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Comportamento |
Ano I - Nº10 - janeiro de 2001 |
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Culturas externas & Culturas internas Paulo de Abreu Lima Folheando
um Manual de Negociação Internacional ocorreu-me uma reflexão acerca de
diferenças culturais. O Manual fornece dicas para pessoas que farão
contatos de trabalho com pessoas de outros países e outras culturais.
Indica cuidados com o uso da língua, alimentação, tratamento e atitudes
em relação a valores locais. O interessante é o alerta sobre o universo e
a diversidade de aspectos de cada país e cada povo. Em países da Europa,
por exemplo, o aperto de mão é indicado no cumprimento; na China, por
outro lado, é indicada uma rápida inclinação com a cabeça. Em países
como Austrália, convém ser mais informal, ao contrário da India, onde
convém ser mais informal e reservado. É
compreensível tais diferenças por tratar-se de povos e culturas que
desenvolveram traços próprios ao longo de suas histórias. Tão mais
compreensível, portanto, é a importância do respeito que um estrangeiro
deve dispensar num contato inicial e não íntimo. No
Brasil temos, também, uma diversidade muito grande de culturas distintas. A
divisão geopolítica das regiões quase que define tais diferenças. O
norte tem características distintas do nordeste, que tem traços distintas
do sudeste e assim por diante. Se estreitarmos mais a análise observaremos
que dentro de um mesmo estado ou cidade também existem diferenças
marcantes. A
cidade de São Paulo, por exemplo, apesar de inserida num contexto cultural
brasileiro com características muito próprias, tem uma antropologia
peculiar muito rica e diversificada de costumes e valores. No caso de São
Paulo estas diferenças estão muito associadas não só às origens
culturais e étnicas mas também ao poder econômico. A distribuição de
renda em São Paulo, como em todo Brasil é muito desigual criando camadas
sociais muito diferentes. O poder aquisitivo muito diferenciado acaba
criando oportunidades e tipos de aspirações muito distintas nas diversas
classes sociais. O poder de consumo define com certa clareza o poder de
acesso a serviços e bens e evolução social. Um exemplo clássico é o
caso dos jovens pré-universitários que têm que trabalhar para o sustento
da família e não tem condição de investimento na formação acadêmica em
escolas de 1ª linha (apenas nas quais se pode encontrar determinados
cursos) e no aprendizado de uma segunda língua (a fluência do inglês,
hoje, é um nítido diferencial competitivo no mercado). As condições de
acesso e desenvolvimento propiciam um determinado grau de aspiração e também
um conjunto de valores; estes valores são expressos em manifestações
musicais, religiosas, vestimenta, etc. Tudo isso, no fundo, é a distinção
entre cultura popular e erudita, sendo esta última muito associada à parte
da população de maior poder aquisitivo. A
questão que se destaca, a meu ver, é o distanciamento de culturas
distintas; distanciamento decorrente das diferenças sociais. Não há dúvida
que este quadro existe desde que o mundo é mundo. Acontece que tais diferenças,
especialmente em grandes cidade como São Paulo são, às vezes, alarmantes,
o que torna o quadro social de oportunidades também alarmantes. A discussão
acerca destas diferenças de oportunidades sugere uma questão importante: o
desenvolvimento de competências no universo social e do trabalho. O quanto
é do indivíduo? O quanto é do poder público? Com certeza não é só do
poder público. O indivíduo é responsável por sua busca pessoal levando
em conta suas características pessoais e seu esforço. É claro que o
contexto social (inclui-se o escolar), familiar e afetivo contribuem muito
para o caminho a ser desenvolvido. Por outro lado, os cenários sócio-econômicos
e de políticas públicas são um fator decisivo, também, para a definição
de caminhos possíveis (no exemplo mencionado, a necessidade de trabalhar
para ajudar no sustento da própria família dificulta o ingresso em
universidade pública). A nossa ética social (princípios e valores que
norteiam o comportamento das pessoas na aquisição do saber e status),
visivelmente maniqueísta, contribui muito para a definição destas políticas
públicas, ou seja, o que interessa e para quem. Acho que podemos chamar
isto de vontade política; não só do governo, mas de toda a sociedade. Não deve haver uniformidade de valores culturais. Cada povo é um povo e tem seus próprios traços, seja em países distantes e muito diferentes, seja dentro da nossa própria cidade. A questão maior é a busca de convivência e respeito destas diferenças e o sonho de se alcançar uma sociedade onde as oportunidades sejam efetivas e verdadeiras. Paulo
de Abreu Lima é psicólogo
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