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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 11 de abril de 2008 22:57:31                                               

 
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COLUNISTAS

Lindas Canções

   

Pedro Coimbra

 

 

 

O galpão não era grande e o pátio relativamente pequeno.

            Ao fundo uma casa que parecia enorme aos meus olhos de menino.

            Intermediando os sanitários, uma frondosa jabuticabeira.

            A escola, que se chamava instituto sei lá o quê, estava quase no centro da cidade, apesar da rua sem pavimentação, cheia de poças de água quando chovia ou com muito pó avermelhado debaixo de um sol inclemente de verão.

“Ciranda, Ciradinha,/Vamos todos cirandar/Vamos dar a meia volta, Volta e meia vamos dar/ O anel que tu me deste,/Era vidro e se quebrou/
O amor que tu me tinhas, Era doce e se acabou.”

As crianças todas sentadas no chão de cimentado liso, meninos e meninas, elas de saiote e eles de calças curtas, da cor azul do céu e camisas brancas.

Todos levavam merendeiras com o que pudessem trazer de suas casas e a diretora da escola dava pra cada um copo de refresco aguado por causa das pedras de gelo.

Fazia um calor de 40º graus!, diziam os adultos.

A bandeira verde amarela era hasteada no mastro preso na jabuticabeira.

Mais ou menos cem crianças procuravam colocar-se em posição de sentido e cantar corretamente.

“Ouviram do ipiranga as margens plácidas/de um povo heróico o brado retumbante,/e o sol da liberdade, em raios fúlgidos,/
brilhou no céu da pátria nesse instante./
Se o penhor dessa igualdade/
conseguimos conquistar com braço forte /,
em teu seio, ó liberdade,/
desafia o nosso peito a própria morte!/
Ó pátria amada, idolatrada,/
Salve! Salve!”

Até aí as coisas iam mais ou menos bem e depois começavam a desandar.

Ninguém entendia o vocabulário do Hino.

A diretora percebia e atacava com um outro que todos adoravam.
            “
Já podeis, da Pátria filhos,/Ver contente a mãe gentil;/Já raiou a liberdade/ No horizonte do Brasil/ Brava gente brasileira!/ Longe vá... temor servil/ Ou ficar a pátria livre/Ou morrer pelo Brasil.”

O toca discos era novo em folha, com madeira escurecida, “cor de jacarandá”, a diretora dizia,  e um imenso sintonizador verde, apelidado de olho de gato.

Quando a diretora não estava exercendo suas funções ouvia a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, ou a Rádio Mairink Veiga e mais das vezes, os discos de Orlando Silva, Miltinho e Carlos Galhardo.

“Se você jurar que me tem amor (Quantas vezes eu vou ter que jurar?)/ Eu posso me regenerar
             Mas se é para fingir, mulher (Não sou fingida!)
             A orgia assim não vou deixar
             A mulher é um jogo
             Difícil de acertar
             E o homem como um bobo
             Não se cansa de jogar
             O que eu posso fazer (nada!)
             É se você jurar (Eu juro!)
             Arriscar a perder
             Ou desta vez então ganhar.”

De janela em janela, numa serenata onde ouvia-se “Carinhoso”, “Only you” e “Yesterday”.

O violão de segunda linha, a cachaça de cabeça, a japona de lã resguardando do frio da madrugada.

Mas a letra da música que encerrava todas as serestas da adolescência jazia em farrapos na minha memória.

“Existe uma lei,/Ensinada por Deus, /Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei!/A caprinho no céu/ A capricho no mar? Mas o capricho da mulher é torturar.

Lindas canções que não eram esquecidas...
 

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