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Nunca Márcio acordara tão abatido, como naquela quinta-feira, 12 de setembro,
com a boca seca, garganta dilatada e pernas bambas.
O aparelho de tevê ainda estava ligado e as emissoras transmitiam os
jornais matutinos revivendo o grande drama da véspera.
Sentou-se à mesa e serviu-se de suco de laranja, coalhada síria,
presunto e pão francês.
Nem de perto este desjejum parecia com o dos seus amigos muito
pobres, dos tempos de infância, vindos da Bahia, que se serviam de água de pó de
café ralo e farinha de pau, que era como denominavam a farinha de mandioca.
Márcio estava muito triste, melancólico mesmo com os rumos da
política brasileira.
Pensava no seu tempo de estudante em Belo Horizonte, participando de
assembléias e passeatas sem fim, em defesa da Democracia e contra a Ditadura
Militar.
Idealizara desde então o homem público ideal. Com
serenidade, mas sem ser
apático. Prudente, mas sem denotar fraqueza, hesitação ou medo. Defensor da
honestidade e da sinceridade. Corajoso, sem ser temerário.
Décadas passadas chegava à conclusão
que os homens públicos brasileiros marchavam na contramão destes princípios, da
História e da opinião pública.
A mídia tornou-se o grande
investigador dos poderes constituídos em todas as esferas. Felizmente...
Lembrou-se então
da história do Padre Antônio Vieira
pregando em Lisboa o "Sermão do Bom Ladrão", diante de D. João 4º e sua corte.
Imaginou o desconforto do auditório, constituído de juízes,
ministros, conselheiros da coroa e os mais altos dignitários do reino, ouvindo
Padre Antônio Vieira falar de ladrões e ladroeiras públicas.
"Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem
os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. O que vemos praticar
em todos os reinos do mundo é, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao
paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno.
Prosseguirei com tanto maior esperança de produzir algum fruto
quanto vejo enobrecido o auditório de tantos ministros de todos os maiores
tribunais, sobre cujo conselho e consciências costumam se descarregar a dos
reis".- disse Padre Antônio Vieira.
“Pela exaustão proveniente da
corrupção, em todos os escalões da vida nacional, o modelo político acabou, mas
não podemos pensar mudá-lo neste cenário e com estes protagonistas, pois são
poucos os homens públicos que fugiriam a pecha de egoístas” , raciocinava
Márcio.
Lembrou-se do pensador
Maquiavel: Virtú e fortuna são os
conceitos-chave para a ação política do indivíduo.
Virtú é a qualidade do homem que o capacita a realizar grandes
obras e feitos. É a força de vontade, a motivação interior, o carisma que induz
o homem a enfrentar a fortuna. Esta significa o acaso, o destino cego, o
fatalismo, a necessidade natural, o curso da história. O homem de ação, ou seja,
o homem político, se move entre essas duas forças. A fortuna apresenta a
oportunidade que, sem a virtude, seria desperdiçada; a virtude, sem a ocasião,
seria inútil. As qualidades do homem político têm a ver com sua capacidade de
apoderar-se da oportunidade, não ficar sujeito às surpresas do acaso.
Nesta manhã de quinta-feira, 12 de setembro, quando o Senado
brasileiro ficou menor, Márcio pensava como seria o nosso futuro.
E sua enxaqueca aumentava cada vez mais... |