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ISSN 1678-8419         última atualização em: domingo, 24 de fevereiro de 2008 22:13:02                                               

 
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COLUNISTAS

Fredric Jameson e a permanência da Teoria Crítica no pós-moderno

   

Gilberto da Silva

publicado em 15/11/2007

Resumo:

O intuito desta apresentação é debater com o público um pensador americano que realiza uma critica cultural com base num marxismo sofisticado. Fredric Jameson é um pensador sistemático e fiel à tradição hegeliana, um releitor da "dialética negativa" de Adorno, atualizador da Escola de Frankfurt e em perfeita sintonia com o pensamento de Guy Debord. Para efeito de suas análises perpassa a literatura, a arquitetura, a música popular, o vídeo e o cinema. Destaco as contribuições de Jameson para a continuidade do pensamento crítico e para a compreensão do fenômeno da pós-modernidade e do capitalismo tardio.

Palavras-chave: Fredric Jameson; pós-modernismo; teoria crítica; sociedade do espetáculo; capitalismo tardio

 

Fredric Jameson, crítico literário por formação, vem ao longo da sua trajetória intelectual desenvolvendo uma capacidade ímpar na arte de unir o texto ao contexto social, histórico e econômico, manifesto notadamente no livro Pós Modernismo: a Lógica Cultural do Pós-modernismo. Nascido em 14 de abril de 1934, em Cleveland, Ohio, EUA, Jameson é considerado uma das principais referências no debate sobre a situação cultural na contemporaneidade.

 

Num cenário marcado pela repulsa às tradições dialéticas hegeliana-marxista, Jameson tem se sobressaído como um expoente do marxismo americano no âmbito da crítica literária e cultural, e pratica este marxismo de forma sofisticada, não redutora e não mecânica capaz de enfrentar o desafio de dar um entendimento crítico à sociedade e à cultura contemporânea, fator que o coloca em constantes atritos com demais correntes marxistas. Jameson dialoga com a inteligência americana que é normalmente avessa ao marxismo e à dialética.

 

O pensador americano prioriza a interpretação política dos textos literários: tudo é em última análisepolítico”, mas também dialoga com outros modelos interpretativos da realidade tais como o estruturalismo (principalmente Althusser), a psicanálise, o existencialismo (Sartre), a estética e os estudos da linguagem. Entende que uma das vantagens do marxismo é compreender que tudo é um sistema e que as coisas estão inter-relacionadas, o papel do intelectual é insistir em mostrar estas inter-relações em que as pessoas que estão imediatamente envolvidas não necessariamente vêem. Jameson caracteriza o pensamento dialético “como reflexividade histórica”, como a análise de um objeto que também envolve o estudo dos conceitos e categorias que precisamos associar ao objeto. (Jameson,1992: 110). Trata-se de pensar o presente tendo como suporte o materialismo e a história e para refletir sobre este presente é necessário historicizar sempre, não deixar de lado as manifestações históricas, culturais, literárias e artísticas.

 

Na crítica jamesoniana nota-se uma predileção teórica por Adorno e suadialética negativa assim como um esforço para caracterizar o pensador alemão como um teórico marxista que tão bem retratou a relação entre o universal e o particular e a produção cultural da sua época. Adorno, para Jameson foi “uma descoberta metodológica crucial nos anos de declínio da Era Einsenhower quando parecia urgente criar alguma concepção dialética no contexto da América do Norte” (Jameson, 1997:17).

 

Mesmo tendo como premissa teórica a abordagem adorniana da indústria cultural, procura superar os seus limites, não petrificando o pensamento frankfurtiano nem a história e sobretudo, não dogmatizando a cultura. Há um movimento forte no discurso jamesoniano para evitar o reducionismo no tratamento da cultura e a procura pelo aprofundamento do pensamento dos autores da Escola de Frankfurt de forma não determinista ou meramente manipulatória.

 

A obra de Adorno, Horkheimer, Marcuse e outros é intensamente teórica e fornece uma metodologia de trabalho para a análise atenta precisamente desses produtos da industria cultural que ela estigmatiza e que a vertente militante exalta.

Sucintamente, essa visão pode ser caracterizada como a extensão e aplicação das teorias marxistas de reificação da mercadoria às obras da cultura de massa. (Jameson, 1995:10)

 

Jameson não crê que a análise da cultura de massa realizada pela Escola de Frankfurt esteja esgotada ou superada, acredita, todavia, que nem tudo pode ser visto pela ótica da manipulação e que é preciso avançar nas análises frankfurtianas diante dos desafios de uma nova etapa do capitalismo.

