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Fredric Jameson, crítico
literário
por formação, vem ao
longo
da sua trajetória
intelectual
desenvolvendo uma capacidade ímpar
na arte de unir o texto
ao contexto social,
histórico
e econômico, manifesto
notadamente no livro Pós
Modernismo: a
Lógica Cultural do Pós-modernismo. Nascido
em 14 de abril
de 1934, em Cleveland, Ohio, EUA, Jameson é
considerado uma das principais
referências
no debate sobre a
situação
cultural na contemporaneidade.
Num cenário
marcado pela
repulsa às tradições
dialéticas
hegeliana-marxista, Jameson tem se sobressaído como
um expoente do
marxismo
americano no âmbito da
crítica
literária e cultural, e pratica este
marxismo de forma sofisticada,
não
redutora e não mecânica
capaz de enfrentar o
desafio
de dar um
entendimento
crítico à sociedade e à
cultura
contemporânea, fator
que
o coloca em constantes
atritos com
demais
correntes marxistas.
Jameson dialoga com a inteligência
americana que é
normalmente
avessa ao marxismo e à
dialética.
O pensador
americano prioriza a interpretação
política dos textos
literários:
tudo é em
última
análise “político”,
mas
também dialoga com
outros
modelos interpretativos
da realidade tais
como
o estruturalismo (principalmente
Althusser), a psicanálise, o
existencialismo
(Sartre), a estética e os estudos
da linguagem. Entende que
uma das vantagens do marxismo
é compreender que
tudo
é um sistema e
que
as coisas estão inter-relacionadas, o papel
do intelectual é insistir
em
mostrar estas inter-relações
em
que as pessoas
que
estão imediatamente envolvidas não
necessariamente vêem. Jameson caracteriza o pensamento
dialético “como reflexividade
histórica”,
como a análise de
um
objeto que
também
envolve o estudo dos conceitos
e categorias que
precisamos associar ao objeto. (Jameson,1992:
110). Trata-se de pensar o presente tendo
como
suporte o materialismo
e a história e para
refletir
sobre este
presente
é necessário historicizar sempre,
não deixar de lado
as manifestações históricas, culturais, literárias
e artísticas.
Na crítica
jamesoniana nota-se uma predileção
teórica
por Adorno e
sua
“dialética negativa”
assim
como um
esforço
para caracterizar o pensador
alemão como um
teórico marxista
que
tão bem retratou a
relação
entre o universal e o
particular
e a produção cultural da sua
época.
Adorno, para Jameson foi “uma
descoberta
metodológica crucial nos
anos de declínio da
Era
Einsenhower quando parecia urgente
criar alguma concepção
dialética
no contexto da América do Norte” (Jameson,
1997:17).
Mesmo
tendo como
premissa teórica a
abordagem
adorniana da indústria cultural,
procura
superar os seus
limites,
não petrificando o pensamento
frankfurtiano nem a história
e sobretudo, não dogmatizando a
cultura. Há um
movimento forte
no discurso jamesoniano para
evitar
o reducionismo no tratamento da
cultura
e a procura pelo aprofundamento do
pensamento dos autores
da Escola de Frankfurt de forma
não
determinista ou
meramente
manipulatória.
A obra de
Adorno, Horkheimer, Marcuse e outros é intensamente teórica e fornece uma
metodologia de trabalho para a análise atenta precisamente desses produtos da
industria cultural que ela estigmatiza e que a vertente militante exalta.
Sucintamente,
essa visão pode ser caracterizada como a extensão e aplicação das teorias
marxistas de reificação da mercadoria às obras da cultura de massa. (Jameson,
1995:10)
Jameson não crê
que
a análise da cultura
de massa realizada pela
Escola de Frankfurt esteja esgotada
ou
superada, acredita, todavia, que
nem tudo pode
ser
visto pela
ótica
da manipulação e que
é preciso avançar nas
análises
frankfurtianas diante dos desafios
de uma nova etapa do
capitalismo.
O que é
insatisfatório no processo da Escola de Frankfurt não é o seu aparato negativo e
crítico, e sim o valor positivo do qual depende, notadamente, a valorização da
alta arte modernista tradicional como lócus de uma produção estética
“autônoma”, genuinamente crítica e subversiva. (Jameson, 1995:14)
Devemos levar
em
conta que a
indústria
cultural ainda é um
conceito
que deve ser utilizado na
contemporaneidade:
A atualidade
do conceito
de industria cultural não
pode ser
reconhecida se não
se levar
em
consideração
que
este
conceito foi elaborado
visando a compreensão
de um
fenômeno
social
que
não
para de se
desenvolver, acompanhando o
desenvolvimento do
capitalismo. (COELHO,
2002:37)
A indústria
cultural, na visão de Jameson, não
é uma teoria da cultura
e sim uma crítica de
uma indústria, porém
ratifica que a força e
o poder da análise de Adorno-
Horkheimer sobre a indústria
cultural em a Dialética
do Esclarecimento “situa-se ,
entretanto,
em
sua
demonstração
da inesperada
e imperceptível
introdução
da estrutura
mercantil
na própria
forma
e no conteúdo
da obra
de arte
em
si”
(Jameson, 1995:12) e aconselha a ir
mais
adiante
e pensar
a estrutura
mercantil
da cultura
de massa
de forma
um
pouco
mais
diferente
de se observar
o mesmo
fenômeno.
