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Memória |
Ano I - Nº 2 - Maio de 2000 |
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Hamilton
Bernardes Cardoso foi jornalista e trabalhou como repórter especializado de polícia no
Diário Popular, ex-repórter do Povo na TVS, canal 4, TV Cultura, canal 2, jornal Versus. Nasceu
em Catanduva, interior paulista, em 10 de julho de 1954. Representou
o Brasil em vários encontros de organizações e partidos políticos da África, Caribe,
Europa e EUA, na Inglaterra onde proferiu uma série de palestras. Foi
fundador do Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial em 1978 hoje MNU,
consultor de Comunicações da OAB e do Instituto da Mulher Negra, Geledés e co-fundador
da revista Lua Nova/Cedec. Em
1981, no Brasil, criou a revista Ébano, e organizou, junto com o dançarino Ismael Ivo, a
passeata anti-racista do silêncio no campus universitário da Universidade Federal da
Bahia UFBA, durante a SBPC de Salvador, onde foi proferir a palestra O NEGRO NOS
MEIOS DE COMUNICAÇÕES. Em
87 participou como co-autor, do livro Movimentos
Sociais na Transição Democrática, editora Cortez, organizado por Emir Sader. Organizou,
em 1991, na serra da Barriga, em União dos Palmares, a Missa dos Quilombos. Poeta, jornalista,
escritor foi atropelado no dia 1º de maio de 1988, dia do trabalhador. Isto
lhe marcou a vida. O acidente deixou seqüelas. Hamilton suicidou-se em
novembro de 1999.
Nessa edição estamos publicando a primeira parte
a apresentação- de uma Carta Aberta, que Hamilton Cardoso escreveu e entregou ao
líder sul-africano Nelson Mandela em 1991. Um
texto crítico, polêmico e poético a espera de um editor.
Na próxima edição continuaremos com trechos da obra. Correspondência ao Continente de Origem, aberta a Nelson Mandela Meu caro Rei e presidente Mundial: Quero manifestar e demonstrar-lhe a minha gratidão ao
Cedec Centro de Estudos e Cultura Contemporânea do Brasil. Eles me ajudaram a
escrever-lhe esta carta. São meus amigos e o José Álvaro Moisés, de lá e, hoje na
Inglaterra estudando, contribuiu decisivamente para que eu pudesse retirar as primeiras
gotas de lama do país cadáveres de todos nós dos ombros. Ele me revelou
e eu demorei a concluir que esta história de jeitinho
brasileiro e da malandragem compulsiva inerente do negro são cadáveres
siameses em nós. O Marcos Faermam, um jornalista judeu como a maioria
dos personagens de Richard Wright e da vida anti-racista negra norte-americana além de
mostra-me, indicando livros para ler e ma dar tempo para faze-lo garantiu, e criou
condições para eu pensar e refletir sobre eles. E me convencer que eu sou uma ostra.
Convenceu-me também de que o que eu gosto mesmo é jornalismo literário, e que poderia
fazer uma grande reportagem. Tentei. Este é o esforço das ostras e eles as nossas
esperanças. Tudo depois que o ex-deputado federal Adalberto Camargo
me financiou os estudos na faculdade e o Wanderlei José Maria leu para mim a frase do
Marx que diz que quem tem fome não tem tempo para ver o por do sol. Ele, o
Wanderlei, me ensinou a escrever o que realmente penso. A Dra. Iracema de Almeida deu-me o
primeiro empurrão e o catiça e a Deodô, meus pais, carregavam-me, sobre os
ombros deles. Ela pagou matrícula da faculdade. Caí no mundo. O meu irmão Airton (fale rápido!) B. Cardoso, ao meu
lado era invisível. E continua. Ele está morto e é um cadáver, belo e leve, como o do
Eduardo de Oliveira e Oliveira, o sociólogo que dizem, suicidou-se porque não agüentou,
mestiço, a tortura de ser negro e refletir sobre si mesmo e viver entre e, nos Dois
Mundos. Ele me abriu as portas para escrever aquele artigo que o Francisco Weffort, com o
Paulo Sérgio Pinheiro, Passado sem Mácula!, adoraram. Ele abriu as
portas da minha auto-confiança. De qualquer modo, se não fosse o Cedec, onde há mais
de meia década eu e o Weffort que conversava muito comigo e me revelou, mostrando
a inutilidade deles, que um dia eu teria que derrubar cadáveres ele escreveu sobre
isto em relação ao socialismo, sem o Cedec eu não teria como lhe entregar esta carta.
