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Resumo
Tendo como ponto de
partida uma matéria publicada na revista de circulação nacional,
a Veja, pretende-se sob a ótica das formulações sobre o
Modelo de Propaganda de Herman e Chomsky (A Manipulação do
Público) analisar a presença do presidente venezuelano, Hugo
Chávez na mídia brasileira.
Palavras-chaves:
1) modelo de propaganda; 2)
manipulação da mídia; 3) jornalismo; 4) Hugo Chávez.
Os filtros da submissão do jornalismo aos interesses do sistema
capitalista
O presente trabalho tem como
objetivo analisar, tomando como referência a edição nº 1903, de
4 de maio de 2005 da revista semanal Veja, a presença do
presidente da Venezuela, Hugo Chávez na mídia impressa
brasileira. Analisarei, sobretudo o artigo O Clone do
Totalitarismo assinado pelo jornalista Diogo Schelp com
reportagem de Ruth Costas e José Eduardo Barella através da
ótica de Herman e Chomsky expressa em A Manipulação do
Público. Os autores americanos afirmam a existência de
elementos que filtram as notícias, destacando as matérias
favoráveis aos interesses do governo e dos grandes interesses
econômicos privados. Estes filtros atuariam com naturalidade.
Assim, os jornalistas não colocariam em causa a sua honestidade
profissional e estariam convencidos de que escolhem e
interpretam as notícias baseadas em critérios jornalísticos
desligados de pressões externas. Esta situação tornaria difícil
imaginar formas alternativas de se selecionar e processar o que
se noticia. Segundo Chomsky e Herman (2003), os cinco filtros
que levariam o jornalismo americano a tornar-se um Modelo de
Propaganda onde toda a cobertura dos acontecimentos nos meios de
comunicação é tratada como campanha de publicidade maciça. Os
filtros são os seguintes:
1. Porte, propriedade e
orientação para os lucros da mídia de massa: o primeiro
filtro. Baseado na estrutura de propriedade da mídia. As
mídias dominantes são grandes empresas e corporações,
controladas por ricos e poderosos ou por gerentes que estão
sujeitos a intervenções dos patrões ou de forças voltadas
para o mercado e o lucro. Estas mídias estão solidamente
unidas por interesses em comum com outras grandes
corporações, bancos, investidores e governo.
2. A licença da propaganda
para fazer negócios: o segundo filtro. Segundo Herman e
Chomsky, na interpretação de Traquina (2001: 83) "As
empresas são fortemente dependentes da publicidade no que
diz respeito a rendimentos e ligadas a outras grandes firmas
por laços comerciais e pessoais". Os anunciantes escolhem
criteriosamente os programas tomando por base seus
princípios e evitam programas que possam interferir no
"poder de compra" dos consumidores. Assim, muitas vezes,
programas com bons conteúdos são excluídos da programação.
3. Buscando fontes de
notícias de mídia de massa: o terceiro filtro. Existe
uma dependência dos grandes jornalistas de fontes
governamentais e fontes do mundo empresarial. Os meios de
comunicação de massa necessitam de notícias diárias, cumprem
horários apertados e dificilmente têm jornalistas em
diversos lugares onde fatos importantes podem acontecer.
Isto sem contar o total enxugamento das redações. Percebendo
isso, fontes do governo e das corporações se "esforçam" para
tornar as coisas mais fáceis para a mídia, enviando
discursos adiantados de conferências e reuniões, releases e
pronunciamentos de acordo com o horário de fechamento dos
jornais. Isto facilita para a mídia e em troca, as grandes
entidades e o governo obtém acesso especial na mesma.
4. A bateria de reações
negativas e os fiscais de cumprimento: o quarto filtro.
O autor usa do termo bateria de reações negativas (cartas,
telefonemas etc) para se referir às respostas negativas
dadas a um programa ou declaração da mídia, com a finalidade
de regulamentar ameaçando e ‘corrigindo’ a mídia, tentando
conter qualquer desvio da linha estabelecida. O noticiário
em si está projetado para produzir essa reação.
