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O
galpão não era grande e o pátio relativamente pequeno.
Ao fundo uma casa que parecia enorme aos meus olhos de menino.
Intermediando os sanitários, uma frondosa jabuticabeira.
A escola, que se chamava instituto sei lá o quê, estava quase no
centro da cidade, apesar da rua sem pavimentação, cheia de poças de água quando
chovia ou com muito pó avermelhado debaixo de um sol inclemente de verão.
“Ciranda, Ciradinha,/Vamos todos cirandar/Vamos
dar a meia volta, Volta e meia vamos dar/ O anel que tu me deste,/Era vidro e se
quebrou/
O amor que tu me tinhas, Era doce e se acabou.”
As crianças todas sentadas no chão de cimentado
liso, meninos e meninas, elas de saiote e eles de calças curtas, da cor azul do
céu e camisas brancas.
Todos levavam merendeiras com o que pudessem
trazer de suas casas e a diretora da escola dava pra cada um copo de refresco
aguado por causa das pedras de gelo.
Fazia um calor de 40º graus!, diziam os adultos.
A bandeira verde amarela era hasteada no mastro
preso na jabuticabeira.
Mais ou menos cem crianças procuravam colocar-se
em posição de sentido e cantar corretamente.
“Ouviram do ipiranga as margens
plácidas/de um povo heróico o brado retumbante,/e o sol da liberdade, em raios
fúlgidos,/
brilhou no céu da pátria nesse instante./
Se o penhor dessa igualdade/
conseguimos conquistar com braço forte /,
em teu seio, ó liberdade,/
desafia o nosso peito a própria morte!/
Ó pátria amada, idolatrada,/
Salve! Salve!”
Até aí as coisas iam mais ou menos
bem e depois começavam a desandar.
Ninguém entendia o vocabulário do
Hino.
A diretora percebia e
atacava com um outro que todos adoravam.
“Já podeis, da
Pátria filhos,/Ver contente a mãe gentil;/Já raiou a liberdade/ No horizonte do
Brasil/ Brava gente brasileira!/ Longe vá... temor servil/ Ou ficar a pátria
livre/Ou morrer pelo Brasil.”
O toca discos
era novo em folha, com madeira escurecida, “cor de jacarandá”, a diretora
dizia, e um imenso sintonizador verde, apelidado de olho de gato.
Quando a
diretora não estava exercendo suas funções ouvia a Rádio Nacional, do Rio de
Janeiro, ou a Rádio Mairink Veiga e mais das vezes, os discos de Orlando Silva,
Miltinho e Carlos Galhardo.
“Se você jurar que me tem amor
(Quantas vezes eu vou ter que jurar?)/ Eu posso me regenerar
Mas se é para fingir, mulher (Não sou fingida!)
A orgia assim não vou deixar
A mulher é um jogo
Difícil de acertar
E o homem como um bobo
Não se cansa de jogar
O que eu posso fazer (nada!)
É se você jurar (Eu juro!)
Arriscar a perder
Ou desta vez então ganhar.”
De janela em janela, numa serenata
onde ouvia-se “Carinhoso”, “Only you” e “Yesterday”.
O violão de segunda linha, a
cachaça de cabeça, a japona de lã resguardando do frio da madrugada.
Mas a letra da música que
encerrava todas as serestas da adolescência jazia em farrapos na minha memória.
“Existe uma lei,/Ensinada por
Deus, /Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei!/A caprinho no céu/ A capricho
no mar? Mas o capricho da mulher é torturar.
Lindas canções que
não eram esquecidas... |