Memória

Ano I - Nº 3 Junho de 2000



O ostra e a pérola fina (Segunda parte)

Hamilton Barbosa

Eu, que também sou eu e as minhas circunstâncias. – no caso não importa a qual estou me referindo -, viví a experiência do isolamento. E , ao sair dela, forjei uma frase: "A justiça é uma prerrogativa dos poderosos; os fracos estão condenados a conviver com a injustiça..." Clifford Beers, pg. 150, cap.233). Você meu caro não conviveu com ela desde os 45, mas viveu-a na essência. E ao resistir fez-se grande, forjou-se, ao que eu tomo a liberdade de defini-lo, como o primeiro Estadista Mundial. Me deixa feliz, em qualquer circunstâncias, a sua visita, por que você, o símbolo mundial da liberdade contemporânea, é negro. Eu também sou negro e o fato de você simbolizar aquilo, mostra-me que um dia poderei Ter aquilo que, no Brasil fomos privados, sempre, desde os nossos primeiros antepassados, de conhecer: a liberdade....

Você também foi, até mais que todos nós. Mas se mantém equilibrado, ao menos aparentemente. E não importa a cara, a cor, a cultura ou a tradição nacional de quem o olhar. Ele sempre vai concluir: este homem sim, ama a liberdade. E todos nós a amamos, nem um pouco a menos que você, principalmente quando se trata de nós mesmos e da nossa própria liberdade. Mas a impressão que temos, todos os seres vivos e racionais, principalmente os que conhecem as circunstâncias internas e pessoais do racismo, depois as do isolamento, e fundamentalmente as de prisão – o que te confesso, desconheço – é que a sua lhe custou mais caro. As contas demonstram-no: aos 30 você entrava no que muitos chamam de a idade de ouro; fez 40, que muitos dizem que é o segundo nascimento, e foi para a cadeia quando eu fiz dez. Enfim...meu filho caçula tinha cinco anos quando você saiu da prisão.

A sua liberdade, meu caro, parece-nos – o que, de fato, para você pode ser até frustrante quando avalia o que já perdeu e jamais lhe será devolvido – dar mais tesão. E você continua casado... É fantástico! Eu queria – não da forma que você chegou a ela – ter esta liberdade. Ela é grande. É grandiosa...

Eu lhe escrevi porque, separado por fronteiras lingüísticas e protocolares, além das necessidades nacionais dos povos e dos governantes dos nossos dois países, não poderemos conversar. Eu gostaria, mas a imprensa e os meios de comunicação do meu país não me ajudam a conhecer mais o seu, - o modo de vida, etc. e etc. – e lhe falar do meu, que o convidou oficialmente para nos visitar. Sei que não lhe falaram das ostras daqui. Principalmente porque não há nenhuma vivendo presa porque sistematizou, como os seus compatriotas da África do Sul, ideologicamente, o protesto contra a dominação racial. Ao contrário: o que não vão lhe dizer, - com menor cinismo porque nós modificamos, ainda que pouco, a situação por aqui e o governo racista da África do Sul se inspira em meu país para manter a dominação dos de lá, no seu país, - eu digo. Ou melhor: escrevo-lhe. É o que sei fazer...

Aliás, coisa rara por aqui. Eles ficam estupefatos quando vêm um de meus compatriotas, negros como nós, escrevendo. Mas somos muitos os que escrevem, inclusive poemas, alguns parecidos ou inspirados nos que foram produzidos durante e para fortalecer as lutas libertação da África ex-portuguesa. Existem ainda muitos outros repórteres, - mais jornalistas e, - bem melhores, no sentido da qualidade técnica e intelectual, que eu. Uma repórter de TV, a Glória Maria, mais preta que nós e , naturalmente muito mais simpática, porque além de tudo é belíssima, em revista recentemente publicada em revista especializada, de um amigo meu, que em 78 fez um documentário para a TV sobre a nossa família negra falando do racismo no Brasil, ela aparece como repórter de TV, a telerepórter que desperta maior simpatia e confiança no público. Mas na imprensa cotidiana, acessível ao público comum, o fato foi irrelevante quanto uma doméstica que até os 25 anos trabalhou por salários miseráveis (como a minha mãe) e, ao contrário da minha mãe que é uma eterna honesta, ela começou a roubar a patroa. Foi presa como falsa doméstica.

 A verdade é que eles não acreditam que sabemos escrever, e pensar, e muitas vezes passam durante toda a vida querendo nos ensinar a fazer tudo – o que seria muito bom se fosse mera generosidade deles, mas não é. Eles partem do princípio que nós não sabemos fazer nada, nunca fizemos nem tivemos sequer civilizações ancestrais – omitem e matam os seus avós, meu caro – e só reconhecem o que fazemos quando o imitamos. Talvez por isto tenham dado o apelido de "Macacos", o que aliás serviu para a identificação, histórica até, de uma das capitais das experiências, talvez a maior de lutas de liberdade e anti-colonial do Brasil. Mas no passado eles a desqualificaram hoje tentam ignorá-la, e só a duras penas vamos reconquistando, inclusive a nossa história – o que, suponho, é similar a um dos problemas inventados para vocês. Desenterremos o nosso passado e a nossa história. Quero exibi-las.

