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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 15 de novembro de 2007 13:11:56                                               

 
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COLUNISTAS

Seu destino

   

Pedro Coimbra

publicado em 15/15/2007

 

 

Waleska, uma lourinha magra, cabelos louros ondulados e queimados pelo sol, morava na periferia de Bagé, no Rio Grande do Sul.

            Certo dia, quando andava pelo Parque de Exposições Visconde de Ribeiro Magalhães, vendendo maças do amor que sua mãe fazia, foi abordada por um homem muito bem vestido, meio calvo.

            - Você é muito linda! – ele lhe disse.

            Depois perguntou-lhe se não gostaria de abraçar a carreira de modelo e ser mais uma das deusas nórdicas brasileiras.

            Ele morava em São Paulo e viajava procurando novos talentos das passarelas para agências especializadas.

            Diante da timidez da mocinha propôs ir até sua casa e conversar com seus pais.

            Sentada numa cerca de madeira ripada, vestida com uma surrada calça jeans, blusinha estampada que sua mãe fizera numa velha máquina de costura que fora de sua avó Malvina, seus olhos azuis brilharam.

            “Será que este chimango não está querendo fazer bobagens comigo? "- pensou.

            Mas Théo, - era assim que se chamava o homem - era insistente e convincente.

            - Você vai deixar essa sua vidinha e ser famosa. Ganhar muita grana, muita mesmo, viver no luxo.

            Waleska, que vivia perambulando pela cidade, fugindo do trabalho doméstico, ouvia sua arenga.

            “ Que custava tentar? Talvez fosse um golpe do destino?” – pensava.

            Desceu para a pista gramada e abraçou um carneirinho que passava.

            “Viajar pelo mundo todo e ser uma celebridade” – dizia Théo, aproximando-se dela, com um perfume inebriante.

            A menina acabou cedendo e foram num carro de aluguel conversar com sua mãe.

            Waleska tinha muita vergonha da tapera onde morava, construída com tábuas de pinho reaproveitadas, sem luz elétrica, água encanada e esgoto e plantada no meio da poeira vermelha.

            Sua mãe ouviu a conversa de Théo, enquanto meditava sobre a miséria em que viviam com os cinco filhos, quatro mulheres e um homem.

            Seu marido era um chacareiro honesto e trabalhador até o dia em que foi vitimado por uma faísca elétrica, num daqueles temporais que vez por outra desabavam sobre a cidade, parecendo que os céus queriam lavar os pecados das gentes.

            Ele ficava horas trancado num quartinho, depois saia sem destino pelas estradas e era conhecido como o vagabundo que tinha filhas lindas.

            Em pouco tempo estava convencida que era uma boa chance para Waleska, que nem mesmo roupa íntima possuía.

            Daquele dia em diante sua filha passou a ter o nome artístico de Ingrid e viajou com o desconhecido para São Paulo, onde foi morar numa república de aspirantes a modelos, no bairro de Moema.

            Ele lhe comprou roupas novas, todas de marca e a levou para fazer o curso de modelos que incluía prática em desfiles, como posar para fotografias de moda e um aprendizado básico de etiqueta.

            Ingrid aproveitava seu tempo livro para bater perna, conhecer a cidade e dormir.

Nesta época media 1, 80 m e pesava 53 quilos e era considerada uma promessa a ser realizada.

            Na porta de seu armário pregou uma foto de sua musa, a esquelética Kathe Moss.

            A modelo Ingrid apareceu em muitos editoriais, capas de revistas, fez vários desfiles para vários figurinistas e tornou-se conhecida nacionalmente.

            Era o mundo da moda, fashion, a seus pés...

            Com o passar dos anos abandonou o apartamento em que morava com outras meninas e foi morar sozinha na Rua Bela Cintra.

            Era muito namoradeira, adorava principalmente rapazes endinheirados, que a cobriam de luxos e aumentavam sua auto-estima.

            Viajava constantemente para o exterior e passou temporadas na Itália, Japão e China.

            Moça de família, apesar de tudo, não se esquecia nunca de enviar uma mesada para a família.

            Vivia a volta com regimes e dietas e quando completou 18 anos começaram seus problemas.

            Num final de semana viu-se envolvida num crime, com a morte de uma modelo, ocorrido em um motel na Barra da Tijuca, no Rio do Janeiro, no qual foram indiciados modelos, travestis, atores e políticos, com suspeita de tráfico de drogas e incentivo a prostituição.

            Segundo Théo tudo acabara em pizza por envolver gente muito importante, mas ela precisava ter mais juízo na cachola.

            Meses depois deixou-o exasperado quando deixou de menstruar três meses consecutivos.

            Para felicidade de Théo não era gravidez, o que a obrigaria, pela sua carreira a fazer um aborto.Mas foi quando começou a apresentar problemas de saúde com perda rápida de peso, medo intenso de engordar, obsessão por dietas e contagem de calorias de tudo que comia, achando-se gorda mesmo estando abaixo do peso, vivendo num entre e sai de academias de ginástica e se isolando antes, durante e após as refeições.

            As últimas pessoas que mantiveram contato com ela neste curto espaço de tempo disseram que seus belos olhos azuis estavam marcados por olheiras escuras, o cabelo louro ralo e os ossos do corpo pareciam querer furar os tecidos que os cobriam.

            Ingrid morreu numa cinzenta manhã paulistana com falência múltipla dos órgãos, vitimada pela anorexia.  

            Théo pagou o funeral de Waleska em Bagé, comprou a maior corbeille que encontrou e acompanhou o enterro ao lado de sua mãe, de seu pai completamente bêbado, das três irmãs e do irmão.

            No trajeto até o cemitério jogou seu olhar clínico para a irmã mais nova de Waleska.

            Ah! Os mesmos olhos azuis e o mesmo corpo esculpido divinamente...

            A todos afirmava que para Waleska aquele tinha sido seu destino...

 
  

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