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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 16 de maio de 2008 20:44:38                                               

 
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COLUNISTAS

Memória

   

Pedro Coimbra

publicado em 16/05/2008

 

O episódio da indenização milionária de Carlos Heitor Cony, autorizada pela Comissão da Anistia, e que estarreceu a opinião pública, me fez lembrar uma obra sua, meio esquecida, chamado Matéria de Memória, em que os personagens Tino, Selma e João dão seus depoimentos sobre suas vidas amorosas. Cada um narra os mesmos episódios sob seu ponto de vista, deixando para o leitor a tarefa de montar o quebra-cabeça deste surpreendente romance sobre os desencontros do amor. Lançado em 1962, Matéria de memória é um romance em que se cruzam várias histórias de amor. Vividas como se a vida estivesse por um fio, são protagonizadas por personagens comuns, pelo tanto que estão sujeitos ao medo, à culpa e à dor. Mas são também personagens incomuns, pelo poder que têm de dar ao sofrimento a forma de uma segunda pele, de guardá-lo como se corpo e memória fossem uma única e mesma coisa. Do coração assustado de um menino que conhece o sexo no internato ao coração experiente de uma mulher madura que não conheceu o amor, tudo é concreto neste romance de Carlos Heitor Cony. A memória é pura matéria, perguntamo-nos?

A importância maior de Carlos Heitor Cony viria por seus artigos contra o Golpe de 64 publicados no jornal Correio da Manhã, distribuído em Lavras pelo “seu” Osório Veiga. Muito mais importante vem a ser Ulysses, de James Joyce, marco da literatura moderna. O romance registra, em diversos estilos, os eventos de um único dia, 16 de junho de 1904, hoje conhecido e comemorado no mundo inteiro como o Bloomsday. O cenário é a cidade de Dublin, na Irlanda, e os protagonistas são: o propagandista Leopold Bloom, sua esposa Molly e o jovem poeta Stephen Dedalus. Tudo é apresentado ao leitor no que seria chamado de “fluxo de consciência”, ou seja, pura memória.

O que não dizer de Marcel Camus que, com a morte da mãe, em 1905, tornou-se herdeiro de uma fortuna razoável. Com o dinheiro da herança e a saúde cada vez mais debilitada, Proust acabou isolando-se dos meios sociais para dedicar-se à criação de sua obra mais importante, os vários volumes que compõem Em Busca do Tempo Perdido, publicados entre 1913 e 1927, história da representação, da recriação literária do ser humano em suas infinitas reações químicas diante das coisas que o fazem sentir dor ou prazer.

Voltamos ao questionamento inicial: a memória é um sentimento, física ou reação química? Para  Silvia Helena Cardoso a memória surge como um processo de retenção de informações no qual nossas experiências são arquivadas e recuperadas quando as chamamos. É uma função cerebral superior relacionada ao processo de retenção de informações obtidas em experiências vividas. E mais: o termo memória tem sua origem etimológica no latim e significa a faculdade de reter e /ou readquirir idéias, imagens, expressões e conhecimentos adquiridos anteriormente reportando-se às lembranças, reminiscências.

Nunca vou me esquecer de meu pai Renato, no final da vida, já senil, sem dar notícia de quem eram os parentes mais próximos, mas recordando-se, com profusão de detalhes, de sua infância na Fábrica Velha de Tecidos, no porto Dr. Jorge, às margens do Rio Grande, onde viveu.

No Restaurante Gourmet, do meu amigo Ernesto Vollrath, convenientemente próximo da minha casa, depois de preenchidas as necessidades humanas com uma santa comida coordenada pela Ana, sua mulher, conversamos preferencialmente sobre fatos acontecidos décadas atrás, quando éramos alunos do Instituto Gammon e que são lembranças só nossas, cheias de intimidade.

Diante da enxurrada de nomes de pessoas e histórias que vão surgindo e parecem estar ao nosso lado, em carne e osso, muitas vezes saio de lá pensando que estamos nos tornando verdadeiros anciões, peças mais ou menos importantes num prosaico museu da vida...

No fundinho da alma, com tanta experiência vivida, sinto-me bem, porque bem diz o ditado popular: mais vale estrada velha do que vereda nova...

  

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