5. Anticomunismo como
mecanismo de controle: o quinto filtro. Apesar de
conhecermos a função real da mídia é notório que esta é
manipulada pela classe dominante, se tornando um "sistema de
mercado guiado" por governos, líderes de comunidades e
acionistas destas mídias. Segundo Chomsky (2003:88) "essa
ideologia ajuda a mobilizar a população contra o inimigo
comum", no caso o comunismo e " como o conceito é obscuro,
pode ser utilizado contra qualquer um que defenda políticos
que ameacem os interesses de proprietários".
Chávez, pela ótica da Veja
A reportagem da revista Veja
toma 10 páginas (p. 152-162), conta com 11 fotos (exceto a da
capa (Figura 1) e do sumário e do Editorial), 1 (um) infográfico
e 1 (uma) tabela.
Figura 1

A matéria da Veja vem na
esteira de uma articulação de um setor da mídia brasileira para
caracterizar o presidente venezuelano como um populista,
autoritário e terrorista. Chávez é descrito como um perigo para
a democracia e uma ameaça à estabilidade da região. Para a
revista do grupo Abril, Chávez é um exemplo bem acabado de um
ditador sul-americano, antiliberal, castrista e "revolucionário"
e que pode levar a Venezuela para uma guerra civil. Chávez,
apesar da revista não caracterizá-lo como esquerdista, é
considerado, num contexto latino repleto de presidentes oriundos
da esquerda, uma ameaça a seu povo e aos vizinhos.
Durante a crise com a Colômbia, o
jornal O Estado de São Paulo (18 de janeiro de 2005)
publicou na coluna Notas e Informações (equivalente ao
editorial do jornal) o artigo "Está na hora de conter Chávez".
No editorial o jornal paulista demonstra a tese de Chomsky de
que "para que as análises e os artigos de imprensa sejam
considerados respeitáveis, é melhor, realmente, que se situarem
do lado bom, ou seja, o dos braços melhor armados" (2002?:7).
Então, vejamos como se expressa o editorial da revista Veja:
Chávez tentou dois golpes de estado, antes de ser
eleito em pleito normal. Uma vez eleito, passou a
usar métodos copiados da primeira etapa do
hitlerismo para acumular poder", emenda em seguida
com uma comparação, sem mais argumentação histórica
de que "o "bolivarismo" de Chávez é um movimento
antidemocrático, autoritário, com tendência
totalitária" e arremata, finalizando o artigo " Está
na hora de os países do hemisfério se unirem para
conter esse caudilho megalômano que se pretende a
reencarnação de Simon Bolívar.
A matéria da revista Veja
com data de 4 de maio (quarta-feira) é publicada logo após
reportagem do jornal Folha de São Paulo de 1 de maio de
2005, domingo, página A32, assinada pela jornalista Carolina
Vila-Nova e intitulada "Populismo radical favorece o
terrorismo, alertam EUA". A matéria é complementada por
outra intitulada "Problema exige "resposta militar", afirma
coronel". A jornalista visitou os EUA e a Colômbia a convite
do Departamento de Estado dos EUA. As vozes ouvidas são todas
pautadas pelo governo americano, nenhuma voz contrária, ou
melhor, nenhuma voz favorável ao presidente venezuelano. A foto
ilustrativa mostra Chávez ouvindo atentamente Fidel Castro
(Figura 2)
Figura 2

Ilustração 1: Chávez ouve atentamente Fidel Castro.
Interessante aqui discutir o
conceito de terrorismo do ponto de vista de Chomsky (2002?:6-7),
já que o conceito veiculado pela mídia é o mesmo empregado pelos
Estados Unidos da América.
Nos
manuais militares norte-americanos, define-se como
terror a utilização calculada para fins políticos ou
religiosos, da violência, da ameaça de violência, da
intimidação, da coerção ou do medo. O problema de
tal definição é o fato de se explicar muito
exatamente ao que os Estados Unidos chamaram de
guerra de baixa intensidade, reivindicando esse
gênero de prática.
Na mesma edição de Veja, a
entrevista das "páginas amarelas" é com a secretaria de Estado
dos EUA, Condoleezza Rice, quando da ocasião de sua visita ao
Brasil. A Condoleezza ganhou espaço nobre, é bajulada, recebe o
título de "miss simpatia". As duas primeiras perguntas da
entrevista feita por Vilma Gryzinski.
V eja
– O presidente Hugo Chávez disse que há americanos
preparando uma invasão da Venezuela. Verdade ou
mentira?