Na visão
jamesoniana, a produção
cultural na lógica do capitalismo
tardio foi assimilada pela
produção de mercadorias,
onde
toda e qualquer
produção
cultural pode ser mercantilizada seja ela
uma denominada “alta cultura”
ou a “cultura de
massa”.
Diante
disto “alta
cultura” e “cultura
de massa” transformam-se em
gêmeas e inseparáveis da produção
cultural que consiste num agenciamento
coletivo
através do qual os
indivíduos
são levados a uma
realidade
massificante e reificada. Dessa forma, Jameson
nos
chama a atenção
para
o fato de que os
produtos
da cultura de massa
não
podem se constituir apenas
como
ideológicos sem constituir
também,
direta ou
indiretamente
como utópicos e transcendentes.
Enquanto
que
para Adorno havia uma
distinção
entre “alta
cultura” e “cultura de
massa” para
Jameson, a fronteira entre
ambas está gradualmente diminuída sendo as duas
transformadas em grife,
neste sentido, a cultura
agora é universalizada baseada
na lógica do entretenimento
em
lugar das antigas oposições
entre alto e
baixo.
Ao realizar seu marxismo – uma grande
narrativa - sofisticado não redutor e não mecânico, com base na dialética e na
história, Jameson produz um entrelaçamento de análises culturais que perpassam a
literatura, o cinema, a música popular, o vídeo, a arquitetura e pintura num
dialogar constante com a Escola de Frankfurt, o estruturalismo
francês, a psicanálise e o marxismo clássico. A sociedade do espetáculo é
marcada pela dimensão das imagens, num mundo que vende sonhos de consumo.
Jameson advoga, na linha de Guy Debord, que estamos vivendo num mundo cada vez
mais dominado pelas forças do consumismo, preferindo a imagem à coisa, a
representação à realidade. Suas referências ao pensador francês são sempre
elogiosas:
"Faz
bastante
tempo
que
Guy Debord descreveu nossa
sociedade
como
uma sociedade
de imagens,
consumidas esteticamente". (Jameson, 2001:139) e de
concordância:
"a mercadoria
também
é consumida“esteticamente" (Jameson, 2001:
23) A
própria
realidade
é estetizada. A estética
passou a ser
mais
uma mercadoria
para
o consumo.
No
livro
A Sociedade
do Espetáculo,
o filósofo e militante
político
Guy Debord, já
nos
anos
60, denuncia a presença
opressiva
excessiva
da imagem
na sociedade
tornando os indivíduos
meros
expectadores
e consumidores
passivos.
As
imagens
que
se destacaram de
cada
aspecto
da vida
fundem-se num
fluxo
comum,
no qual
a unidade
dessa vida
já
não
pode ser
restabelecida. A
realidade
considerada
parcialmente
apresenta-se
em
sua
própria
unidade
geral
como
um
pseudônimo
à
parte,
objeto
de mera
contemplação.
A espetacularização das
imagens
no mundo
se realiza no
mundo
da imagem
autonomizada, no
qual
o
mentiroso
mentiu para
si
mesmo.
(Debord, 1997:13)
Debord construiu uma teoria
critica do presente com
base
no materialismo histórico
caracterizando o momento atual
como um
momento
dominado pelas imagens e pela
mercadoria onde o
espetáculo
instituiria o real sentidos
das relações humanas. O espetáculo
seria a nova forma do
modo
de produção capitalista.
A
discussão
da pós-modernidade
Vivemos na
era
da predominância,
ou
porque
não
do império
das imagens.
Um
fato
só
é verdadeiro
quando
constituído por
imagem.
O real
é a imagem
e suas
reproduções.
Fredric Jameson, em
sua
obra
Pós-modernismo: a
lógica cultural do
capitalismo
tardio,
propõe uma abordagem
da cultura
contemporânea
compreendendo-a como
parte
integrante
do modo
de produção
capitalista.
Para
Jameson, o pós-modernismo seria a
lógica
cultural desta nova
fase
do capitalismo:
o capitalismo
tardio.
