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Comportamento |
Ano I - Nº12 - março de 2001 |
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Covas Morreu no dia 6
de março, às 5h30, o governador paulista Mário Covas. Ele estava com 70
anos e tinha dois filhos e quatro netos com a A exemplo do
amigo e correligionário Sérgio Motta, que morreu em 1998 depois de um
longo período entrando e saindo de hospitais, Covas nunca se furtou a
criticar as atitudes do igualmente amigo Fernando Henrique Cardoso à frente
da Presidência da República. Também como Serjão, Covas resistiu o quanto
pôde à doença que lhe tirou a vida, trabalhando até o limite de suas forças.
Depois de
eleger-se governador em 1994 com 8.661.960 votos, em 1998 Covas quase perdeu
a vaga no segundo turno para a petista Marta Suplicy. Dois anos depois,
anunciou publicamente que adiaria uma cirurgia para dar seu voto à hoje
prefeita Marta, que disputava a vaga com Paulo Maluf (PPB), um histórico
desafeto político. Não foi a primeira nem a última atitude de Covas que
causou comoção. Personalidade
marcante - Uma das marcas do governador era ser amado e odiado praticamente
com a mesma intensidade. Em 1999, Covas ganhou destaque na imprensa ao
enfrentar diretamente professores grevistas que bloqueavam a entrada da
Secretaria Estadual de Educação. Na mesma época, bateu boca com
estudantes que atiravam ovos contra ele e seus assessores. A atitude dividiu
opiniões. Mas Covas, sem fazer jus à fama de indeciso dos tucanos da política,
mais uma vez marcou posição. Covas e a política 1961
- Disputa a eleição para a prefeitura de Santos com o apoio do então
presidente da República, Jânio Quadros. 1962
- Aos 32 anos, é eleito deputado federal pelo Partido Social Trabalhista (PST)
1963
- É escolhido vice-líder do
PST na Câmara 1964
- Na eleição indireta para presidente da República depois do golpe
militar, Covas vota no marechal Juarez Távora, que não concorria ao cargo.
No mesmo ano, torna-se líder de seu partido 1965
- Com a instauração do
bipartidarismo, Covas filia-se ao MDB 1966
- É reeleito deputado federal 1967
- Torna-se líder do MDB na Câmara
1968
- É preso pelo Exército dias depois da decretação do Ato Institucional nº
5, o AI-5, em 13 de dezembro, e solto na véspera do Natal 1969
- Em janeiro, Covas tem seu
mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos. Em março,
passa dez dias preso em São Paulo, num quartel da Aeronáutica 1975
a 1979 - Trabalha na iniciativa
privada com gerenciamento de projetos enquanto não recupera seus direitos
políticos 1978
- Inelegível, coordena a
campanha do amigo Fernando Henrique Cardoso ao Senado 1979
- A Anistia devolve-lhe os
direitos políticos. Com a volta do pluripartidarismo, ingressa no PMDB 1982
- É eleito pela terceira vez deputado federal por São Paulo 1983
- Ocupa o cargo de secretário
estadual dos Transportes no governo Franco Montoro por dois meses, até ser
nomeado prefeito de São Paulo pelo governador 1984
- Destaca-se como um dos
principais líderes da campanha pelas Diretas 1986
- No mesmo ano em que sofre seu
primeiro enfarte, é eleito senador com mais de sete milhões de votos 1988
- Em junho, renuncia à liderança
do PMDB na Constituinte e, ajuda a fundar o PSDB 1989
- Fica em quarto lugar no
primeiro turno das primeiras eleições diretas para a Presidência da República
desde 1961 1990
- É derrotado por Luiz Antônio
Fleury Filho, do PMDB, na eleição para o governo do Estado 1994
- Em março,
Covas é internado no Instituto do Coração (Incor) devido a uma erisipela
na perna direita. Meses depois, é eleito governador de São Paulo ainda no
primeiro turno 1996