Rice
– Isso é simplesmente um escândalo. É claro que os
Estados Unidos não vão invadir a Venezuela ou fazer
qualquer coisa do gênero. Os EUA querem ter boas
relações com a Venezuela. Existem preocupações
relativas à democracia na Venezuela e à maneira como
e ela se relaciona com os vizinhos. Mas nós não
vamos invadir a Venezuela.
Veja
– Qual é a melhor atitude a
tomar quando se lida com um personagem como Chávez,
que está sentado sobre um mar de petróleo, tem o
apoio de 60% da população e pode usar as pressões
americanas em seu favor?
Rice
– A única coisa que faz sentido é ter uma pauta
positiva. É sobre isso que vim conversar aqui.
Falamos sobre a Venezuela, é certo, mas foi uma
parte relativamente pequena das discussões. Falamos
também sobre o hemisfério, que fez progressos
notáveis em termos de desenvolvimento democrático na
última década....
Para a revista semanal vale a
máxima, aos amigos tudo, aos inimigos a mentira e a manipulação.
As fotos da edição
As fotos da edição nº 1903 da
Veja revelam o que o restante da mídia tenta fazer
cotidianamente. A foto da capa mostra um Hugo Chávez carrancudo,
boina vermelha, blusa vermelha. Um fundo vermelho ressalta o
aspecto "cara de mau".
Nas páginas 156 e 157 a revista
elenca uma série de 4 fotos de Chávez com "seus amigos" o líder
do MST João Pedro Stedille; o ex-presidente iraquiano Saddam
Hussein;o "ditador" Muamar Kadafi (figura 3) e o iraniano
Khatami (figura4).
Esqueceram de colocar as fotos de
Chávez com Bill Clinton, ou com o papa João Paulo II, mas como a
matéria é parcial, preferiram retratar o "maluco de Caracas" com
outros "malucos" mundiais.
As fotos são usadas para
instrumentalizar, selecionar e fortalecer o sentido desfavorável
ao presidente venezuelano.

Figura 3: Hugo Chávez com o ditador Muamar
Kadafi, em visita à Líbia, em 2004.

Figura 4: Chávez com o iraniano Khatami, em
março de 2005.
Os negócios dominam as informações
Chomsky afirma que a concentração
da propriedade e a orientação lucrativa das empresas
jornalísticas acarretam num menor número de pessoas dominando os
órgãos de imprensa fato este que facilita as pressões e a
dependência. No caso da Venezuela, esta opinião é compartilhada
pelo francês Ignacio Ramonet:
Nesse país
latino-americano – em que a oposição foi varrida do
cenário político em 1998, quando se realizaram
eleições livres, plurais e democráticas – os
principais grupos de imprensa, rádio e televisão
desencadearam, pela mídia, uma autêntica guerra
contra a legitimidade do presidente Hugo Chávez.
Embora ele e seu governo continuem respeitando o
contexto democrático, a mídia, nas mãos de um
punhado de privilegiados, continua a utilizar a
artilharia da manipulação, da mentira, da lavagem
cerebral para tentar intoxicar o espírito das
pessoas. Nessa guerra ideológica, eles abandonaram
completamente qualquer veleidade da função de um
"quarto poder" e procuram, desesperadamente,
defender os privilégios de uma casta, opondo-se a
qualquer reforma social e a qualquer distribuição
mais justa da imensa riqueza nacional.
O caso venezuelano é
exemplar da nova situação internacional, na qual
grupos da mídia, ensandecidos, assumem abertamente
sua nova função de cães de guarda da ordem econômica
estabelecida e seu novo estatuto de poder
antipopular e anticidadão. Estes grandes grupos não
se assumem exclusivamente como poder da mídia;
constituem, antes de tudo, o braço ideológico da
globalização, e sua função é a de conter as
reivindicações populares ao mesmo tempo em que
tentam abocanhar o poder político (como conseguiu
fazer, de forma democrática, Silvio Berlusconi, dono
do principal grupo de comunicação da Itália).
