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Waleska, uma lourinha magra, cabelos louros ondulados e queimados pelo sol,
morava na periferia de Bagé, no Rio Grande do Sul.
Certo dia, quando andava pelo
Parque de Exposições Visconde de Ribeiro
Magalhães, vendendo maças do amor que sua mãe fazia, foi abordada por um homem
muito bem vestido, meio calvo.
- Você é muito linda! –
ele lhe disse.
Depois perguntou-lhe se
não gostaria de abraçar a carreira de modelo e ser mais uma das deusas nórdicas
brasileiras.
Ele morava em São Paulo e
viajava procurando novos talentos das passarelas para agências especializadas.
Diante da timidez da
mocinha propôs ir até sua casa e conversar com seus pais.
Sentada numa cerca de
madeira ripada, vestida com uma surrada calça jeans, blusinha estampada que sua
mãe fizera numa velha máquina de costura que fora de sua avó Malvina, seus olhos
azuis brilharam.
“Será que este chimango
não está querendo fazer bobagens comigo? "- pensou.
Mas Théo, - era assim que
se chamava o homem - era insistente e convincente.
- Você vai deixar essa sua
vidinha e ser famosa. Ganhar muita grana, muita mesmo, viver no luxo.
Waleska, que vivia
perambulando pela cidade, fugindo do trabalho doméstico, ouvia sua arenga.
“ Que custava tentar?
Talvez fosse um golpe do destino?” – pensava.
Desceu para a pista
gramada e abraçou um carneirinho que passava.
“Viajar pelo mundo todo e
ser uma celebridade” – dizia Théo, aproximando-se dela, com um perfume
inebriante.
A menina acabou cedendo e
foram num carro de aluguel conversar com sua mãe.
Waleska tinha muita
vergonha da tapera onde morava, construída com tábuas de pinho reaproveitadas,
sem luz elétrica, água encanada e esgoto e plantada no meio da poeira vermelha.
Sua mãe ouviu a conversa
de Théo, enquanto meditava sobre a miséria em que viviam com os cinco filhos,
quatro mulheres e um homem.
Seu marido era um
chacareiro honesto e trabalhador até o dia em que foi vitimado por uma faísca
elétrica, num daqueles temporais que vez por outra desabavam sobre a cidade,
parecendo que os céus queriam lavar os pecados das gentes.
Ele ficava horas trancado
num quartinho, depois saia sem destino pelas estradas e era conhecido como o
vagabundo que tinha filhas lindas.
Em pouco tempo estava
convencida que era uma boa chance para Waleska, que nem mesmo roupa íntima
possuía.
Daquele dia em diante sua
filha passou a ter o nome artístico de Ingrid e viajou com o desconhecido para
São Paulo, onde foi morar numa república de aspirantes a modelos, no bairro de
Moema.
Ele lhe comprou roupas
novas, todas de marca e a levou para fazer o curso de modelos que incluía
prática em desfiles, como posar para fotografias de moda e um aprendizado básico
de etiqueta.
Ingrid aproveitava seu
tempo livro para bater perna, conhecer a cidade e dormir.
Nesta
época media 1, 80 m e pesava 53 quilos e era considerada uma promessa a ser
realizada.
Na porta de seu armário
pregou uma foto de sua musa, a esquelética Kathe Moss.
A modelo Ingrid apareceu
em muitos editoriais, capas de revistas, fez vários desfiles para vários
figurinistas e tornou-se conhecida nacionalmente.
Era o mundo da moda,
fashion, a seus pés...
Com o passar dos anos
abandonou o apartamento em que morava com outras meninas e foi morar sozinha na
Rua Bela Cintra.
Era muito namoradeira,
adorava principalmente rapazes endinheirados, que a cobriam de luxos e
aumentavam sua auto-estima.
Viajava constantemente
para o exterior e passou temporadas na Itália, Japão e China.
Moça de família, apesar de
tudo, não se esquecia nunca de enviar uma mesada para a família.
Vivia a volta com regimes
e dietas e quando completou 18 anos começaram seus problemas.
Num final de semana viu-se
envolvida num crime, com a morte de uma modelo, ocorrido em um motel na Barra da
Tijuca, no Rio do Janeiro, no qual foram indiciados modelos, travestis, atores e
políticos, com suspeita de tráfico de drogas e incentivo a prostituição.
Segundo Théo tudo acabara
em pizza por envolver gente muito importante, mas ela precisava ter mais juízo
na cachola.
Meses depois deixou-o
exasperado quando deixou de menstruar três meses consecutivos.
Para felicidade de Théo
não era gravidez, o que a obrigaria, pela sua carreira a fazer um aborto.Mas foi
quando começou a apresentar problemas de saúde com perda rápida de peso, medo
intenso de engordar, obsessão por dietas e contagem de calorias de tudo que
comia, achando-se gorda mesmo estando abaixo do peso, vivendo num entre e sai de
academias de ginástica e se isolando antes, durante e após as refeições.
As últimas pessoas que
mantiveram contato com ela neste curto espaço de tempo disseram que seus belos
olhos azuis estavam marcados por olheiras escuras, o cabelo louro ralo e os
ossos do corpo pareciam querer furar os tecidos que os cobriam.
Ingrid morreu numa
cinzenta manhã paulistana com falência múltipla dos órgãos, vitimada pela
anorexia.
Théo pagou o funeral de
Waleska em Bagé, comprou a maior corbeille que encontrou e acompanhou o enterro
ao lado de sua mãe, de seu pai completamente bêbado, das três irmãs e do irmão.
No trajeto até o cemitério
jogou seu olhar clínico para a irmã mais nova de Waleska.
Ah! Os mesmos olhos azuis
e o mesmo corpo esculpido divinamente...
A todos afirmava que para
Waleska aquele tinha sido seu destino... |