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O feriado prolongado começou prazeroso
trazendo a notícia da chegada do meu filho querido Rodrigo, da Mary e da
netinha Julia que não víamos há um bom tempo.
Na antevéspera de Finados, no
Espaguetão, a rapaziada se atirava literalmente a compra de ingressos para
uma grande festa, denominada “Bebendo o morto” ou coisa semelhante.
Outros tempos. Tudo mudado. Tudo.
Como de costume não visitei os
túmulos de meus ancestrais que guardo sempre na lembrança.
O calor fora do normal e a onda de
pernilongos irritantes nos fragilizam, insones.
No meio da tarde recebo a notícia
que Carlos Renato de Souza, o Nanato, meu primo, um ano mais novo que eu,
morrera subitamente.
Deixou-nos um dos personagens das
minhas estórias, sem delongas e sofrimento para o qual não estaria talhado,
pois a seu modo era um apaixonado pela agitação da vida.
Com sua saída de cena junta-se a
minha prima Hanah que já se foi e restam Rutênio, Érbio e eu, da turminha de
primos que se divertia na infância na esfuziante horta da casa de tio Tullio,
entre mangueiras e jabuticabeiras...
Nunca mais saberemos também até
que ponto era verdade o seu depoimento a revista “O Cruzeiro”, na década de
60, sobre um objeto não identificado avistado por ele e outros companheiros
atiradores nas terras lavrenses...
No mesmo final de semana um jato
executivo desaba sobre a casa de famílias que preparavam-se para o almoço,
em São Paulo, desavisadamente.
E o rosto mumificado de Tutancâmon,
o rei do Egito que morreu com dezenove anos, é pela primeira vez exposto
publicamente.
Eu, que gosto de estudar
diariamente a imortalidade do espírito, e que já passei pela experiência da
quase-morte, me entrego ao pânico diante da existência desta presença
nefasta que é a Morte.
E por entre o odor da citronela
desprendido de uma vela no castiçal sobre o criado-mudo, no quarto de
janelas fechadas, do calor impróprio para o horário e do burburinho do
aparelho de televisão, sinto-me mal.
Seria momento de se lembrar do
poeta Cruz e Souza?
“A música da Morte, a nebulosa, /
estranha, imensa música sombria, /
passa a tremer pela minh'alma e fria /
gela, fica a tremer, maravilhosa...”
Escrever sobre a Morte é agradável
apenas como um exercício de estilo.
Temê-la já e coisa diferente.
Como o pavor que senti
recentemente ao fazer um curto vôo de Belo Horizonte a Porto Seguro. Fui
dormindo e no dia do retorno me vi abruptamente colocado ao lado de um
televisor, rezando junto com um destes pastores eletrônicos que povoam as
madrugadas de domingo, paralisado.
Mas como não temer o pior com
tantos desastres aéreos e rodoviários, a bruxa a solta, como diziam os mais
velhos?
Medito se conseguirei atingir os
oitenta anos bem vividos como meu pai e minha mãe.
Ou serei mais um Tutancâmon,
esperando renascer em outra existência, e que teria medo e desprezo do que
lhe restou do magnífico aspecto material da realeza...
Bom mesmo seria se conseguíssemos
desligar o nosso cérebro tão ativo, que nos difere do restante da criação e
passar ao largo desta experiência avassaladora.
Afinal de contas a vida está aí é
para ser vivida, com todos os problemas e incidentes que criamos.
É preciso que acreditemos no
futuro, seja qual for ele.
E saber sempre que o grande
mistério da vida é a morte...
Neste momento talvez o que disse
Guimarães Rosa seja mais importante do que os versos do poeta simbolista:
“As pessoas não morrem, ficam encantadas”.
É o que almejamos...
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