Nas amarras da publicidade
A Veja tem uma invejável
rede de anunciantes. Para Chomsky a publicidade como primeira
fonte de rendimento das empresas jornalísticas, leva as empresas
jornalísticas a evitar ofender os clientes -entre os quais os
diversos órgãos de governo e a administração pública - com
matérias que estes possam considerar indesejáveis. Os meios de
comunicação são, na verdade, empresas orientadas para o lucro a
partir da venda de seu produto - os leitores - para outras
empresas - os anunciantes. O modelo de Chomsky prevê que se deve
esperar a publicação apenas de notícias que reflitam os desejos,
as expectativas e os valores dessas empresas. Veja cumpre
direitinho este mandamento:
Enquanto isso, as
empresas americanas na Venezuela passaram a ser
tratadas a pão e água. Sem maiores explicações, o
governo de Caracas suspendeu um contrato que
permitia à ConocoPhllips, a terceira maior companhia
petroleira americana, explorar um campo petrolífero
no país. Há três meses, fechou as oitenta
lanchonetes da rede McDonald’s e as quatro fábricas
da Coca-Cola que operavam em território venezuelano.
Ao ridículo da batalha dos McDonald’s e da
Coca-Cola, acrescentou-se na semana passada uma
iniciativa hilariante: o anúncio, por Chávez e
Fidel, da criação da Alba. p.158-159)
Dependência de fontes
governamentais
O terceiro filtro é o fato de
existir uma dependência dos jornalistas de fontes governamentais
e fontes do mundo empresarial. Os meios de comunicação dependem
fortemente das grandes empresas e das instituições
governamentais como fonte de informações para a maior parte das
notícias. A mídia deposita nestas fontes confiança nas
informações dadas pelos órgãos do governo e das empresas
privadas dominantes e agências de relações públicas.
As fontes ouvidas pela Veja
foram todas contrárias ao governo de Chávez. Numa matéria com
poucas "aspas" e muita informação sem mencionar as fontes
destacamos os quatro personagens (Tabela 1) ouvidos pela
reportagem: Adrián Gurza Lavalle, mexicano, cientista político,
da Universidade Católica de São Paulo; Manuel Caballero,
venezuelano, historiador; Andrés Oppenheimer, colunista do
Miami Herald e Roberto Zoellick, vice-secretário de Estado
americano.
Tabela 1. Entrevistados pela
Veja
|
Entrevistados |
Número |
|
Desfavoráveis a Chávez |
4 |
|
Favoráveis a Chávez |
- |
Chomsky explica que um dos cinco fatores que levam à submissão
do jornalismo aos interesses do capitalismo é a dependência dos
jornalistas de fontes governamentais e fontes do mundo
empresarial.
Dissidentes, informantes e vários outros tipos de
oportunistas avançam para o centro do palco como
"especialistas" e ali permanecem, mesmo após serem
expostos como altamente não confiáveis, quando não
como mentirosos deslavados. (Chomsky: 2003: 89)
Gilberto Maringoni (2005) em artigo que analisa a matéria da
Veja afirma que o historiador Manuel Caballero anunciado
pela Veja como "o mais respeitado do país", só é
"respeitado na Venezuela pelos monopólios privados da mídia e
pelas elites econômicas. Tornou-se um destemperado e folclórico
opositor de Chávez, a que volta e meia a imprensa estrangeira
recorre em busca de frases bombásticas."
Esta advertência, de que a
imprensa deve tomar cuidado com as informações vindas das
agências noticiosas internacionais ao reproduzir os jornais
venezuelanos já foi emitida por Clóvis Rossi ao prefaciar o
livro Venezuela: A encruzilhada de Hugo Chavez do
jornalista Pablo Uchoa (2003: 11)
Seria um problema para venezuelanos esse
comportamento indecoroso da maior parte da mídia, se
ele não ecoasse nos demais países. Primeiro, porque
as agências de notícias internacionais,
especialmente em países periféricos como são todos
os da América Latina, usam muito o noticiário da
mídia local, tomando-o como retrato real dos fatos.
Ao reproduzir os jornais e/ou TVs venezuelanas, as
agências acabam vendendo ao resto do mundo uma
contrafação da realidade. Ou, mais exatamente, uma
conspiração. Além disso, muitos jornais brasileiros
usam os sites dos jornais estrangeiros para
reforçar o noticiário enviado pelas agências.
A mídia nacional corre na esteira
das agências internacionais de notícias, absorvendo-as
ardorosamente.