O meu amigo Prioli, Gabriel, daquela revista que falou da Glória Maria, fez algo interessante. Colocou, na mesma edição, uma entrevista com o Bernard Shaw, Shaw para eles, (da CNN, que cobriu a guerra e a humilhação do Iraque). Ele, fala basicamente sobre jornalismo e, como a Glória Maria, priva-se de falar sobre o assunto raça, por razões táticas naturalmente, porque somos obrigados a ignorar a nossa cor e suprimir os sentimentos de solidariedade raciais se quisermos viver. É nisto, aliás, que se baseia um ditado muito comum entre nós: o inimigo do negro é o próprio negro... Nós o repetimos num sentido muito familiar, mas eles utilizam-no para justificar, inclusive os conflitos étnicos entre africanos da África do Sul. Enquanto a esquerda brasileira acha que os bascos lutam, "erroneamente", - dizem, por libertação nacional, como os irlandeses na Inglaterra, ela mesma, a esquerda qualifica de guerras tribais o que ocorre na África do Sul. Quando se referem ao apartheid dizem que aí trata-se de uma "incivilização" de brancos retrógrados. Ou falta de generosidade. Dizem, por exemplo que o racismo no Brasil "foi mais suave porque os portugueses eram católicos". Até parece que não entendem de economia ou geopolítica e da geopolítica do desenvolvimento recente, dos últimos séculos da humanidade.

Você e outros do continente – meu de origem, - não sabem disso e de muitas outras coisas – (alguns sabem, tenho certeza!) – porque estivemos isolados – muito isolados. Na década de 40 um sociólogo negro, Artur Ramos, que escreveu sobre o Brasil, e pouco sobre raça, disse que contra os negros, existe no Brasil, uma CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO... Bem, a sua visita muda, e talvez reverta, o quadro. Com você reatamos, após séculos, os laços com alguém que tem o poder e autoridade real no continente africano.

Nós, os negros do Brasil fomos involuídos e – em termos de conhecimento ou compromisso da África, e como eles conhecem a Europa – estamos na idade da Pedra. Por isto, se é correto o que James Baldwin dizia sobre os EUA, que todo branco tem um negro e todo negro tem o seu branco e, por isto, somos desigualmente subdesenvolvidos, não se assuste se um de nós se referir a você como chefe, outros como rei, e ainda como Presidente ou estadista mundial. Nunca estivemos, nem perto do poder e, por aqui, com raras exceções, não sabemos sequer como funciona e o que exatamente é o poder...Avalie, e julgue-nos por sua recepção.

Mas o que mais me emociona em sua visita, mais que pelo símbolo que você é, - e eu espero tocá-lo e até ser fotografado ao seu lado, meus filhos vão ficar honrados – é que ele já vinha sendo preparado no inconsciente coletivo. Na minha infância dancei um samba, e cantei, chamado Festa para um Rei Negro e agora que não posso dançar muito, outra música, que eu diria é da Nova Consciência Negra, diz que " O negro coloca a mão na cabeça e chora. E chora a falta do rei..."

Bem... durante alguns dias, enquanto você estiver aqui não vamos chorar; vamos rir e gargalhar, dançar, mas depois quando você se for vou me lembrar do surgimento em seu país, quando você estava já há uma década e quase meia na cadeia, do Movimento da Consciência Negra que surgiu em seu país, onde Steve Biko dizia à todos os negros da África do Sul: NEGRO:VOCÊ ESTÁ POR CONTA PRÓPRIA... (Um espírito que se achou a si mesmo. Cliford W. Beers. Cia Ed. Naciona, 1967). É assim que estamos, e vamos continuar com a sua ausência, no Brasil.

Vamos cantar só aquela música e colocar a mão na cabeça. Seremos só Consciência. Nós queremos ser mais concretos. Duros, talvez... Mas, repetindo alguém: o que fazer?

E você sabe como os negros dançam: colocam as mãos na cabeça também, mas soltam-na e ao corpo. É um prazer todo especial que só os animais da África e das lembranças permanentes da liberdade que eles e, exercem correndo no meio da mata, ensinam a exercitar. O problema, e a vantagem, não nossos, são deles. É que dizem que temos a memória curta...

Mas acredito, e penso que todos acreditamos, que o ideal é comemorar, antes e durante, pelo menos, a sua passagem no Brasil. Eu tenho lido alguma literatura kardecista, uma forma de sofisticar e tronar mais deglutível os meus comentários à respeito das nossas tradições – a minha família tem muito macumbeiros e pensa como macumbeiros -, e eles, os kardecistas, originariamente franceses, dizem que a vida é uma passagem pelo planeta. E nós os descendentes de africanos, ou originários, somos os purificadores do planeta...

Sei lá. O problema é como esta purificação de um planeta inteiro, por nossa conta, ocorre. Ela nos custou muito caro, alguns milhões de companheiros...

