que é possível". Munido de seu método científico, Bacon estava convencido de que tínhamos, finalmente, uma metodologia que permitiria "conquistar e subjugar" a natureza e "abalar até suas fundações". Bacon, com sua noção de sociedade inteiramente regulada por métodos científicos, estabeleceu os fundamentos para o Iluminismo que se seguiu, fornecendo uma visão sistemática da ascendência final da humanidade sobre a natureza. Isaac Newton (1642-1727), René Descartes (1596 – 1650), John Locke (1632-1704) e outros filósofos iluministas construíram uma visão do mundo que continua a inspirar muitos biólogos moleculares e empresários de hoje, em sua jornada rumo a capturar e colonizar a última fronteira, o domínio genético, cerne do mundo natural." (Rifkin, 1999: 238).


Niklas Luhmann, ao analisar duas correntes teóricas  de signo diferente, afirma que o posicionamento de Bacon e de toda a tendência científica que com ele se inicia é “Conhecer cientificamente os princípios da natureza e evitar os juízos erróneos não é requisito indispensável para que o mundo continua a existir. Como também não se precisa ter conhecimento de ótica para ver correctamente. Não obstante este conhecimento serve para a eliminação dos defeitos e para a melhoria progressiva das condições de vida da humanidade.” (Luhmann, 1992: 40)

No século XVII, as mudanças revolucionárias foram implementadas e complementadas por René Descartes, considerado o pai do racionalismo moderno e criador do método analítico. Escreveu: “Rejeitamos todo conhecimento que é meramente provável e consideramos que se deve acreditar naquelas coisas que são perfeitamente conhecidas e sobre as quais não pode haver dúvidas.”  O corpo cartesiano é apenas uma máquina. Em sua concepção, o universo material e os organismos vivos eram máquinas, e a natureza era regulada por leis mecânicas.

Descartes formula um pensamento filosófico dualista: a res cogitans (o reino da mente) e a res extensa (o reino da matéria), o que permitiu aos cientistas tratar a matéria como inerte, morta. Descartes tinha como projeto atingir, no que se refere à mente, o mesmo grau de precisão matemática: “penso, logo existo”.

A metáfora da máquina cartesiana é, posteriormente, projetada para a visão de Isaac Newton, que forneceu as bases da Mecânica Clássica estabelecendo uma visão do mundo como uma espetacular máquina perfeita, movida por leis causais determinadas, em última instância, por seu Divino criador: as leis de Deus.

Locke segue os passos empíricos de Bacon, reformulando-os. Para Locke, a idéia de propriedade surge quando o homem olha algo, decide pegar e dizer que é seu. A idéia de propriedade é dada pelo homem, a natureza está somente à serviço dele. O homem não se confunde com a própria natureza, porque o homem é o ser principal sobre a terra e a natureza está ali para servi-lo. E de preferência, bem servido!

Uma boa batalha no campo social se dá entre Rousseau e Hobbes (1588-1679), filósofo que investigou a essência do Estado moderno, fornece a idéia de que a transição para o social faz-se a custa do total aniquilamento do natural. Para Hobbes, no estado natural o homem era livre, egoísta, igual em capacidade a todos os outros: o homem era o lobo do homem. Em contraposição a Hobbes, o pensador francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), expressão máxima do pensamento iluminista, afirma que o homem nasce essencialmente bom, desprovido do vício e de qualquer forma de egoísmo.  A vida social é que corrompe o homem. A sociedade civil e não o estado da natureza é o que prevalece na ótica de Rousseau.

Um dos primeiros estudiosos de Rousseau no Brasil, Lourival Gomes Machado, destacava na década de 50: "O contrato social nada mais é do que a transposição, para o plano da consciência, da realidade social e a formulação explícita, em regra racionalmente formulada e voluntariamente aceita, do processo natural da formação dos grupos e da transformação do indivíduo pelas relações sociais. (Machado, 1954 : 103).

Podemos observar analisando com a experiência histórica as relações profundas da comunicação e de suas tecnologias com o poder incrementado desde o século XVII. A imprensa serviu para suprimir a carência da burguesia, detentora do capital econômico, mas desprovida de capital simbólico, compartilhando assim dos anseios e de uma visão de mundo notadamente burguês.

 

Modernidade degradante

Esta visão de que a degradação da natureza se dá no início da modernidade é compartilhada pelo sociólogo português Boaventura José dos Santos:

Quanto ao vínculo com a natureza a condição teórica da sua degradação teve início nos primórdios da modernidade com a revolução científica galiláica, neutoniana. As condições sociais foram múltiplas e começaram com a expansão do capitalismo comercial e os descobrimentos. O conceito de res extensa, a que Descartes reduziu a natureza, é isomórfico do conceito de terra nullius desenvolvido pelos juristas europeus para justificar a ocupação dos territórios do Novo Mundo.

