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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 23 de junho de 2008 20:01:42                                               

 
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COLUNISTAS

Dança

   

Pedro Coimbra

publicado em 23/06/2008

 

Marli acordou trôpega, ainda na boca da noite, os olhos pregando da “mardita espanhola”, que era como sua mãe chamava qualquer gripezinha, por mais vagabunda que fosse.

            Vestiu seu vestidinho de mocinha mais bonito, pisou de mansinho por dentro da casinhola, nas mãos seus velhos sapatos e saiu pro terreno de barro batido.

Olhou as estrelas por cima de sua cabeça e tomou o caminho da trilha do Cajuru para a cidade.

Chegou na Praça de Santana dia amanhecendo. Apesar do frio e da neblina se recompôs nas águas da fonte. De uma bolsinha de pano, presa a cintura, sacou um gasto batom bem vermelho e com precisão fez o contorno dos lábios carnudos. Arrumou a cabeleira encaracolada, da cor dos cabelos das espigas de milho que seu pai plantava e se refestelou num dos muitos brancos de concreto.

            Estava ali, pensando em sua vidinha roceira, quando a Kombi branca parou e dela desceram três rapazes.

            Sentaram-se ao seu lado e logo começaram com safadezas. Perguntaram seu nome e ela, preferiu dizer que era Angélica, porque achava lindo este nome, tão ligado as coisas do céu.

            Em um momento já estava percorrendo com eles as ruas da cidade, em direção a um descampado.

            Ali fizeram dela gato e sapato, mas não se importou, sentindo-se mulher de cidade grande.

            Depois a levaram até o Largo do Cemitério, onde aportou defronte a entrada do Parque de Diversões Dragão do Mar. Ficou por ali, andando de um lado para o outro, sentando-se na gangorra e nos cavalinhos.

            Aquietou-se de vez nos degraus da Igreja, sentindo os estranhos barulhos que provinham de suas entranhas e que sinalizavam a fome de quem comera um prato de feijão, com couve e angu muitas horas antes.            Foi então que se acercou dela um homem baixote, calvo, com um grande bigode e uma barriga que se projetava a sua frente.

            Disse chamar-se Belarmino e era o dono daquele “centro de divertimento”, que era como ele chamava toda aquela joça a sua frente.

            Bisbilhotou sobre seu passado e sua idade e finalmente ofereceu-lhe emprego.

            Angélica sentiu-se no céu! Nem bem deixava a roça, fugida, já encontrava o que fazer, e melhor ainda, ia ter até um salário...

            “Seu” Belarmino indicou-lhe uma tapera onde vivia a empregada que fora embora.

            Dormiu em cima de uma enxerga até que já de noitinha ele voltou com um prato de comida e as roupas que deveria usar a noite.

            Ela deveria andar por todo o parque, por entre o público, levando uma tabuleta presa ao pescoço e vendendo miudezas, coisas como cigarro picado, chicletes, balas e barras de chocolate. Seu uniforme era uma blusa bem decotada e uma saia minúscula.

            Andando de um lado para o outro acabou por fazer amizade com um negrinho sorridente que era o faz de tudo do lugar. Seus olhos eram como duas grandes jabuticabas e era chamado de Zoiudo.

            Com poucos dias no lugar, “Seu” Belarmino acabou desaparecendo e tudo que fazia, desde apanhar os produtos até o acerto final, era com Zoiudo.

            Foram se envolvendo, o calor da carne cada dia mais forte e Angélica acabou se atracando com o negrinho encostados nos muros do Cemitério.

            Zoiudo foi quem inventou a sensação do Parque de Diversão Dragão do Mar e pedia que o locutor Itamar a apresentasse: um número de dança com Angélica seminua, que  deixava os expectadores de queixo caído com sua beleza e graciosidade natural.

            Em algumas ocasiões especiais ele a levava para um sítio nos arredores da cidade para uma apresentação especial para convidados. Ia até lá e desaparecia. Ela nunca soube quanto ele arrecadava de dinheiro nestas ocasiões, aproveitando-se de seus dotes especiais que a levavam quase sempre para cama com um dos figurões, em geral fazendeiros da região.

            Certo dia, ele lhe falou baixinho no seu ouvido por longo tempo e sem avisar ao “Seu” Belarmino, nem mesmo fazer um acerto de contas, tomaram um ônibus e rumaram para o Rio de Janeiro, que todos chamavam de Cidade Maravilhosa.

            Lá ele arrumou um hotelzinho vagabundo para se alojarem na Lapa e a levava pessoalmente as esquinas para fazer mecha.

            Mas, havia um ritual que era sagrado: as aulas de dança de salão, com Dona Antonieta, na gafieira Estudantina.

            Angélica não demonstrava a sua formação caipira e tinha facilidade para aprender todos os requebrados e remelexos da arte. Dona Antonieta a considerava uma das melhores alunas que já tivera.

            Tempo passado, mais uma conversa de pé de ouvido de Zoiudo e deixaram o Rio para trás e rumaram para São Paulo, onde em Moema ele abriu a Escola de Dança Momentos de Enlevo.

            Somente no dia que várias viaturas policiais estacionaram diante do estabelecimento a procura de Zoiudo, Angélica descobriu que ele andava dando o “Golpe da Bela Adormecida” em muitos velhinhos e velhinhas que eram seus clientes e que eram depenados da noite dia.

Foi presa, Zoiudo desapareceu para sempre e ela só saiu da cadeia porque um português, Manuel, rico atacadista de tecidos da rua Oriente, estava apaixonado por ela.

Foram morar em Santos e ele cada vez mais lhe fez proprietária de um vasto patrimônio.

            Dez anos depois avisou que ia deixá-la e voltar para sua terrinha e casar em Alentejo.

            Angélica vendeu todos os bens que estavam no seu nome e como madame retornou a Santana.

            Mas, sempre faltava alguma coisa na sua vida.

            Procurou muito até que encontrou um parque de diversões falido, perdido no Vale do Jequitinhonha.

            Mandou que recuperassem todos os brinquedos e o Beto pintou uma placa enorme, com os dizeres “Parque de Diversões Dragão do Mar”.

            Instalado em um bairro, foi inaugurado com um grande show e uma apresentação de dança de Angélica.

            Olhando tudo aquilo, ela dizia que esta realmente era sua vida...

  

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