O Revolucionário Permanente. Ele nunca está contente. Sempre há
uma revolução para fazer, para ser completada. Aqueles que impedem estas
ações revolucionárias são sempre denominados de reacionários, ou
contras. Eles cantam o amanhã, mesmo após acordar com um sério
desencanto. Não é preciso apenas mudar o mundo, é preciso mudar o
Universo. É preciso muito e sempre e mais. É preciso interpretá-lo,
reinventá-lo. Este tipo de revolucionário sempre denomina-se um
emancipador nato. Para estes a revolução é sempre um processo de
mudanças profundas, necessárias e absolutamente importantes.
O consenso só é possível se seus pontos de vistas forem
absolutamente aceitos. O futuro para estes sempre será melhor, mais
acolhedor, mais humano. É sempre preciso explorar novos caminhos
(entendendo como novo, o velho conceito que provavelmente ele carrega).
Mudança sempre!
A repressão e suas características
Dentro do contexto de uma revolução um componente que requer um estudo
mais apurado é a utilização da repressão. A repressão tem vários
sentidos e pode ser analisado sob diversos pontos de vistas. Não existe
apenas a repressão física, mas também a psicológica e a ideológica. Os
movimentos repressivos são dirigidos por duas maneiras: a reação e a
progressão. Esses dois mecanismos lembram muito o famoso Sistoles e
Diástoles do general Golbery, teórico geopolítico do Governo Militar.
Uma reação pode ser repressiva se servir de antídoto
radical aos processos evolutivos da função social; ela pode ser exercida
para reagir às tendências humanas de tentar o REAL (entendido aqui como
o IDEAL para o Outro). A repressão exercida pela reação é uma defesa dos
valores morais, sociais ou culturais. É a preservação do EU, um
movimento de conservação e defesa precedida de um ataque.
Já movimento de progressão é a repressão aos valores
arcaicos, ao modelo antigo, às velhas ordens emanadas por um poder que
teoricamente está em ruínas, ou em processo de deterioração. Progressivo
é, para quem o exerce, a reestruturação na procura de uma ordem moderna,
evolutiva. Neste caso, a repressão possui um claro sentido aniquilador
do retorno de uma antiga ordem.
A repressão possui quatro tipos de “caráter”: o
revolucionário, o progressivo, o conservador e o reacionário.
O Revolucionário é para quem o exerce, a quebra de
velhas ordens num determinado momento social: o da revolução. Sua função
é a de reprimir os ataques contra-revolucionários. Não devemos esquecer
que todo caráter repressivo pode ser em nível de poder estatal ou poder
individual, nas relações homem-mulher; pai-filho-mundo;
religião-homem-mundo.
O caráter revolucionário da repressão é - para quem o
exerce - o processo de mudança de uma estrutura, a virada de uma
pirâmide, por isso, seja necessário reprimir os que ainda tentam
subverter a nova ordem. A repressão é, nesse sentido, vista pelos
revolucionários como uma necessidade, um mal que vem para o bem, uma
medida certa para a total implantação dos seus novos valores.
Para os revolucionários é aniquilando os velhos valores
que se pode tornar-se seguro da situação, “... pois esta tem sempre,
como divisa de rebelião, a liberdade e os seus antigos costumes, os
quais nem o transcurso do tempo nem os benefícios recebidos farão
esquecer.”
[i]
Os sandinistas utilizaram-se deste expediente de aumento
de repressão na tentativa de aniquilar as forças contra-revolucionárias
somozistas e dos índios miskitos.
Sob o ângulo da repressão homem-mundo, essa repressão
revolucionária teria sentido se, por exemplo, as mulheres abolissem as
velhas ordens morais aderindo à uma nova ordem moral, sexual e, desta
forma, rechaçar todos os velhos conceitos da tradição familiar submissa,
do patriarcado ditatorial.
A repressão revolucionária dá-se num determinado
momento histórico, num período ainda desestabilizado onde novas ordens
ainda não foram aceitas, acomodadas, onde ainda o perigo da iminente
reação sobrevoa.
O tipo Progressivo se dá no período em que há uma
norma, uma ordem, em franco desenvolvimento, num momento em que ainda é
preciso modernizar-se, progredir, ir à procura de uma nova situação. O
caráter progressivo da repressão é baseado na persuasão e na
aniquilação, sendo que na persuasão há a clara intenção da ideologia
modernizadora, onde ela é exercida com o sentido de aniquilar as velhas
hierarquias, os velhos sistemas e aperfeiçoar novas formas de manutenção
da estrutura.
O caráter progressivo da repressão geralmente se dá num
período pós-revolucionário onde é necessário aperfeiçoar novas formas de
dominação, criar métodos mais eficazes de controle nesse sentido toda
“reação” em contrário é anti-revolucionário, conservador ou reacionário.
Ao contrário do caráter revolucionário que ainda é portador de um
conteúdo utópico, o progressista já atingiu “para si” a realidade: ele
apenas realiza seu projeto. O repressor progressista ainda não chegou à
“plenitude”, ainda busca a totalidade da sua eficácia e espera atingir a
sua “finitude” (que pode ser inatingível). É o caso do jovem saindo de
uma fase de contestação para outra de ações conscientizadoras, sem
euforismos, um jovem partindo da simples agitação para a transformação
progressiva da sua personalidade, não aceitando nem a revolução total de
seus conceitos como a volta aos padrões que a família lhe engendrou.
A atitude repressiva é, nesse caso, sempre aplicada no
sentido de favorecer o andamento de uma prova nova ordem criada. É
exercida como atitude “construtora”.
O caráter Conservador utiliza a repressão como
manutenção da situação vigente, reprimindo toda manifestação ao
contrário e toda tentativa de mudança. Usa os instrumentos repressivos
como arma de defesa dos valores por eles implantados. Utilizado-a como
um bem para si e para os que seguem os mesmos valores.
O conservador sente-se sempre um íntegro, tradicionalista., moralista e
evita de forma total qualquer tentativa de mudança. Partem de um
pressuposto que vivendo numa estabilidade (a sociedade ou a sua
individualidade) os que são estáveis (ou) os dominados a aceitar
geralmente legítimo domínio vigente.
A relação pais-filhos é sempre visto sob o ponto de vista
conservador. O patriarcado age de acordo com os princípios da repressão
conservadora na manutenção da ordem familiar. A igreja tradicional e
ortodoxa agiu muitas vezes de acordo com os princípios do caráter
repressivo conservador.
O caráter reacionário é o que utiliza da repressão
através de uma resposta a uma ação qualquer que tem interesse em
provocar a ameaça a sua ordem. É tido como opositor a qualquer inovação
nos valores. É tido como contrário a liberdade e age de acordo com os
princípios arcaicos e ultrapassados. No seu modo de ver é preciso agir
sempre contra qualquer ação evolutiva, revolucionária e ou
modernizadora.
O reacionário não é um conservador, o
caráter repressivo dessa maneira é dado em qualquer situação.
[i]
O Príncipe. Maquiavel. São Paulo: Circulo do Livro. s/d. página
56.