É também por essa razão que a concepção dos povos ameríndios como homo naturalis traz consigo a descontextualização da sua subjectividade. Daí em diante, a natureza poderia ter acesso à cidade por duas vias, ambas ditadas por esta: como jardim botânico, jardim zoológico e museu etnográfico, por um lado, ou como matéria-prima, por outro. O papel do estado foi crucial por ter sido indireto ao criar e aplicar um regime jurídico de propriedade que simultaneamente legitimava pelo mesmo princípio e matinha incomunicáveis dois processos históricos simbólicos: a exploração da natureza e a exploração do homem pelo homem”. (Santos, 1997 : 142).

A natureza, da Idade Média até o início da Modernidade, passa a ser uma natureza abstrata. A “velha natureza passa a ser vista como a paisagem, o espaço da floresta, criando assim o mito da floresta intocável. Uma natureza sem ciência. A natureza é aquilo que o pintor pode pintar, retratar paisagísticamente. Com o Iluminismo a natureza cede lugar à razão.

Segundo Edgar Morin, “Thomas Kuhn demonstrou em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas que a ciência evolui não “progressor” e “seletiva”, mas também, “revolucionariamente” (Morin, 2001: 149), no nível dos princípios de explicação ou paradigma que comandam nossa visão do mundo; não a visão do mundo que se alarga mais e mais, é a própria estrutura da visão do mundo que se transforma.

 
A insustentável comunicação de massas

"A comunicação de acordo com Maturana, não é uma transmissão de informações mas, em vez disso, é uma coordenação de comportamentos entre organismos vivos por meio de um acoplamento estrutural mútuo. Essa coordenação mútua de comportamento é característica-chave de comunicação para todos os organismos vivos, com seus sistemas nervosos e se torna mais sutil e elaborada em sistemas nervosos de complexidade crescente. (Capra, 1998 : 224). 

A comunicação de massas está baseada numa posição insustentável e precisa urgente de um processo de reformulação de conceituação de um novo paradigma para seguir enfrente o fluxo da vida, da harmonia das relações e do desenvolvimento sustentável.

Para Rifkin, ”A imprensa criou um modo de pensar e uma visão de mundo apropriados para um modo de viver e de serindustrioso” no mundo.”

“Ao conceber a natureza como uma improbabilidade superada acede-se a uma nova dimensão a partir da qual se pode valorizar o que se conseguiu e o que falta melhorar; torna-se então patente, pelo menos que toda a destruição de uma ordem remete para a improbabilidade de uma reconstrução.” (Luhmann, 1992 : 41). Mesmo não tendo a mesma concepção de comunicação de massas de outros pensadores, podemos nos apropriar do conceito de improbabilidade de Luhmann para nossa reflexão dobre a degradação da comunicação.

Mesmo, o mais cibernético dos filósofos modernos não deixa de reconhecer que “os meios de comunicação de massa pouco ajudam a elaborar coletivamente soluções para seus problemas e a pensar em conjunto” (Lévy. 2001 : 60).

 

A sustentabilidade

Não se pode continuar a pensar ingenuamente que existem possibilidades ilimitadas de aperfeiçoamento a partir da “natureza”, tanto se se trata da natureza física como da humana” Niklas Luhmann. Improbabilidade da comunicação.

 

O tema da sustentabilidade originou-se na economia, sintetizado na expressãodesenvolvimento sustentável” e apropriado pela ecologia, para inserir-se definitivamente, e de forma urgente na nossa visão, no campo da comunicação de massas. Tal preocupação pode ser sintetizada no lema “uma comunicação sustentável para a sobrevivência do planeta e para a harmonia dos homens”.

Mas o que seria uma comunicação sustentável? Acreditamos que esse tema deverá dominar muitos debates no campo da comunicação nas próximas décadas.

Há uma crescente preocupação de estudiosos sobre a explosão de imagens e da ausência de elementos éticos na mídia. Notícia que se mistura com a propaganda e vice-versa, verdades e mentiras numa sucessão de debates que em outra análise podemos dizer que o “mercado de peixes não cheira bem”.

Desde a caverna, os homens se comunicam para congregar politicamente. A invenção da imprensa é um dos momentos maiores da história da humanidade pela liberdade de expressão e opinião que propicia, e o aumento de oportunidades iguais para todos que favorece. O problema é que, apesar de todo o aparato comunicativo moderno, maximizado pela Internet – teoricamente a grande propulsora democrática e de aproximação de mundos -, a civilização atingiu um paroxismo tal que a entropia do sistema pode estar à vista, como gritam a violência urbana e o terrorismo globalizado. Sintoma de uma profunda crise da pretensa organização por nós sonhada? Estaremos indo de volta à barbárie? Contra esta situação, a mídia tem uma responsabilidade inarredável, porque o diálogo entre todos os setores sociais é imprescindível para que prevaleça o consenso democrático.” (Paiva, 2002 : 42).

Seguindo o desenvolvimento do pensamento de Maturana e Bateson de que “perturbações provenientes do meio ambiente desencadeiam mudanças estruturais nos organismos vivos” e apostando na autonomia e na auto-referencialidade “Outros autores têm afirmado que uma rede social autopoética pode ser definida se a descrição de sistemas sociais humanos permanecer inteiramente dentro do domínio social. Essa escola de pensamento foi introduzida na Alemanha pelo sociólogo Niklas Lulmann, que desenvolveu a concepção de autopoiese social de maneira consideravelmente detalhada”.