A imprensa
brasileira, com raras exceções, cobre muito mal a
América Latina e o caso venezuelano é exemplo disso.
Um repórter de um grande jornal paulistano, na
última semana, chegou a dizer que o país está "à
beira de uma guerra civil", coisa que não vi nem
mesmo a oposição afirmar. Outra jornalista opinou,
num termo politicamente incorretíssimo, que "a coisa
está preta na Venezuela". Além da desinformação pura
e simples, isso demonstra que nossa mídia, em sua
maioria, é pautada pelas agências de informação
norte-americanas e européias, extremamente
tendenciosas em assuntos dessa natureza. Maringoni –
entrevista.
Os poderosos punem
Chomsky afirma que o quarto filtro
é a crítica realizada por vários grupos de pressão que procuram
as empresas dos meios de comunicação para pressioná-los caso
eles saiam de uma linha editorial que esses grupos acham a mais
correta (isto é, mais de acordo com seus interesses do que de
toda a sociedade).
A imprensa, para Chomsky, seria
criticada e abandonada quando atraiçoasse os valores e
expectativas mais profundas do público. O que seria da Veja
sem os grandes anúncios? A comprovação está no próprio editorial
da revista Veja na edição nº 1903, na página 7, "uma
estrutura tão grande e complexa seria inviável sem que a revista
trouxesse nesta edição um número também maior do que a média".
Parece ser uma autoexplicação do
tipo de jornalismo que pratica.
Para uma editoria de
VEJA, o grande prêmio é ter sua matéria principal
escolhida para figurar como capa da revista. Isso
significa que o trabalho atendeu a critérios nem
sempre coincidentes relevância do tema, interesse
geral e confecção apurada.
A capa da edição analisada é uma
característica marcante da revista. Fausto Neto (1994: 168) em
trabalho que analisa o processo de impeachment de Collor cita
editoriais da revista neste período "poucas funções em Veja
são tão nervosas quanto a do capista. O responsável pela feitura
das capas participa da reunião de pauta da manhã de segunda
sobre o processo de confecção de uma capa da revista Veja.
(...)"
A versão do semanário sobre Hugo
Chávez já se encontra no texto:
Uma delas, produzida
pelos repórteres da editoria de Internacional,
explica os perigos embutidos nas bravatas e nas
decisões do presidente venezuelano Hugo Chávez.
A revista antecipa, como que numa
ação de limpeza da consciência, que quem de fato comanda a linha
editorial são os leitores:
Escolher e
editar os assuntos que vão preencher as páginas de
uma revista é uma operação ao mesmo tempo vigorosa e
sensível. Ela consiste em hierarquizar as notícias
da semana, contextualizá-las e tornar agradável e
mais fácil a sua leitura. Cabe aos editores filtrar
da enorme quantidade de informações obtidas pelos
repórteres a cada semana aqueles que julgam ser as
mais relevantes. É comum que se pergunte quem
confere aos jornalistas esse direito de escolha. A
resposta é simples: os eleitores.
O anticomunismo nas redações
Segundo Herman e Chomsky, um dos
fatores que explicam a submissão do jornalismo aos interesses do
sistema capitalista é a ideologia anticomunista atuando como
mecanismo de controle que "difunde-se pelo sistema para exercer
uma profunda influência sobre a mídia de massa" (Chomsky, 2003:
89).
Vejamos a Veja:
Presidentes de
esquerda estão no poder no Brasil, na Argentina, no
Chile e no Uruguai. No próximo ano, eleições poderão
acrescentar à lista o Peru e o México. É um grupo
heterogêneo quanto a métodos e personalidades, mas
nenhum dos mandatários que o formam oferece riscos
para seus povos e os vizinhos. Curiosamente, o único
presidente de países americanos que é uma bomba de
efeito retardado, o coronel pára-quedista Hugo
Chávez, da Venezuela, não pode ser classificado como
esquerdista. (página 154)
Chávez está semeando insurreição e instabilidade em
países que, embora nominalmente democráticos, ainda
lutam para solidificar suas instituições políticas e
jurídicas e suas bases de progresso material. (p.
