Lembro-me dos tempos da militância política... Havia uma mulher
beirando seus 50 anos. Frequentava eventualmente, assim como suas
filhas, nossas reuniões políticas e nossas festas. Bela em sua
simplicidade, sorria sempre e exalava simpatia. Tinha um caso com um
amigo nosso, também militante, boêmio, daqueles operários que não
deixavam nada sem experimentar...
A
bela mulher, morena, de corpo bonito, tinha duas filhas e se não estou
enganado, não tinha marido. Falta-me mais memória no momento.
Certo dia, ao realizar meu trajeto para meu local de trabalho, a
tradicional USP - Universidade de São Paulo, onde humildemente prestava
meus serviços como técnico de laboratório, encontrei a morena circulando
alegremente pela Avenida Waldemar Ferreira em busca de clientes. O local
era é é tradicionalmente conhecido por ser uma zona livre de
prostituição de mulheres e travestis.
Passado o choque inicial procurei conversar posteriormente com algumas
"coroas" que prestavam tal serviço. Todas alegavam que prestavam tal
serviço com mais carinho dos que as mais jovens. Mais amor, menos
dinheiro.... Prostitutas muito, mais muito mesmo, maiores de idade!
Maldito é o dinheiro que você não ganha, poderia protestar uma vovó
liberada!
Precisei ir enfrente na busca de uma resposta que poderia explicar como
uma avó de algum amigo meu pudesse prestar serviços sexuais em avenidas
e praças da cidade. Naquela época ainda não havia os celulares, nem a
internet, mas já encontrávamos alguns anúncios de "coroas liberadas" em
jornais mais populares.
Um dia encontrei a morena na vila em que morava. Com vontade de passar a
história a limpo, criei coragem e a convidei para tomar uma cerveja num
boteco da esquina. Entre um gole e outro pedi que a "coroa" explicasse
como conciliava esta vida. Ela então soltou o verbo e eu a verba da
cerveja (apenas). Alegou que com o dinheiro que ganhava na prostituição
conseguia dar comida e educação as suas duas filhas (que foram todas bem
criadas, casaram e deram muitos netos para a morena). Puta não precisava
ter cara de puta. E ela considerava um dinheiro digno, não roubava e não
matava para ganhar seu pão. Ia prá rua pra não faltar o pão na mesa de
suas filhas.
Criado na boa educação e forjado nas idéias feministas da esquerda
(lições que mal aprendi) relutava em aceitar tais argumentos. Para mim
era pura semvergonhice. Não entendia que rugas podia combinar com tesão.
Mas entendia que na mesa de filhos não podia faltar pão...
Sei até hoje que a prostituição provoca debates calorosos (risos) mais
calorosos ainda se for acima de 40... na busca de dinheiro ou na
fuga da solidão muitas amigas da morena também já tinham passado dos 40
e não faltavam clientes. Passado tanto tempo, não sei que fim a velha puta
levou.
Hoje ao lembrar deste fato corri na internet e li um anúncio
interessante em um sitio portugues: "Duas amigas (c/39 e 40 anos, com
apartamento privado, na zona de Sintra.
Oferecem seu convivio intímo a casais (bi), Damas e Cavalheiros que
procuram selectividade, onde tudo acontece, com a devida segurança.
Damos máxima descrição e sigilio. Chamadas anônimas não atendemos.
Lembrança a combinar." Morri de rir na primeira leitura.
Depois do riso passei a refletir. Comemoramos no próximo 8 de março o
Dia Internacional da Mulher. Temos muito pra comemorar?????
Corri então atrás de uma curta chamado 69 - Praça da Luz
documentário da dupla Carolina Markowicz, Joana Galvão que
aaborda a história de prostitutas com idade avançada que ganham a vida
na Praça da Luz, em São Paulo. Quem não tem preconceito e nem
puritanismo, pode ver um trecho em
http://www.portacurtas.com.br/pop_160.asp?cod=5676&Exib=5937
No fundo todas tem história de abandono, de abuso sexual na infância,
padrasto, madrasta, casamentos arruinados.... Você, leitor, deve
conhecer inúmeras situações assim. Então, melhor refletir, antes de
acusar.