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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 08 de agosto de 2008 20:25:08                                               

 
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COLUNISTAS

A Felicidade

   

Pedro Coimbra

publicado em 08/08/2008

 

Acordo decidido: hoje será um dia feliz.

Na semi-obscuridade do quarto acerto a canela no pé de um criado mudo.

Impossibilitado de recorrer ao Jaques, barbeiro e confidente de plantão, resolvo fazer a barba sozinho e logo gotas de sangue vermelho saem de dois cortes na pele e caem na bancada.

Decidamente as coisas começaram mal.

Felicidade. O que é ser feliz?

Quando mudei-me para Beagá em 1968, o filme de sucesso no momento era 'As Duas Faces da Felicidade' (Le Bonheur), da diretora francesa Agnès Varda, mulher de Jaques Demy. A história de um homem casado, pai de família, pequeno burguês, que se envolve com outra mulher, mas não quer abandonar a esposa. Portanto quer as duas. A impossibilidade de tê-las, pois uma se mata, destrói a idéia da tal felicidade.

'As Duas Faces da Felicidade' é um filme muito belo no aspecto estético, com uma fotografia envolvente. Preocupado com um cinema mais engajado detestei o filme. Mas a diretora francesa estava certa na sua teoria da “felicidade a mais”, do que é ser feliz, e o que nos faz feliz.

Raciocinando bem é mais fácil conceituar a felicidade do que o amor, por exemplo. É preciso primordialmente uma faxina espiritual. Para alcançá-la é preciso atirar imediatamente no lixo sentimentos menores como o ódio, o rancor, as desilusões e a raiva. Sem se livrar deles a felicidade não irá se aproximar de você. Mas é preciso mais: a caridade, o carinho, a humildade e o sucesso.

Não é fácil conquistar estes atributos e alguns mais como trabalho verdadeiro e relacionamentos duradouros. Mesmo assim falta algo mais. Esquecemo-nos do amor, não na sua aparência material que é a paixão, mas em sua essência.

Todo este arcabouço pode ser derrubado em um instante por um sentimento daninho como o da inveja.

Para manter a felicidade conquistada é preciso ter muita fé, acredite.

E renovar a cada momento tudo o que a alimenta.

Ontem, por exemplo, revi meu amigo, o octagenário Humberto Gattini, pai da Heloísa Maria e da Marilane. Lembrei-me da gente, em uma eleição, encaritados no seu Sinca Chambord, com o José Serafim, o Ratão, rodando pela cidade a procura de eleitores. Falam muito hoje de eleições manipuladas, mas quatro décadas atrás as coisas eram bem piores. Os cidadãos levavam consigo cédulas com os nomes de seus candidatos, “as marmitas”. Nossa função era levá-los para verdadeiros currais eleitorais, dar-lhes sanduíches de mortadela e refrigerantes quentes. Trocar “as marmitas” e democraticamente levá-los para votar em suas seções. E sempre que possível comemorar com muita alegria o resultado favorável. Lembranças que nos causam mais do que nostalgia, muita felicidade...

Decididamente, a felicidade não é algo que se compra no “prêt-à-porter’ dos armarinhos da vida, decorre de uma lapidação dos fatos e dos sonhos que vão ocorrendo.

Muitos dos meus leitores devem estar pensando que sou um expert no assunto felicidade. Na verdade sou apenas um explorador dos caminhos da condição humana.Como sugerem alguns amigos poderia me arvorar em palestrante destes assuntos e mesmo editar livros de auto-ajuda que fazem o sucesso de tantos. Mas não nasci para isto.

Apenas me recordo que no próximo domingo estaremos comemorando o “Dia dos Pais”, um evento essencialmente de marketing. E que neste momento estou muito feliz, como meu pai, que durante anos nunca expressou para a família momentos que não representassem a sua felicidade. Fôssem ou não verdadeiros, eram a sua verdade.

  

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