 

O que é insatisfatório no processo da Escola de Frankfurt não é o seu aparato negativo e crítico, e sim o valor positivo do qual depende, notadamente, a valorização da alta arte modernista tradicional como lócus de uma produção estética “autônoma”, genuinamente crítica e subversiva. (Jameson, 1995:14)

 

Devemos levar em conta que a indústria cultural ainda é um conceito que deve ser utilizado na contemporaneidade:


A
atualidade do conceito de industria cultural não pode ser reconhecida se não se levar em consideração que este conceito foi elaborado visando a compreensão de um fenômeno social que não para de se desenvolver, acompanhando o desenvolvimento do capitalismo. (COELHO, 2002:37)

 

A indústria cultural, na visão de Jameson, não é uma teoria da cultura e sim uma crítica de uma indústria, porém ratifica que a força e o poder da análise de Adorno- Horkheimer sobre a indústria cultural em a Dialética do Esclarecimento “situa-se , entretanto, em sua demonstração da inesperada e imperceptível introdução da estrutura mercantil na própria forma e no conteúdo da obra de arte em si” (Jameson, 1995:12) e aconselha a ir mais adiante e pensar a estrutura mercantil da cultura de massa de forma um pouco mais diferente de se observar o mesmo fenômeno.

 

Na visão jamesoniana, a produção cultural na lógica do capitalismo tardio foi assimilada pela produção de mercadorias, onde toda e qualquer produção cultural pode ser mercantilizada seja ela uma denominada “alta culturaou a “cultura de massa”.

 

Diante disto “alta cultura” e “cultura de massa” transformam-se em gêmeas e inseparáveis da produção cultural que consiste num agenciamento coletivo através do qual os indivíduos são levados a uma realidade massificante e reificada. Dessa forma, Jameson nos chama a atenção para o fato de que os produtos da cultura de massa não podem se constituir apenas como ideológicos sem constituir também, direta ou indiretamente como utópicos e transcendentes.

Enquanto que para Adorno havia uma distinção entrealta cultura” e “cultura de massapara Jameson, a fronteira entre ambas está gradualmente diminuída sendo as duas transformadas em grife, neste sentido, a cultura agora é universalizada baseada na lógica do entretenimento em lugar das antigas oposições entre alto e baixo.

 

Ao realizar seu marxismo – uma grande narrativa - sofisticado não redutor e não mecânico, com base na dialética e na história, Jameson produz um entrelaçamento de análises culturais que perpassam a literatura, o cinema, a música popular, o vídeo, a arquitetura e pintura num dialogar constante com a Escola de Frankfurt, o estruturalismo francês, a psicanálise e o marxismo clássico.  A sociedade do espetáculo é marcada pela dimensão das imagens, num mundo que vende sonhos de consumo. Jameson advoga, na linha de Guy Debord, que estamos vivendo num mundo cada vez mais dominado pelas forças do consumismo, preferindo a imagem à coisa, a representação à realidade. Suas referências ao pensador francês são sempre elogiosas:

"Faz bastante tempo que Guy Debord descreveu nossa sociedade como uma sociedade de imagens, consumidas esteticamente". (Jameson, 2001:139) e de concordância: "a mercadoria também é consumida“esteticamente" (Jameson, 2001: 23)  A própria realidade é estetizada. A estética passou a ser mais uma mercadoria para o consumo.

 

No livro A Sociedade do Espetáculo, o filósofo e militante político Guy Debord, nos anos 60, denuncia a presença opressiva excessiva da imagem na sociedade tornando os indivíduos meros expectadores e consumidores passivos.

 

As imagens que se destacaram de cada aspecto da vida fundem-se num fluxo comum, no qual a unidade dessa vida não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente apresenta-se em sua própria unidade geral como um pseudônimo à parte, objeto de mera contemplação. A espetacularização das imagens no mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no qual o mentiroso mentiu para si mesmo. (Debord, 1997:13)

Debord construiu uma teoria critica do presente com base no materialismo histórico caracterizando o momento atual como um momento dominado pelas imagens e pela mercadoria onde o espetáculo instituiria o real sentidos das relações humanas. O espetáculo seria a nova forma do modo de produção capitalista.