154)
Nos últimos seis anos,
desde que foi eleito, Chávez usou o cargo para
iniciar uma versão extemporânea do regime
totalitário que existe em Cuba. (p. 154)
Hugo Chávez adotou um
virulento discurso antiamericano, que soa como
música aos ouvidos dos nostálgicos da Guerra Fria -
e eles são numerosos entre a esquerda
latino-americana. Uma esquerda que sempre se
caracterizou por seguir caudilhos nacionalistas,
bastando que eles tivessem um discurso antiamericano.
(p. 156)
Até na contextualização histórica
a revista deixa sua marca. Ao falar positivamente do Pacto de
Punto Fijo, recomendaria aos autores da reportagem de Veja
ler trechos de Chomsky (1993:245), tal como o abaixo:
De 1949 a 1958,
durante a ditadura do bandido homicida Pérez
Jiménez, as "relações dos Estados Unidos com a
Venezuela eram harmoniosas e vantajosas
economicamente para os negócios americanos"; a
tortura, o terror e a repressão geral passaram
despercebidas com os rotineiros pretextos da Guerra
Fria. Em 1954 o ditador recebeu a Legião do Mérito
das mãos do presidente Eisenhower. A declaração
formal das virtudes de Pérez Giménez assinalava que
"a sua política geral nas questões econômicas e
financeiras facilitou a expansão do investimento
estrangeiro, e assim a sua administração contribuiu
para um maior bem estar da população e para o rápido
desenvolvimento das imensas riquezas naturais do
país" - e, casualmente, proporcionou enormes lucros
para as grandes companhias americanas que dirigem a
Venezuela, inclusive, na época, companhias
siderúrgicas e outras. Cerca de metade dos lucros da
Standard Oil de New Jersey vinham da sua subsidiária
venezuelana, para citar apenas um exemplo.
Desde a Segunda Guerra Mundial
os Estados Unidos seguiram na Venezuela a clássica
política de assumir o controle total das forças
armadas "para expandir a influência política e
militar americana no hemisfério ocidental e
eventualmente ajudar a conservar o vigor da
indústria bélica dos Estados Unidos" (Rabe). Como
mais tarde explicou Allan Stewart, embaixador de
Kennedy, "exércitos anticomunistas orientados pelos
Estados Unidos são um instrumento vital para manter
os nossos interesses de segurança". Ele ilustrou a
questão com o caso de Cuba, onde as "forças armadas
se desintegraram" enquanto em outros países elas se
mantiveram intactas e capazes de defenderem a si
mesmas e a outros do comunismo", como demonstrou a
onda de Estados de Segurança Nacionais que varreu
todo o hemisfério. O governo Kennedy aumentou a sua
ajuda às forças de segurança venezuelanas para
"operações internas de segurança e rebeliões contra
a esquerda", comenta Rabe, e também mandou pessoal
para assessorar nas operações de combate, como no
Vietnam. Stewart recomendou ao governo que
"dramatizasse" a prisão dos radicais, para causar
uma boa impressão em Washington assim como entre os
venezuelanos (isto é, os que importam).
Para reafirmar nossas posições
realizamos um pequeno levantamento (Tabela 2) das palavras
presentes na matéria que ajudam a reforçar a visão da Veja
sobre Hugo Chávez.
Termos utilizados pela matéria da
Veja.
Tabela 2:
|
Palavra/termo |
Número Absolutos |
Observações |
|
Centralizador |
1 |
Usada para definir o governo
venezuelano |
|
Totalitarismo |
2 |
|
|
Regime autoritário |
2 |
Para definir tanto o regime de
Cuba, quanto ao da Venezuela |
|
Ditadura |
2 |
Usada para referir-se ao
regime de Fidel Castro |
|
Fidel Castro |
13 |
É usado como a referência
principal de Hugo Chávez, que seria o clone do ditador
cubano. "Um fóssil da Guerra Fria", "capataz magnânimo", "o
decano dos ditadores" |
|
Populista (s) |
1 |
|
|
Autoritário |
1 |
|
|
Pai da pobreza |
1 |
|
|
Fanfarrão |
1 |
Para referir-se a Hugo Chávez |
|
Ditadura socialista |
1 |
|
|
Esquerda |
7 |
Usada para conceituar uma
parcela da população |
|
Esquerdista (s) |
4 |
Usada para referir tanto a
líderes da América latina, quanto a todos militantes
antiamericanos |
|
Caudilhismo |
1 |
"a doença senil do
esquerdismo". Chávez é apresentado como um membro da
categoria "caudilho iluminado" |
|
Patético |
1 |
Sobre a tentativa de
tabelamento dos juros no máximo 28% ao ano |
Observa-se que todas as palavras
empregadas para situar a Venezuela atual ou o seu presidente são
termos antagônicos ao conceito vigente de democracia, tal qual
sugerido por Sartori (1994: 246), "em geral, as definições a
contrário são as mais fáceis", ou seja, tudo o que a
democracia não é.