- Demite os secretários do PFL que faziam parte de seu governo depois de o
partido optar pelo apoio a Celso Pitta (PPB) nas eleições municipais da
capital paulista 1997
- Em setembro, anuncia que não pretende disputar a reeleição ao governo
do Estado 1998
- Em março, volta atrás e decide concorrer a um novo mandato no Palácio
dos Bandeirantes. No segundo turno, das eleições, vence com facilidade o
adversário do PPB, Paulo Maluf. Em dezembro, já reeleito, é substituído
pelo vice, Geraldo Alckmin, durante o período de recuperação da cirurgia
para a retirada de um tumor benigno na próstata. Na mesma intervenção é
detectado um câncer na bexiga, que é retirada 1999
- Covas só toma posse no dia 10 de janeiro, com o fim de sua licença médica
2000 2001
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Uma outra visão... Morre um ícone do neoliberalismo brasileiro Mário
Covas, líder do MDB, fundador do PMDB e do PSDB foi um político liberal,
que durante os anos da ditadura militar se opôs a esse regime, sendo
linha de frente da oposição burguesa. Nesse período, o projeto das
classes dominantes era de cunho nacional-desenvolvimentista, e Covas tinha
identidade com ele. Nunca foi, contudo, um reformista radical ou um
defensor de reformas sociais no capitalismo. Em
1983, Covas foi nomeado prefeito biônico da capital de São Paulo, pelo
então governador peemedebista Franco Montoro. Eleito
deputado constituinte em 1986, Covas teve atuação destacada liderando
seu partido, e, de fato, foi importante para garantir a efetivação de
alguns direitos sociais na Constituição. Mas, não rasguemos a história:
Covas foi constituinte nota 5,5 - atribuída pelo DIAP - votando contra
algumas reivindicações históricas dos trabalhadores. Em
1988, Covas lidera a fundação do PSDB, pretensamente para romper com as
práticas do populismo desenvolvimentista e corrupto de Quércia, que
hegemonizava o PMDB, desfraldando a bandeira da social-democracia, da ética,
do parlamentarismo e das reformas sociais. Não
demorou muito para o PSDB cumprir seu verdadeiro papel histórico no
Brasil: o partido 'novo', que conseguiu galvanizar as elites e as classes
médias urbanas com um discurso modernizador e com uma imagem desvinculada
das oligarquias tradicionais, vindo a se tornar o principal responsável
pela devastação neoliberal na década de 1990. Nessa
transição foi importante a campanha presidencial de 1989. Covas era o
melhor, o mais 'confiável' candidato do ponto de vista da burguesia, mas
por diversas razões, acabou não emplacando. Durante um certo momento na
campanha, Covas chegou a ultrapassar o liberal de carteirinha Afif
Domingos e ameaçou se tornar um candidato com chance para ir ao segundo
turno, o que acabou não ocorrendo. A frase mais forte dita por Covas na
campanha de 1989 - sua síntese programática - foi a seguinte: " O
Brasil precisa de um choque de capitalismo". No
segundo turno, o impasse: o PSDB levou quase um mês para vir apoiar Lula,
e mesmo assim, só o fez porque apoiar Collor teria um custo político
enorme. Covas só subiu no palanque petista nos dois últimos comícios da
campanha. (Pesquisas feitas depois, mostraram que o eleitorado tucano se
dividiu mais ou menos ao meio: metade votou em Collor, metade em Lula.) Durante
o governo Collor, o PSDB foi a "noiva" mais requisitada da política
nacional. A maioria do PT se esforçava para, a todo o momento, fazer
alianças com os tucanos e atestar seu caráter progressista, ignorando,
por exemplo, o apoio do partido à política privatista do governo
federal. Por outro lado, Collor, com a crise de seu governo aumentando,
precisava do charme do PSDB para trazer credibilidade ao seu ministério.
