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Adelita morava no Cruzeiro do Sul, um bairro de
classe média. Os vizinhos conheciam a viúva por seu apego aos bens materiais.
Ate mesmo os pedintes contumazes não paravam defronte ao seu portão pois sabiam
que daquela fonte não corria água. E as beatas nada lhe pediam para os trabalhos
paroquiais, reconhecendo que deixara Deus de lado.
Sentava-se defronte a uma velha tevê e se
entregava a uma incessante procura por comida e bebida, que deixava estocadas
numa velha dispensa. Nestes dois itens gastava sem medida. Como no dia que
resolveu fazer um churrasco de avestruz ao molho de uva e vinho do Porto.
Uma vez por mês visitava as duas irmãs que também
moravam na cidade. Olhava com atenção os bens que possuíam, como se encontravam
na vida e como sabiam tricotar muito bem. Até as plantas que vicejavam em seus
jardins lhes chamava à atenção. Admirava com sentimento de que tudo o que
possuía ou fazia era pior.
Desde que Deodato, seu marido, um velho
caminhoneiro morrera num desastre na chegada de João Pessoa, passou a ter um
caso com Carlos, um jovem desocupado. Muitas vezes, ao seu lado, tinha imensos e
descontrolados ataques de raiva e ódio. Qualquer coisa que ele fazia gerava um
sentimento de vingança e pensava em cortar-lhe a garganta.
Mas Adelita era apaixonada pelos prazeres carnais
e gostava de praticar o sexo de forma descontrolada, sempre buscando um prazer
sem limite.
Detestava qualquer forma de trabalho. Sua casa
vivia desarrumada e não se esforçava por melhorar a sua rotina.
Aos domingos descia a avenida principal do bairro
de forma soberba, vestido colorido, pernas perfeitas a mostra, sapatos de salto
alto e queixo empinado. Olhava de viés os moradores que encontrava e ao passar
defronte à Matriz era tomada de um sentimento de que era uma criatura maior do
que o próprio Deus.
Quando colocava a cabeça no travesseiro para
dormir pensava nos seus defeitos e virtudes e achava que o que as pessoas
chamavam de pecados para ela mesma eram apenas seus desejos.
Muitas pessoas achavam que Adelita morreria logo,
mas por mais contraditório que seja, com todos os seus defeitos viveu quase cem
anos.
A vida é mesmo uma caixa de surpresas... |