O ponto central de Luhmann consiste em identificar os processos sociais da rede autopoética como processos de comunicação. Os sistemas sociais usam a comunicação como modo particular de reprodução autopoética. Seus elementos são comunicações que são produzidas e reproduzidas por uma rede de comunicações e que não podem existir fora dessa rede.” (Capra, 1998: 237).

O conceito de autopoiese empregado por Luhmann foi criado pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela e refere-se à capacidade de autoprocessamento dos organismos vivos. Um sistema autopoético é aquele que pode criar a sua própria estrutura e os elementos de que se compõe. Cada indivíduo cria e modifica seu meio ambiente e com isso cria e modifica a si mesmo, cada um a seu modosentido às coisas do seu redor, uma diferença no posta mais na relação parte-todo e sim sistema-meio ambiente.

Num futuro, provavelmente dominado pela tecnologia da genética - apresentada a partir dos anos 90, do século XX - e que representa uma mudança de qualidade no processo de transformações tecnológicas.  Num cenário em que o rompimento das barreiras biológicas, passa a ser cada vez mais tênue entre o que é natural e o que é sintético.  Se antes, trabalhávamos com a idéia de que a natureza poderia ser fundida, queimada, derretida, forjada, soldada: a prostituta de todos. Agora, sobretudo no desenvolvimento das complexidades se passa a juntar, recombinar, inserir e costurar matéria viva.

Para a humanidade o fim da era da pirotecnia nos meios de comunicação e a restituição da consensualidade, do amor e da ética como fundamento de nossas diferenças e não negar que somos humanos é o desafio da contemporaneidade. Um desafio nada fácil diante da complexidade do ser humano. Afinal, ainda tão racionalistas, os homens e, sobretudo os intelectuais tremem quando outros elementos além dos “meramente racionaisou objetivos entram em campo. Não é à toa que durante muito tempo, por exemplo, o tema meio ambiente era retratado pejorativamente como assunto de de gentenão muito homem”.

Parafraseando Edgar Morin acreditamos que compreender é ao mesmo tempo meio e fim da comunicação humana, portanto não pode ser desconsiderado pelas novas tecnologias. Estamos aqui para tentar compreender.


Referências
Bibliográficas

CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1998.

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 3ª ed. São Paulo: Edições Loyola. 2001.

LUHMANN, Niklas. A improbabilidade da comunicação. Lisboa: Passagens. 1992.

MATURANA, Humberto R., Varela, Francisco J. A árvore do conhecimento: as fases biológicas da     compreensão humana. São Paulo: Palas Athenas, 2001.

MACHADO, Lourival Gomes. Homem e sociedade na teoria política de Jean-Jacques Rousseau: São  Paulo, 1954

MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. 5ªed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.

PAIVA, Raquel. Ética, cidadania e imprensa. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

RIFKIN, Jeremy. O século da biotecnologia. São Paulo: Makron Books, 1999.

RUSSELL, Bertrand. História da Filosofia. Livro terceiro. 3ª edição: São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1969.

SANTOS, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 4ª ed. São Paulo: Cortez, 1997.

 
 

spacer
::sobre o autor::

Gilberto da Silva é jornalista, professor e sociólogo da Prefeitura do Município de São paulo. Graduado em Jornalismo pela FIAM e Ciências Políticas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. É editor do site Revista Partes (www.partes.com.br) e pesquisador do grupo de pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo  na linha de pesquisa A Teoria Crítica e a Comunicação na Sociedade do Espetáculo organizado pela Cásper Líbero coordenada pelo Prof. Dr. Cláudio Novaes Pinto Coelho.

::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

MySpaces

http://gilpartes.spaces.live.com/

Plaxo

Lattes

Caixa Postal: 32701 -
CEP: 04208-970 - São Paulo - SP - Brasil

 

::uma foto, uma atitude::


 Clique na foto acima e entenda o Consumo Consciente
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 
 

::outros artigos::

Blindagens do real
publicado em 08/10/2007

Previsões trabalhistas
publicado em 07/09/2007

Sexo Mercadoria
publicado em 14/08/2007

De gados e boiadas
publicado em 08/07/2007

A falta de Eros em nossas vidas
publicado em 15/05/2007

Escuta, Zé Povinho!
publicado em 23/10/2006

Maios e maiôs
publicado em 28/04/2007

Lula, deixa o povo trabalhar!
publicado em 02/01/2007

::econotas::

Leilões e ações ambientais
Gilberto da Silva

publicado em 13/09/2007

Mudança no clima e nas atitudes
Gilberto da Silva
publicado em 01/08/07

A questão dos biocombustíveis
Gilberto da Silva

publicado em 21/06/2007

Madeiras certificadas e energia solar em Sampa
Por Gilberto da Silva
publicado em 14/05/2007

Natureza, a prostituta de todos!


::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2007
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil
spacer