O pior, meu caro, é que a maioria deles, ao contrário da África do Sul, onde um dos auge da luta política, inclusive, ocorre nos funerais dos injustiçados, no Brasil eles ficam jogados pelas ruas. Este país, se você passar pela Baixada Fluminense talvez possa ver, é um verdadeiro cemitério de negros. O governador do Rio de Janeiro, Leonel Brisola, disse que denunciará os assassinatos em massa de negros, no estado dele, durante o encontro mundial para a preservação do meio ambiente que se realizará em 92, mas até agora não tomou a iniciativa de construir, lá, um cemitério dos injustiçados. Esta, talvez seja uma forma de marcar a memória das populações de todo o planeta que, desde então saberão que não podem matar milhares ou milhões de negros anualmente para que os cadáveres fiquem nas ruas pelas cidades de todo o país. Saberão que não cabem todos naquele cemitério que a seguir a lógica tradicional, o país é ou será um cemitério de negros.

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Futebol

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A morte do ex-jogador Domingos da Guia entristece mais um pouco o futebol brasileiro. Com ele, vai um passado de muita técnica e glória para o futebol. Domingos da Guia, apelidado de "O Divino Mestre", foi um dos maiores zagueiros que o Brasil já teve nacional.

O Divino Mestre do futebol dá seu adeus

Morreu no dia 18 de maio, pela manhã, o ex-jogador da Seleção Brasileira Domingos da Guia, que estava internado no Hospital Quarto Centenário, em Santa Teresa, no Centro do Rio de Janeiro. Da Guia estava internado desde o dia 6 de maio, por ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC), morreu às 6h, aos 84 anos.

Domingos da Guia tinha 87 anos - nascido no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1912, o craque da década de 30 tinha como uma das suas marcas registradas roubara bola de seus adversários com dribles ousados e elegantes.

Pai de Ademir da Guia, um dos maiores jogadores da história do Palmeiras, apelidado de "o divino", Ademir foi a extensão do futebol de seu pai, que marcou época no futebol nacional. Raro caso de pai craque com filho craque.

Domingos vivia no Rio de Janeiro. Nesta cidade, ele começou sua carreira no Bangu. Passou pelo Flamengo, pelo Vasco, pelo Nacional de Montevidéu e pelo Boca Juniors. Com a camisa da Seleção Brasileira, jogou 30 partidas e disputou a Copa do Mundo de 1934, na Itália. Vários ex-companheiros de Domingos da Guia compareceram ao velório. Um deles foi o vice-campeão mundial, em 1950, Jair da Rosa Pinto. Emocionado, lembrou a falta que o Divino fez na famosa decisão contra o Uruguai. "Ele tinha 37 anos naquela época, mas ainda podia ter ido. Fez muita falta. A experiência dele nos fez muita falta." O Divino, com certeza, vai deixar saudade. retranca Uma carreira de muito sucesso Domingos da Guia foi um dos maiores zagueiros da história do futebol brasileiro. Ganhou dos uruguaios o apelido de "Divino Mestre", quando era uma das estrelas do poderoso time do Nacional de Montevidéu. Vem daí o apelido de "Divino" para seu filho Ademir da Guia, um dos maiores ídolos do Palmeiras em todos os tempo. O auge de sua carreira aconteceu entre os anos 30 e 40, e foi uma das poucas unanimidades no mundo da bola.

Jogou por vários clubes: Flamengo, Boca Juniors, Corinthians, Vasco e Bangu, onde começou a carreira. O zagueiro disputou sua primeira partida profissional no dia 28 de abril de 1929, quando defendeu o Bangu na vitória sobre o Flamengo por 3 a 1, no estádio de Moça Bonita. Com 21 anos, Domingos da Guia foi jogar no Nacional de Montevidéu e conquistou o campeonato uruguaio, além de ser considerado o melhor jogador estrangeiro que atuou naquele País. Um ano depois, foi para o Vasco, onde ganhou o segundo título. Voltou ao Exterior em 35, desta vez para o Boca Juniors, da Argentina. No ano seguinte, foi para o Flamengo, onde permaneceu por oito anos, conquistando três títulos de campeão carioca com a camisa do Mengão (onde foi tricampeão carioca em 39, 42 e 43).

Defendeu o Brasil na Copa de 38, quando a equipe terminou em terceiro lugar na competição. Foi considerado um dos melhores jogadores daquela competição. Na semifinal contra a Itália, Domingos foi protagonista de uma cena histórica: num lance sem bola, deu um pontapé no atacante adversário Piola, para revidar uma agressão. O juiz marcou pênalti contra o Brasil, que perdeu o jogo por 2 a 1, veio daí a famosa "domingada" dita todas as vezes que os jogadores fazem bobagens em campo.

Entrou para história ao também ser campeão na Argentina, Uruguai e Brasil, sendo um dos únicos no planeta a conseguir tal feito.

Deixou o Flamengo para atuar no futebol paulista contratado pelo Corinthians, onde jogou por quatro anos. Voltou para o Rio em 1949 e, neste ano, encerrou a carreira vestindo a camisa do Bangu, aos 36 anos. Durante toda sua carreira, disputou 30 partidas pela Seleção Brasileira. Além disso, conseguiu a proeza de jogar pelas seleções Paulista e Carioca no Campeonato Brasileiro de Seleções.

 

 

 

 

 

 

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