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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 26 de fevereiro de 2008 23:56:55                                               

 
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COLUNISTAS

O vazio do Outro

Gilberto da Silva

publicado em 22/02/2008


Foto: Gilberto da Silva

As relações humanas estão cada vez mais estabelecendo pendências entre o Um e o Outro. O Eu procura apoio no Outro para ter suporte e enfrentar as agruras do cotidiano moderno. Um dia de ausência do pode ser crucial, é uma eternidade irritante que faz aumentar a angústia do Outro.

A sociedade contemporânea, baseada no histórico da indústria cultural e na espetacularização das ações humanas produz uma vida noveleira, com a premissa de que não possamos perder nenhum capítulo diário essencial desta narrativa instantânea e superficial.

Nossa dependência drogal, orgânica, física, mental, virtual obriga a ter as outras pessoas como nossos aliados, nunca como nossos inimigos ou um Ser a ignorar. Precisamos usar o Vazio do Outro pra preencher nossas vazios. O Vazio não pode ser visto como nada, o vazio tem forma, conteúdo, consistência. O vazio é transformação silenciosa é a possibilidade de tornar visível o que está invisível, de dar forma ao que está disforme, de levar luz onde há escuridão, de colorir e transformar as cores.

Canibalismo moderno: preciso te comer para sobreviver! Ou cenas de uma estética moderna: arranco o teu pedaço para consertar o meu corpo e minha alma despedaçada.

Nossas sensibilidades são florais com desabrochares cotidianos nos jardins da vida. Nossas neuroses urbanas levam-nos a um estágio em que a impaciência pelo Nada a fazer do Outro é irritante. Não nos conformamos com o vazio do Outro, com o tempo do Outro.  Queremos por que queremos também nos apossar do tempo do outro, transformá-lo em nosso.

Nessa teia de intolerância ficamos amarrados a esta complexidade estranha, de cobranças, de poder, de mando. Ficamos enlaçados a esta arquitetura do desprazer, da arbitrariedade mundana. Carinho, afeto, amor são expressões usados no Vazio.

Cada dia mais as relações de complementaridade, de troca, de diálogo vai se tornando UNA. Não há mais o retorno, o sistêmico, o DUAL e sim uma relação doentia, vulgar baseada num avia de mão única.

O Outro carente, dependente suga suas veias e de todo e qualquer sangue que porventura possa obter. Vampirismo moderno, pós-moderno, vampirismo do século vinte e um. Outra prática muito comum é não aceitar que o Outro tenha este momento do isolamento, da clausura. Como pode a pessoa ficar isolada com tanta coisa acontecendo? Está louca?

Então, ouvir o canto dos pássaros, ouvir o som do silêncio, ver o cotidiano dos outros animais passa a ser um martírio para o dependente que não está  mais acostumado com o sumiço do outro ou com as loucuras do outro.

O imediatismo, o individualismo e o vampirismo pós-moderno pode nos levar a auto destruição. Somos treinados para a dependência do Outro e não para a Liberdade. Perdemos cada dia mais o respeito ao outro... e nos respeitando menos, muito menos a cada dia.

 

Para usar como referência bibliográfica use:

SILVA. G. O vazio do Outro. Revista Virtual Partes. <http://www.partes.com.br/colunistas/gilbertosilva/ovazio.asp>. Acesso em__/__/__.

 
 
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::sobre o autor::

Gilberto da Silva é jornalista, professor e sociólogo da Prefeitura do Município de São Paulo. Graduado em Jornalismo pela FIAM e Ciências Políticas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Mestre em Comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. É editor do site Revista Partes (www.partes.com.br) e pesquisador do grupo de pesquisa Comunicação e Sociedade do Espetáculo  na linha de pesquisa A Teoria Crítica e a Comunicação na Sociedade do Espetáculo organizado pela Cásper Líbero e coordenada pelo Prof. Dr. Cláudio Novaes Pinto Coelho.
 

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