Com
base
em
muitos
exemplos
da arte,
da arquitetura
e do cinema
o crítico
americano
vai identificar
as principais
características
do pós-modernismo tais
como
a emergência
da consciência
esquizofrênica, da ausência
ou
crise
da história.
pela
utilização
da força
da imagem
na construção
de novas
identidades
e no reforço
do consumismo
no novo
estágio
do capitalismo.
Jameson lança mão
de vários estudos para justificar suas idéias como por exemplo, a arquitetura e
através da crítica da arquitetura mapeia as características estéticas da
pós-modernidade.
A sociedade
pós-moderna para Jameson é marcada pela falta de profundidade, pelo excesso de
superficialidade, segundo o próprio autor "talvez a mais importante
característica formal de todos os pós-modernismos" (Jameson, 1996: 35). A imagem
é esmaecida no pós-modernismo, a profundidade substituída pela superficialidade.
O
mercado
esteticiza a mercadoria(Jameson,
2002:271), ratificando sua
tese
do conceito
de ideologia,
de apostar
que
ainda
é preciso
realizar
a análise
ideológica reafirma que
a “retórica
do mercado
tem sido o componente
central
e fundamental
nesta luta
ideológica, a luta
pela
legitimação
ou
deslegitimação do discurso
de esquerda”.
A
produção
de bens
de consumo
é agora
um
fenômeno
cultural: compra-se o
produto
tanto
por
sua
imagem
quanto
por
sua
identidade
imediata.
Passou a existir
uma
indústria
voltada especificamente
para
criar
imagens
para
bens
de consumo
e
estratégias
para
a sua
venda:
a
propaganda
tomou-se uma mediadora
essencial
entre
a cultura
e a
economia,
e
certamente
pode ser
incluída
entre as
inúmeras
formas de
produção
estética
(por
mais
que
sua
existência
complique
nossos
conceitos
de produção
cultural). (Jameson, 2001:138)
O
modernismo
se caracterizava pela
sua
universalidade e retrata
as transformações ocorridas pelo
processo
de industrialização
e da urbanização acelerada. Configurou-se
como
um
momento
de experimentações e de utopias.
O homem
moderno
substitui sua
realidade
vital
por
um
paradigma
tecnológico
e perde a sua
autonomia,
limita sua
capacidade
de reflexão
e passa
a ser
tratado
como
objeto.
O saber
na sociedade
pós
moderna
é instrumentalizado.
Jameson
apropriou-se do
conceito
de capitalismo
tardio
descrito por
Ernest Mandel, economista
belga, proposto num momento
de inflexão
do capitalismo,
para
denominar
esta fase
como
pós-moderna.
A
partir
da década
de 1940 os Estados
Unidos, sobretudo
após
a Segunda
Guerra
Mundial, apresentam um
quadro
de crescimento
econômico
que
se impõe hegemônico
e que
se caracterizou também
pela
preponderância
cultural e midiática ao “resto”
do mundo.
As mudanças nas relações
de trabalho
e o processo
de globalização
e suas
profundas mudanças sociais
provocam efeitos
nefastos
na sociedade.
Para
Jameson é neste momento
que
o indivíduo
perde a sua
identidade,
as relações
de mercado
se libidinizam, se erotizam. “a erotização é uma
parte
significativa
do processo:
os estrategistas
publicitários
são
verdadeiros marxistas-freudianos
que
entendem a necessidade
de investimentos
libidinais para
realçar
seus
produtos”
(Jameson, 2001:22)
Jameson
em
sua
teoria
distingue três
épocas
de expansão
do capitalismo
baseado
no trabalho
de Ernest Mandel, O
Capitalismo
tardio.
A primeira,
o capitalismo
de mercado
(entre
1700 e 1850) que
é baseado
no incremento
capital-industrial; o segundo,
o capitalismo
monopolista ou
imperialista (até
por
volta
de 1960), marcado pelo
domínio
mercantil
e exploratório
das colônias;
e o terceiro,
o capitalismo
pós-moderno que
é caracterizado
pelo
domínio
das grandes
corporações,
do capital
financeiro,
pela
globalização
e pelo
consumo
de massa.
Para
Jameson, cada
um
destes momentos
marcou uma expansão
dialética
com
relação
ao estágio
anterior.
Para
Jameson, o capitalismo
tardio,
ou
multinacional,
ou
de consumo
ressalta uma ascensão
das mídias
e da propaganda
e sua
crença
na onipotência da tecnologia,
de acordo
com
Mandel (1985:351)
Jameson refere-se
insistentemente ao
pós-modernismo como
uma lógica
cultural do capitalismo
tardio
que
se expressa
através
das imagens
fragmentadas, desconexas, ou
numa referência
a Baudrilard, como
simulacros
que
dominam na sociedade
capitalista
no estágio
da globalização.