 

 

A discussão da pós-modernidade

Vivemos na era da predominância, ou porque não do império das imagens. Um fato é verdadeiro quando constituído por imagem. O real é a imagem e suas reproduções. Fredric Jameson, em sua obra Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, propõe uma abordagem da cultura contemporânea compreendendo-a como parte integrante do modo de produção capitalista. Para Jameson, o pós-modernismo seria a lógica cultural desta nova fase do capitalismo: o capitalismo tardio. Com base em muitos exemplos da arte, da arquitetura  e do cinema o crítico americano vai identificar as principais características do pós-modernismo tais como a emergência da consciência esquizofrênica, da ausência ou crise da história. pela utilização da força da imagem na construção de novas identidades e no reforço do consumismo no novo estágio do capitalismo.

Jameson lança mão de vários estudos para justificar suas idéias como por exemplo, a arquitetura e através da crítica da arquitetura mapeia as características estéticas da pós-modernidade. 

A sociedade pós-moderna para Jameson é marcada pela falta de profundidade, pelo excesso de superficialidade, segundo o próprio autor "talvez a mais importante característica formal de todos os pós-modernismos" (Jameson, 1996: 35). A imagem é esmaecida no pós-modernismo, a profundidade substituída pela superficialidade.

O mercado esteticiza a mercadoria(Jameson, 2002:271), ratificando sua tese do conceito de ideologia, de apostar que ainda é preciso realizar a análise ideológica reafirma que a “retórica do mercado tem sido o componente central e fundamental nesta luta ideológica, a luta pela legitimação ou deslegitimação do discurso de esquerda”.

 

A produção de bens de consumo é agora um fenômeno cultural: compra-se o produto tanto por sua imagem quanto por sua identidade imediata. Passou a existir uma indústria voltada especificamente para criar imagens para bens de consumo e estratégias para a sua venda: a propaganda tomou-se uma mediadora essencial entre a cultura e a economia, e certamente pode ser incluída entre as inúmeras formas de produção estética (por mais que sua existência complique nossos conceitos de produção cultural). (Jameson, 2001:138)

 

O modernismo se caracterizava pela sua universalidade e retrata as transformações ocorridas pelo processo de industrialização e da urbanização acelerada. Configurou-se como um momento de experimentações e de utopias. O homem moderno substitui sua realidade vital por um paradigma tecnológico e perde a sua autonomia, limita sua capacidade de reflexão e passa a ser tratado como objeto.  O saber na sociedade pós moderna é instrumentalizado.

 

Jameson apropriou-se do conceito de capitalismo tardio descrito por Ernest Mandel, economista belga, proposto num momento de inflexão do capitalismo, para denominar esta fase como pós-moderna.

A partir da década de 1940 os Estados Unidos, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, apresentam um quadro de crescimento econômico que se impõe hegemônico e que se caracterizou também pela preponderância cultural e midiática ao “resto” do mundo.  As mudanças nas relações de trabalho e o processo de globalização e suas profundas mudanças sociais provocam efeitos nefastos na sociedadePara Jameson é neste momento que o indivíduo perde a sua identidade, as relações de mercado se libidinizam, se erotizam. “a erotização é uma parte significativa do processo: os estrategistas publicitários são verdadeiros marxistas-freudianos que entendem a necessidade de investimentos libidinais para realçar seus produtos” (Jameson, 2001:22)

Jameson em sua teoria distingue três épocas de expansão do capitalismo baseado no trabalho de Ernest Mandel, O Capitalismo tardio.  A primeira, o capitalismo de mercado (entre 1700 e 1850) que é baseado no incremento capital-industrial; o segundo, o capitalismo monopolista ou imperialista (até por volta de 1960), marcado pelo domínio mercantil e exploratório das colônias; e o terceiro, o capitalismo pós-moderno que é caracterizado pelo domínio das grandes corporações, do capital financeiro, pela globalização e pelo consumo de massa.  Para Jameson, cada um destes momentos marcou uma expansão dialética com relação ao estágio anterior.

Para Jameson, o capitalismo tardio, ou multinacional, ou de consumo ressalta uma ascensão das mídias e da propaganda e sua crença na onipotência da tecnologia, de acordo com Mandel (1985:351)

Jameson refere-se insistentemente ao pós-modernismo como uma lógica cultural do capitalismo tardio que se expressa através das imagens fragmentadas, desconexas, ou numa referência a Baudrilard, como simulacros que dominam na sociedade capitalista no estágio da globalização.