Ela poderia ser mais um cadáver da minha vida. E diante dela. E eu o desconheceria. Não
saberia que estes defuntos existem. Como você vê, eu estou por conta própria mas
nem tanto assim. O Orestes Quércia, ex-governador, quando eu estava quase afogado
e com a ajuda do ex-secretário dele, o Oswaldo Ribeiro, negro como nós- mostrou-me como
sair do lodo. E a minha companheira, a mulher, Maria
Cristina Brito Barbosa, sempre olhava para mim cuidadosamente e , por receio, talvez, -
ela é branca não deixava eu me liberar repentinamente dos entulhos. Ela temia, em
mim, um choque anafilático e a loucura em minha mente. Eu seria um dos cadáveres dela. E Ela sabia
que eu precisava do equilíbrio que você, meu caro Rei, demonstra. E também que eu não
sou talvez não tenha nascido para isto um Estadista. E antes do meu
isolamento nos buracos das periferias repórter do povo eu vi a loucura
mental e a miséria (é uma loucura!) social dos descendentes dos seus compatriotas
escravizados. Como muitos eu colocava a mão na cabeça e chorava... Você estava preso na
África do Sul. Mas como bom e fiel súdito, eu lhe peço: lembre-se
sempre desta contribuição do Cedec. Nele, eu tenho amigos de verdade. Não que eles não
tenham compromissos com a branquitude deles, mas é que a branquitude - e a minha companheira me ensinou não é
como a negritude: uma condição. Eles, e muitos deles a maioria dos que
tenho são meus amigos. Um ex-governador, por exemplo, se elegeu sendo chamado
de brega. E Ele, que agora "e um dos homens mais poderosos deste país, gargalha com
o porta voz, à respeito disto a acusação ou xingo. E ele é adorado e admirado,
por uns, por muita gente, inclusive, que discorda dele na política com raiva e
inveja, até. E foi rindo e gargalhando dos acusadores, que ele construiu o prestigio o
poder e a tranqüilidade. A Beatriz do Nascimento, a socióloga, do filme Ori, é a melhor
que conheci na área e invisibilizada, por bem menos é o que é. Ela não matou ninguém
nunca foi chamada de japonesa, apesar de Ter os olhos puxados. E eu penso, às
vezes, que ela deglutiu ou teve a língua
deglutida... Aliás, falando dos meus amigos, principalmente os do
Cedec, lembrei-me da historiadora Maria Victória Benevides que é de lá -, e eu a
ouvi muitas vezes citar o Getúlio Vagas, que dizia: Aos amigos, tudo, aos inimigos, a Lei. Eu não sei, e gostaria de ouvir ou ler a sua opinião
à respeito, sobre o ditado do Getúlio Vargas, pai dos pobres -, se ele é certo... O
fato é que é assim que as coisas funcionam aqui no Brasil, na democracia racial. Se eu lembrasse, antes de lhe escrever, talvez eu
pudesse, ao invés desta longa carta, enviar-lhe um bilhete com aquela frase. Ela
sintetiza o Brasil e os mitos da de democracia racial e do país cordial. E, ao que
parece, é no que o Frederico quer transformar a África do Sul. O De Klerk. O nome dele
é Frederico, não é? O nome é popular no Brasil... Mas existe o Mandela
lá, - a Pérola, e o ANC. São populares lá... (O que eu penso sobre LÁ é positivo e sua
passagem, ela é purificadora pelo Planeta. E sobre o Conselho, acho que você
dirá o seguinte: TEMOSQUE MUDAR A LEI. É por isto que eu gosto de afirmar: TEREMOS A NOSSA
