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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 30 de abril de 2008 23:30:45                                               

 
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COLUNISTAS

As aventuras

   

Pedro Coimbra

publicado em 01/05/2008

 

De tanto meu pai de santo de plantão, Eduardo Dutra, dizer que estou muito saudosista nos meus textos, busquei inspiração no fundo do baú. E vamos logo à história, que é o que nos interessa. No Oriente, vivia um homem muito bom, justo e pobre, chamado Ali Babá. Certo dia, do alto de uma tamareira ouviu o tropel de cavalos. Logo avistou quarenta cavaleiros. Pouco depois os homens voltaram com seus cavalos ruidosos. Na manhã seguinte, Ali Babá ouviu o mesmo barulho da véspera. Eram os mesmos quarenta cavaleiros. — Chega de folga! Temos de descarregar o que roubamos hoje.— disse o chefe. “Por Alá! Eles são ladrões!” concluiu Ali Babá. Chegou ao lugar em que haviam parado e viu o chefe descer do cavalo. Os trinta e nove ladrões continuavam montados. O chefe gritou: — Abre-te, Sésamo! Uma grande rocha da pedreira se moveu, abrindo a entrada de uma gruta. Os quarenta ladrões entraram em fila e, após o último, a caverna se fechou. E Ali Babá esperou até que ouviu o barulho da pedra se movendo novamente. Os ladrões saíram em fila. Por último o chefe. E, voltando-se para a grande pedra, falou: — Fecha-te Sésamo! A pedra rolou novamente, fechando a entrada do esconderijo. Ali Babá esperou e saiu de trás da árvore...

Estancamos aqui a narração para que o leitor não perca o suspense de seu desfecho, quando ler esta maravilhosa história.

“Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa”, “Aventura nos Sete Mares " e “Simbad” fazem parte de uma coletânea de contos orientais que constituem a obra clássica As Mil e Uma Noites (Alf Lailah Oua Lailah), datados do século XII e que maravilhou autores tão diversos como James Joyce, Edgar Allan Poe, Jorge Luís Borges, Isak Dinensen, Machado de Assis, Voltaire, Proust e Stevenson.

O enredo é muito simples: o Califa de Bagdá, traído por sua mulher, manda matá-la e resolve passar cada noite com uma esposa diferente, que determina seja degolada na manhã seguinte. Recebendo como mulher a Sherazade, esta iniciou um conto que despertou o interesse do rei em ouvir-lhe a continuação na noite seguinte. Sherazade, com este truque nas suas histórias, conseguiu encantar o monarca por mil e uma noites e foi poupada da morte.

Pesquisando esta obra me surpreendo em saber que Sherazade aparece em poucas histórias, e que os tantos contos que ouvíamos na nossa infância, contém um forte apelo sexual.

Na verdade aventuras fazem parte do nosso imaginário desde que assumimos a postura ereta, e nos fascinam, principalmente pelo risco.

Como naquele dia em que acompanhei o já famoso ator do cinema brasileiro, Paulo César Pereio, que estava em Belo Horizonte, a convite do pessoal de cinema, numa excursão etílica pela cidade.

Ele parecia estar incorporando o tempo todo um personagem debochado e fanfarrão.

Num barzinho famoso da época, capitaneado por uma badalada pintora, depois de fazer charme com todas as mulheres que encontrou pela frente, resolveu, sem nenhum motivo, se engraçar com dois atléticos rapazes, que pelo corte de cabelo militar e stitude deviam pertencer a alguma guarnição do Exército.

Em pleno vigor do AI-5, Paulo César Pereio vituperou contra os milicos em geral, xingou as mães deles e fez todo tipo de histrionismo contra os homens, e se bem me recordo uma pistola automática apareceu em meio a confusão, sem mais, nem menos.

Ao lado de Pereio, eu já imaginava qual seria o nosso triste fim de noite, morgue da cidade e como notícia policial no “ESTADO DE MINAS”.

Apanhando uma cadeira ele ameaçou os dois oponentes que ele mesmo criara como se fossem leões no picadeiro de um circo mambembe qualquer. E dizia seu palavrão  predileto sem cessar...

O anticlímax da história foi que os freqüentadores do local, eternos boêmios, conseguiram serenar os ânimos, sem o concurso da polícia. Da minha parte, com as pernas tremendo, coube a ingrata tarefa de retirar o ator daquele local, com muita dificuldade e levá-lo até o hotel.

Depois daquela noite nunca mais nos encontramos. Vez por outra assisto seu programa Sem frescura, no Canal Brasil e por leitura de revistas fico sabendo que continua cada vez mais rabugento e iracível, em fase descendente na carreira e pretendendo comandar uma campanha pela implosão do monumento do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro...

Esta foi uma pequena aventura, com pouca adrenalina e sem o charme das narrativas mirabolantes de As Mil e Uma Noites, mas que poderia ter terminado tragicamente e a qual eu não gostaria de repetir...

  

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