O arremate final da matéria é
primoroso pelo exemplo de peça ideológica:
Não é surpresa que Chávez fascine tantos
esquerdistas, que o vêem como uma novidade saudável
na política latino-americana. Fazer avaliações
desastrosas e seguir qualquer um que antagonize os
Estados Unidos está no DNA dos militantes de
esquerda. No passado, a esquerda também seguiu
alegremente outros pais da pátria, como Juan Domingo
Perón, cuja promessa era resolver todos os problemas
da nação com um estalar de dedos e, claro, colocando
culpa de tudo nos Estados Unidos. Chávez foi
recebido com furiosa alegria no Fórum Social Mundial
em Porto Alegre. É um espanto que tanta gente o
festeje e não o Chile, o único país latino-americano
a diminuir a pobreza pela metade. É a maldição do
caudilhismo, a doença senil do esquerdismo. (p. 162)
Construindo um vilão
O que ocorre hoje com o tratamento
dado a Chávez é o mesmo que Allende sofreu no Chile.
A "guerra suja da comunicação", travada na Venezuela
contra o presidente Hugo Chávez, é a réplica exata
do que fez no Chile, de 1970 a 1973, o jornal El
Mercurio
contra o governo democrático do presidente Salvador
Allende, até incentivar os militares ao golpe de
Estado. Tais campanhas, em que a mídia procura
abater a democracia, poderiam voltar a surgir amanhã
no Equador, no Brasil ou na Argentina contra
qualquer reforma legal que tente modificar a
hierarquia social e a desigualdade da riqueza. Aos
poderes das oligarquias tradicionais e da reação
clássica, juntam-se agora os poderes da mídia.
Juntos – e em nome da liberdade de expressão! –
atacam os programas que defendem os interesses da
maioria da população. É esta a fachada da mídia da
globalização. Revela da maneira mais clara, mais
evidente, mais caricatural, a ideologia da
globalização liberal. (Ramonet: 2005).
O caso de Hugo Chávez é, portanto,
pertinente a toda realidade sul-americana.
Tudo leva a concluir que a Veja
bebendo e apostando na fonte da mídia internacional, só está
esperando mais um escorregão político ou econômico de Chávez ou
uma armação "imperialista" no jargão chavista para, no centro
dos interesses mundiais, ser crucificado pela mídia. Seja na
versão tipo "farsa" iraquiana, seja como um governante que está
levando a Venezuela para a bancarrota.
Na versão "farsa iraquiana",
Veja joga também suas fichas nesta política americana de
"contenção do chavismo":
Os Estados Unidos dão
mostras de que Chávez está conseguindo seu intento
de ser notado. Uma reação parece inevitável e está
em curso uma campanha diplomática para isolar o
regime de Caracas. (p.161)
Percebe-se, sem entrar no mérito
da questão, um esforço concentrado para tornar Hugo Chávez um
demônio, totalitário, pertencente ao "Eixo do Mal".
Para Chomsky (2003:11) a mídia
serve bem como propaganda em nome de poderosos interesses
sociais que a controlam e financiam.
Em suma, uma abordagem
tendenciosa, preconceituosa, alinhada automaticamente aos
interesses políticos e econômicos. É pouco jornalismo e mais um
libelo belicoso, desproporcional motivado mais por razões
políticas, econômicas e morais. A revista semanal usa seu espaço
como um tribunal instantâneo para condenar e julgar aqueles que
não estão alinhados aos seus interesses. A parcialidade a
serviço da manipulação.
A edição Veja nº 1903 é,
usando uma expressão de Chomsky (2003: 380), "um caso modelar de
propaganda disfarçada de "notícia" ou "análise de notícia".
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UCHOA, Pablo. Venezuela: A encruzilhada
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