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Tom Coelho |
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publicado em
25/04/2008 |
O papel do líder não é conquistar poder, mas tornar os
outros poderosos. Permitir aos seus colaboradores que se
transformem num novo tipo de ser, migrando do individual
para o coletivo, de um ser isolado para um ser conectado.
Entre uma orquestra e outra, os instrumentos são os mesmos,
mas os músicos não. Por isso algumas melodias falam mais
alto ao coração.
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Num ano de Olimpíadas, prepare-se para uma overdose de artigos,
debates e ensaios lastreados em temas esportivos. As empresas
acreditam-se modernas, atuais, antenadas com o momento ao optarem
por atletas, técnicos, comentaristas e toda sorte de profissionais –
ou ex-profissionais – vinculados ao esporte como a solução mágica
para questões do mundo corporativo.
É inegável que podemos encontrar no desporto grandes metáforas à
realidade de empresas e profissionais. Assim, Ayrton Senna era
exemplo de excelência; Robinho, sinônimo de ousadia; Oscar Schimidt,
ícone da obstinação; Pelé, referência em marketing pessoal. As
corporações também podem alcançar inspiração nas lições de
gerenciamento e liderança legadas por Vince Lombardi (ex-técnico de
futebol americano) ou, mais recentemente, Bernardinho, coach da
vitoriosa equipe de vôlei masculino do Brasil, dentre tantos outros
exemplos.
Embevecidos que ficamos com as fascinantes conquistas perpetradas
pelos atletas, diante de sua superação e espírito de cooperação que
envolve e transforma uma equipe, deixamos de notar que a realidade
do universo empresarial é evidentemente distinta, muito mais
complexa, de modo que muitas lições apenas não são aplicáveis e
ponto.
Nos esportes, há regras claras e um ou mais juízes preparados para
emitir um parecer instantâneo, ainda que por vezes inidôneo. Já o
mercado insiste em burlar leis, romper contratos, ignorar regras. E
a justiça, por sua vez, tem braços largos, porém lentos; olhos
abertos, porém vendados.
Foi dentro deste contexto que encontrei uma metáfora mais adequada
para argüir sobre liderança empresarial. Ela advém de uma outra
arte: a música.
Observe uma orquestra. Seja ela uma orquestra de câmara (formada por
poucos membros), uma sinfônica (mantida por uma instituição pública)
ou filarmônica (sustentada por recursos privados), é constituída por
diversos músicos e variados instrumentos, divididos em quatro
grandes grupos: cordas, madeiras, metais e percussão, cada qual
produzindo isoladamente um som característico.
Enquanto num esporte coletivo a equipe pode alcançar a vitória
graças a um lampejo de genialidade ou sorte de um único atleta,
mesmo com uma atuação medíocre em toda a partida, numa orquestra
todos contribuem com o êxito do resultado final. Por isso, o produto
que entregam é uma “sinfonia”, ou seja, todos emitindo o mesmo som.
Este objetivo é alcançado através da mediação de um personagem em
particular. Trata-se do maestro, aquele mesmo que permanece em
destaque durante a apresentação, tem sua foto estampada na capa de
CD’s e DVD’s, profere palestras e concede entrevistas, mas que
curiosamente é o único músico que não emite um único som.
Aprendi com Benjamin Zander, regente da Orquestra Filarmônica de
Boston desde sua fundação, em 1979, que o papel do líder não é
conquistar poder, mas tornar os outros poderosos. Permitir aos seus
colaboradores que se transformem num novo tipo de ser, migrando do
individual para o coletivo, de um ser isolado para um ser conectado.
No vídeo “A Arte da Possibilidade”, distribuído com exclusividade no
Brasil pela Siamar, Zander compartilha suas experiências,
instruindo-nos que um regente é um arquiteto das possibilidades do
grupo. Sua missão é explorar estas possibilidades, mergulhando no
âmago de cada membro de sua orquestra com o intuito de desvendá-los,
ou seja, remover-lhes a venda que encobre o talento e o potencial de
cada músico.
Costumo dizer que o líder é aquele capaz de conduzir as pessoas
juntas e em direção a uma mesma visão, levando-as até onde não iriam
se estivessem sozinhas. Ele vislumbra qualidades extraordinárias em
pessoas comuns, potencializando-as, permitindo-lhes oferecer ao
mundo o que têm de melhor. Não se trata de persuasão, mas de
inspiração. Inspiração que nutre o entusiasmo, estimula a
criatividade e promove a excelência.
Seguro de que todos podem fazer a diferença, Ben Zander estabeleceu
um interessante critério para motivar seus pares. Ele sempre confere
a nota máxima em uma audição preliminar, exatamente quando o músico
está mais sensível e inseguro. Depois, solicita a cada músico que
lhe escreva uma carta justificando como fará para merecer tal
avaliação ao final de um semestre. O propósito é dar ao profissional
uma dimensão de suas possibilidades de realizar e não a mera
expectativa de alcançar. Afinal, é preciso fazer silenciar aquela
voz na cabeça que em situações críticas procura nos constranger e
apequenar, sentenciando: “Você não vai conseguir!”.
Analogamente, muitas são as oportunidades no cotidiano das empresas
para valorizar e elevar seus colaboradores. Porém, não raro
continuamos a testemunhar líderes que criticam em público e elogiam
em particular, quando deveriam fazer o inverso. Líderes que ocultam
os acertos e expõem os erros – jamais os próprios. Cultivam o “não”,
afastando o “sim” do mapa de possibilidades.
Entre uma orquestra e outra, os instrumentos são os mesmos, mas os
músicos não. Por isso algumas melodias falam mais alto ao coração.
É preciso compartilhar a visão, cultivar o brilho nos olhos,
promover o relacionamento. Liderar não é verbo intransitivo. Se o
líder está sozinho, ele não está liderando ninguém.
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