Desde o início do governo Collor, Fernando Henrique (então senador, e
longe de se tornar FHC) operava para terminar sua carreira com glórias,
viajando pelo mundo (como faz agora): queria ser chanceler de Collor. No
famoso episódio da "quase-entrada" dos tucanos no governo
collorido, realmente Mário Covas teve um papel fundamental. Contra a
maioria dos próceres tucanos (Fernando Henrique, Tasso e Pimenta da Veiga
à frente), Covas jogou todo o seu prestígio para impedir que o PSDB
fizesse essa bobagem. Homem de partido, com visão política mais acurada
e pretensões maiores, Covas entendeu que se o PSDB viesse a entrar
naquele governo, suas chances futuras de vir a ser poder no Brasil seriam
ínfimas. Ironia do destino: o pusilânime Fernando Henrique deve suas
duas presidências a essa atitude de Covas. Eleito
governador em 1994 - com o decisivo e equivocado apoio do PT no segundo
turno - Covas tratou de desfazer as ilusões daqueles que pensavam ser ele
um político de centro ou de centro-esquerda. Seu primeiro governo foi
exemplar na aplicação rígida, extremamente ortodoxa, do receituário
fiscalista neoliberal. Privatizações, concessões de estradas,
sucateamento do serviço público, desmonte da educação, caos na saúde,
pedágios selvagens. São Paulo se livrou do projeto desenvolvimentista
burguês e corrupto do quercismo e entrou a pleno vapor na era o
neoliberal. Não
é casual o fato de Covas ser um dos políticos mais badalados pela
imprensa, a ponto de ter uma imagem pública tão positiva: ele foi um
fiel seguidor do 'pensamento único', defensor dos interesses do grande
capital. O fato mais paradigmático do governo Covas foi a entrega, no
final do ano passado, do Banespa aos banqueiros do Santander, depois de
anos de uma intervenção consentida do Banco Central que aumentou a dívida
do Banco em 212%. E
a propalada ética de Covas também é outro mito construído com a ajuda
da grande imprensa e, infelizmente, de setores da esquerda. Vários escândalos
ocorreram nos dois governos Covas e foram parar debaixo do tapete. O caso
mais célebre foram as irregularidades descobertas no CDHU, cujo
ex-presidente, Gora Hana, chegou a ser apelidado de Goro Grana. Esse mesmo
escândalo atingiu o filho de Covas, o Zuzinha, amigo assumido do
"Grana", e do dono da empresa Tejofran, beneficiada por
contratos generosos do governo Covas. Isso para não falar nas concessões
indevidas das estradas estaduais que beneficiaram empresas privadas e
envolvem inclusive o atual governador Geraldo Alckmin. Ou das supeitas
privatizações das hidrelétricas. E por aí vai.. Em
1998, Covas tirou o PT do segundo turno com a ajuda do Ibope, da Rede
Globo, e outros. Sua vitória sobre Maluf se deveu ao apoio petista. No
entanto, essa aproximação não se refletiu em nenhuma reorientação política
no seu segundo governo, que foi ainda mais privatista e autoritário do
que o primeiro. As marcas deste segundo governo são a crise da Febem, o
recrudescimento da repressão e da violência e a crise no sistema
penitenciário. A
contradição dos petistas que tecem loas a Covas fica mais evidente se
lembrarmos todos os embates do ano 2000, em especial a chamada
"batalha da Paulista", onde a PM de Covas reprimiu professores e
manifestantes duramente. Ou então, as sucessivas desocupações violentas
de terrenos em que a PM foi algoz de trabalhadores e excluídos. Nos últimos
meses, não havia uma única cidade visitada por Covas na qual não
acontecessem manifestações dos professores e funcionários públicos. E,
em todas elas, Covas foi virulento, intolerante, arrogante, autoritário e
reagiu de maneira destemperada (a destruição de parte do acampamento dos
professores grevistas na Praça da República não é episódio menor). Por
fim, se tivesse sobrevivido ao câncer, Covas seria uma peça importante
no rearranjo da coalizão conservadora e na sustentação de uma
candidatura tucana em 2002 (Tasso Jereissati?) que tivesse força o
suficiente para vencer as eleições e continuar a aplicação da política
neoliberal. Por
isso tudo, em 6 de março de 2001, o Brasil perdeu um importante líder
político de direita. E, a esquerda, um adversário perigoso. Julian Rodrigues é militante PT-SP (Linha Aberta) Leia a resposta de Ozeas Duarte, secretário nacional de cominicação do PT |