O capitalismo tardio diante da racionalidade e da técnica tende a tornar os sujeitos submissos “a satisfação progressiva das necessidades por meio de mecanismos de produção e consumo reforça o consenso popular de incorporação e subordinação” Mandel (1985:352), onde quase toda a atividade é produzida para o mercado e tendo com objeto final o lucro.

 

A análise da sociedade contemporânea feita por Jameson é marcada por uma periodização cultural nítida (“é impossível não periodizar”), cujo modelo sintético desenvolvemos abaixo:

 

Periodização cultural, segundo Jameson

Período histórico econômico

Característica cultural

Capitalismo de mercado (incremento do capital)

Realismo

Capitalismo monopolista (nações-estado)

Modernismo

Capitalismo tardio (ascensão das mídias e da indústria da propaganda)

Pós-modernismo

 

Procurando explicar por que resolveu utilizar esta periodização, Jameson dá crédito ao trabalho do marxista belga: “fica claro que minha periodização cultural dos estágios do realismo, do modernismo e pós-modernismo é inspirada e confirmada pelo esquema tripartite de Mandel” (Jameson, 2002, p. 62)  O capitalismo tardio, na visão jamesoniana ultrapassa as fronteiras entre a natureza e o inconsciente, opera-se uma lógica cultural, onde <cultura> passa a mediar tudo na contemporaneidade ou indo mais além, as formas culturais organizam todo o modo de produção. A cultura é integrada á economia, o novo estágio do capital, o tardio, é cultural.

 

O pós-modernismo é caracterizado pela sociedade de consumo; carregado de signos, mensagens e imagens; fragmentação do tempo em presentes perpétuos que provoca a perda da memória (esquizofrenia); pela existência dos hiper-espaços na arquitetura e transformação da realidade em imagens. O pós-modernismo realiza uma crítica antiutópica com características não totalizantes enquanto que a leitura jamesiana, com suas características marxistas, produz um discurso totalizante que caminha para um alinhamento utópico com base nas leituras do filósofo alemão Ernst Bloch, autor de O Princípio da Esperança. A esperança em oposição ao medo.

 

Avançando em sua teorização, Jameson (2002, p. 271) enfatiza que conceito de ideologiatão afastado da critica pós-moderna – precisa ser resgatado e aposta que ainda é preciso realizar uma análise ideológica da sociedade. O crítico argumenta que a “retórica do mercado tem sido o componente central e fundamental nesta luta ideológica, a luta pela legitimação ou deslegitimação do discurso de esquerda”. Jameson lança mão do ideologema com base na teoria de Mikhail Baktin, entendida como “a menor unidade inteligível dos discursos coletivos essencialmente antagônicos da classes sociais” (Jameson, 1992: 69). São elementos mínimos que se intercalam e dão vida e coerência á ideologia. Os ideologemas nos ajudam a compreender a própria ideologia.

 

 

Pastiche, principal traço cultural da pós-modernidade

Jameson entende que o pastiche é o principal traço da prática cultural da pós-modernidade e nutre pelo pastiche uma verdadeira paixão que não pode ser confundido  com a paródia que é a imitação e o escárnio. O pastiche, que não é “alta cultura” é uma paródia em branco, sem riso e sem comicidade, fútil e sem sentido.

 

O pastiche é, como a paródia, a imitação de um estilo singular ou exclusivo, a utilização de uma máscara estilística, uma fala em língua morta; mas a sua prática desse mimetismo é neutra, sem as motivações ocultas da paródia, sem o impulso satírico, sem a graça, sem aquele sentimento latente de que existe uma norma, em comparação com a qual aquilo que está sendo imitado é, sobretudo, cômico. (Jameson, 1985: 79)

 

Enquanto que a paródia é uma imitação falsificada do original, o pastiche, “estátua sem olhos” é uma cópia vazia, sem crítica, uma colagem superficial de estilos passados. O pastiche esvazido de conteúdo crítico é intimamente ligado ao outro item pós-moderno da “morte do sujeitoou o fim do individualismo.Nota-se bem que estas avaliações terminais estão localizadas no campo da estética. No pós-moderno o que resta então é imitar<