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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 01 de junho de 2009 20:20:18                                               

 
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COLUNISTAS

Tardes de outono

   

Pedro Coimbra

publicado em 01/06/2009

            Definitivamente não gosto de escrever memórias familiares, mas muitas vezes elas surgem aos borbotões.

            Como meu tio João Pádua, o “Boneco”, casado com a tia Odila, pai do Césio, Érbio e Rutênio, ser flagrado olhando para o alto e dizendo:

            - Não há um céu com um azul tão lindo como o de Lavras!

            Com toda certeza tal afirmação foi feita numa tarde de outono.

Não sou climatologista mas esta esta estação se caracteriza por ser a transição entre o verão e o inverno.

O outono apresenta características de ambas as estações: redução de chuvas, mudanças bruscas no tempo, nevoeiros em algumas regiões e diminuição da umidade do ar.
            Vivessemos no hemisfério norte, uma das características principais desta época seria a mudança da coloração das folhagens das árvores, que passam a apresentar tons amarelados e avermelhados.

Tio João tinha toda razão!

Nestes dias de outono, principalmente nas tardes, parece que a Natureza resolveu perdoar todos os nossos deslizes para com ela e a luminosidade torna-se esfuziante.

Até mesmo as folhagens colocadas na entrada do meu escritório/estúdio apresentam um viço e um esverdeado diferente.

Na madrugada quando trabalho em projetos diversos aparece um frio sêco e cortante que me força a procurar agasalhos.

Uma onda de otimismo envolve as pessoas que invadem a loja do Jeito Caseiro, ao lado de minha casa, a procura de quitandas.

Em grande maioria são donas de casas que vão as compras no final da tarde e bonitas estudantes que pretendem fazer um lanche e conversam abobrinhas sem cessar.

Mas nem tudo é tranquilidade nestes dias amenos.

Refugio-me em minha casa por algum dias com a cabeça borbulhando de criatividade e acabo me esquecendo do resto do Mundo.

E as más notícias começam a bater a minha porta.

Meu amigo de muitos anos, Afonso, filho do Apipe, morreu depois de uma cirurgia mal sucedida, dizem. A história de sua vida daria um livro. O último caso envolvendo seu nome ocorreu ano passado, quando a Mega Sena, em setembro, saiu para a cidade de Lavras e correu o boato que ele fôra o ganhador. Pensei que era um prêmio merecido até verificarmos não ser verdade…

Na minha rua, a rua do Fogo, de problemas cardíacos, o Gibinha, irmão do Ziza e do Agenor, meu contemporâneo do Instituto Gammon, também partiu de uma hora para outra.

Depois a Dona Giovana, mulher do Lito e irmã da Dona Geny. Estudei junto com sua filha Noêmia e conheço a família a longos anos. Desde que mudara para o prédio construído praticamente na frente da minha residência só a vi uma única vez.

No sábado ouvi sirenes e quando saía de carro encontrei com o Resgate do Corpo de Bombeiros na rua Prof. Roberto Coimbra, diante da casa do Geraldinho, o “Gegê”, esportista, filho da Dona Vicentina, membro de uma família de grandes salgadeiros e fornecedor da Padaria Rocha. Sua mulher me disse que tivera dores fortes no peito, mas que estava tudo bem, pois fora caminhando para o socorro. A noite estava morto.

Morreu também o Miltom Ferreira, irmão do Ruy, meu vizinho e parente da minha mulher.Simpatizava muito com ele porque todas as vezes que nos encontravámos  ele gostava de tecer comentários sobre um ou outro texto meu que lera no jornais.

Dona Ruth Naves companheira do meu colega de Academia Lavrense de Letras, Sebastião Naves, mãe da Kátia, da Kênia, da Keila e da Késia também nos deixou, repentinamente.

Também meu ex-colega de Furnas, o Toninho, dono de uma padaria na zona sul da cidade.

São acontecimentos comum na trajetória do ser humano, mas que deixam em nós a sensação de que parte de nossa vida se perdeu.

Procuro me esquecer destes pequenos necrológios.

Resta-me olhar o céu muito azul e admirar a beleza destas tardes de outono…

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