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Os números
são divergentes: para algumas entidades, o Brasil possue 1.700 livrarias; para
outras, 2.600. Mas, o fato é que, em um país com 180 milhões de habitantes, o
índice “livraria por habitante” é realmente insignificante. E ainda tem mais: as
lojas estão espalhadas por apenas 10% dos municípios brasileiros. A população,
que já não se sente motivada para comprar livros, vê esse fato como uma barreira
e opta por acessar a Internet para ler de tudo, menos livro. O bate-papo é, sem
dúvida, o destino preferido, mas, para a sorte da literatura, um nova tendência
vem surgindo: nos grupos acadêmicos e literários, comenta-se sobre a utilização
do ensino à distância como forma de se incentivar e, até certo ponto, propagar o
gosto pela literatura brasileira. Os defensores desse tipo de ferramenta
argumentam que, ao utilizar a Internet e participar de cursos via web, os alunos
seriam motivados a pesquisar sobre as diversas tendências da escrita e, com
isso, passariam a consumir mais livros.
Na outra frente, os opositores acreditam que a busca por novas obras só ocorre
quando o estudante recebe estímulo dos professores, muitas vezes especializados
em determinados assuntos de nossa literatura. Eu acrescentaria mais alguns
argumentos: assistir um curso de literatura pela Internet é como acompanhar uma
partida de futebol pela televisão. Não tem a menor graça. Diminui-se a emoção de
ver o time entrar em campo, deixa-se de comer hot dog com queijo e mais: o gol
perde grande parte de sua característica, sentido e cor.
A literatura, assim como o esporte mais popular do Brasil, é feita de momentos.
O lance é único, o gesto merece ser contemplado por minutos e o drible precisa
ser eternizado com uma fotografia marcante. Todos esses sentimentos,
infelizmente, não podem ser captados em uma aula pela Internet. Vamos a um
exemplo: quando meu professor de literatura do ginásio recitava Drummond de
Andrade, eu percebia emoção em seus olhos. Se esse mesmo profissional lesse o
mesmo poema em uma aula virtual, eu, rapidamente, sentiria uma perda de
credibilidade e sustância. O ao vivo é sempre melhor! Nesse debate presencial
versus virtual, outros argumentos também precisam ser destacados. Em uma aula
cara-a-cara, os alunos podem, por exemplo, tirar dúvidas, apontar questionamento
e, até mesmo, apresentar composições próprias, dos mais diversos estilos
literários. Além disso, o professor direciona as explanações de acordo com as
necessidades dos estudantes. Esses motivos tornam, portanto, o ensino à
distância, até o presente momento, uma ferramenta desnecessária para a nossa
literatura. Precisamos, então, valorizar as aulas presenciais, ensinando os
alunos a respeitarem os professores, investindo no conhecimento intelectual
desses profissionais e, principalmente, possibilitando o surgimento de centros
de pesquisa literários. Difundir a literatura é investir em educação,
conhecimento e cultura.
E o governo e a iniciativa privada parecem que acordaram e estão, ao menos,
tentando fazer algo. Pode-se dizer a que a educação brasileira, que andava na
beira do abismo, agora tem, então, chances de se recuperar e de impulsionar um
aumento dos livros lidos. Algumas iniciativas de organizações privadas vem sendo
colocadas em prática e o governo, sempre omisso a quaisquer programas
promissores, nos apresentou, não faz muito tempo, algo bem desenhado: o Plano de
Desenvolvimento da Educação. No papel, essa ação reservava R$ 1 bilhão para
investimentos nos municípios com piores indicadores organizacionais, além de uma
premiação para as escolas públicas que melhorarem os seus índices educacionais.
Esse Plano estabelecia também algumas mudanças nas universidades federais, com o
intuito de aumentar a quantidade de vagas oferecidas.
Quando apresentaram o plano, disseram assim:: "vejo o início do novo século da
educação no Brasil. Um século capaz de assegurar a primazia do talento sobre a
origem social". Lindas palavras, ótimas medidas. No papel e na prosa, na vida
real e virtual, nas escolas e na Internet, estamos orgulhosos e até contentes.
Mas, nas ações. Bem... Só nos resta torcer e de mãos dadas por mudanças,
realmente, significativas e eficazes. Que venham logo e rápido! |