O
capitalismo
tardio
diante
da racionalidade
e da técnica
tende a tornar
os sujeitos
submissos
“a satisfação
progressiva
das necessidades
por
meio
de mecanismos
de produção
e consumo
reforça
o consenso
popular
de incorporação
e subordinação”
Mandel (1985:352), onde
quase
toda
a atividade
é produzida para
o mercado
e tendo com
objeto
final
o lucro.
A
análise
da sociedade
contemporânea
feita
por
Jameson é marcada por
uma periodização cultural nítida
(“é impossível
não
periodizar”),
cujo
modelo
sintético
desenvolvemos abaixo:
Periodização cultural,
segundo
Jameson
|
Período
histórico
econômico |
Característica
cultural |
|
Capitalismo
de mercado
(incremento
do capital) |
Realismo |
|
Capitalismo
monopolista (nações-estado) |
Modernismo |
|
Capitalismo
tardio
(ascensão
das mídias
e da indústria
da propaganda) |
Pós-modernismo |
Procurando
explicar
por
que
resolveu utilizar
esta periodização, Jameson dá
crédito ao
trabalho
do marxista
belga: “fica claro
que
minha
periodização cultural dos
estágios do
realismo,
do modernismo
e pós-modernismo é inspirada e confirmada
pelo
esquema
tripartite
de Mandel” (Jameson, 2002, p. 62) O
capitalismo
tardio,
na visão
jamesoniana ultrapassa as
fronteiras
entre
a natureza
e o inconsciente,
opera-se uma lógica
cultural, onde
<cultura>
passa
a mediar
tudo
na contemporaneidade ou
indo mais
além,
as formas
culturais organizam todo
o modo
de produção.
A cultura
é integrada á economia,
o novo
estágio
do capital,
o tardio,
é cultural.
O pós-modernismo
é
caracterizado
pela
sociedade
de consumo;
carregado
de signos,
mensagens
e imagens;
fragmentação
do tempo
em
presentes
perpétuos
que
provoca a perda
da memória
(esquizofrenia);
pela
existência
dos hiper-espaços na arquitetura
e transformação da realidade
em
imagens.
O pós-modernismo realiza uma
crítica antiutópica
com
características
não
totalizantes enquanto
que
a leitura
jamesiana, com
suas
características
marxistas,
produz um
discurso
totalizante que
caminha
para
um
alinhamento
utópico
com
base
nas leituras
do filósofo alemão
Ernst Bloch, autor
de O Princípio
da Esperança.
A esperança
em
oposição
ao medo.
Avançando
em
sua
teorização, Jameson (2002, p. 271) enfatiza
que
conceito
de ideologia
– tão
afastado da critica pós-moderna –
precisa
ser
resgatado e aposta
que
ainda
é preciso
realizar
uma análise
ideológica da sociedade.
O crítico
argumenta
que
a “retórica
do mercado
tem sido o componente
central
e fundamental
nesta luta
ideológica, a luta
pela
legitimação
ou
deslegitimação do discurso
de esquerda”.
Jameson lança
mão
do ideologema com
base
na teoria
de Mikhail Baktin, entendida
como
“a menor
unidade
inteligível
dos discursos
coletivos
essencialmente
antagônicos
da classes
sociais”
(Jameson, 1992: 69). São
elementos
mínimos
que
se intercalam e dão vida
e coerência
á ideologia.
Os ideologemas nos
ajudam a compreender
a própria
ideologia.
Pastiche,
principal traço
cultural da pós-modernidade
Jameson entende que
o pastiche
é o principal traço da
prática
cultural da pós-modernidade e nutre pelo pastiche
uma verdadeira paixão que
não pode ser confundido
com a paródia
que é a imitação e o
escárnio. O pastiche, que
não
é “alta cultura” é uma
paródia em
branco,
sem riso e
sem
comicidade, fútil e sem
sentido.
O pastiche é,
como a paródia, a imitação de um estilo singular ou exclusivo, a utilização de
uma máscara estilística, uma fala em língua morta; mas a sua prática desse
mimetismo é neutra, sem as motivações ocultas da paródia, sem o impulso
satírico, sem a graça, sem aquele sentimento latente de que existe uma norma, em
comparação com a qual aquilo que está sendo imitado é, sobretudo, cômico. (Jameson,
1985: 79)
Enquanto
que
a paródia
é uma imitação
falsificada do original,
o pastiche,
“estátua
sem
olhos”
é uma cópia
vazia,
sem
crítica,
uma colagem
superficial
de estilos
passados.
O
pastiche
esvazido de
conteúdo
crítico
é intimamente ligado ao
outro
item
pós-moderno da “morte
do
sujeito”
ou
o
fim
do
individualismo.Nota-se
bem
que
estas avaliações
terminais
estão localizadas no
campo
da
estética.
No pós-moderno o
que
resta
então
é
imitar< |