CHANCE. Aliás: acho que criarei um jornal com este nome. Este,
esta carta, é o registro. O meu registro de nomes, marcas e patentes. Direto com o Rei. Bem..., agora eu
vou pegar o meu ganzê e o ganzá e ao invés de Não sei por que sou tão preto e azul,
de Louis Amstrong, eu vou ouvir a festa para o rei negro. Com a minha mulher... Afinal, o Mandela é tão preto, mais azul que eu. E eu
sei o porquê disto... Os dois MundosMeu caro: estamos organizados, no Brasil. Temos os
nossos movimentos sociais, integramos os Partidos Políticos em comissões esportivas e o
Estado em Conselhos e Coordenadorias especiais municipais ou estaduais, ou Fundações e
repartições específicas, para organizar a nossa gente. Mas existe o Rap, são os rappers da Massa que em São Paulo se
desenvolveram à partir dos EUA, mas foram impulsionados pelos FATOS do Zimbabwe. São do
outro mundo! Ele é formado pelos sobreviventes do extermínio de
crianças, colocado em andamento nos últimos dez anos. O jornal da Tarde, de São Paulo,
do dia 19 de julho de 1991 entrevista um, e o pai de outro deles, Bezerra da Silva, o
cantor dos bandidos, e revela isto: eles estão revoltados. O jornal afirma que eles são
os sem nada. Basta ser sensível: eles
são uns macacos! Meu caro: Eu sou jornalista e repórter e você, advogado e
ex-preso político, atual presidente do Congresso Nacional Africano nasceu, viveu, foi
criado e estudou; defendeu, ou tentou defender as causas justas na África do Sul,
colonizada por diferentes nacionalidades européias que se impuseram ao mundo e
transformaram o seu país, onde criaram o sistema do apartheid, no lodo da civilização.
O seus antepassados esperavam que você fosse um homem, e eles fizeram de você uma ostra... Existe um samba no país onde nasci dizem e
eu acredito que é meu que diz o seguinte o ouro afundo afunda, madeira
bóia por cima; a ostra nasce do lodo, mas gera pérola fina... O seu país deu ao mundo os mais belos e os maiores
diamantes da humanidade e o meu, o ouro ou parte considerável dele que foi
necessário, durante o mercantilismo para que surgisse o capitalismo este tipo de
economia tão contestado desde a Europa, condenado por milhões de pessoas, mas que se
impõe cada vez mais, de forma definitiva sobre todos. Muitos o abominam, mas vários
deles, quando podem, dele se apropriam. A escravidão, aqui no meu país, que atingiu a
maioria dos meus antepassados de mais de três gerações, que custou caro até hoje,
acabou oficialmente em 1988, dia 13 de maio, mas até hoje uma frase perturba-nos a vida:
todo mundo tem seu preço... (Conduzindo Miss Dayse- filme dirigido por Bruce
Beresford). Nós já não custamos nada. Deixamos de ser VENDIDOS Mas eu não escrevi para fazer digressões. Todo negro,
digo a maioria, tem esta tendência, de querer falar de tudo de uma só vez. E se
prejudica por causa dela. Mas eu, um prejudicado como todos os negros do mundo até Collin
Powel, que é o chefe do Estado Maior dos EUA atuais donos do mundo e que há
algumas semanas decidiram tirar a África do Sul do isolamento também tenho esta
tendência. Escrevi para lhe falar do Brasil, - o meu país. Você, que nasceu confinado no seu país, foi
preso depois do massacre de Shaperville e, mais confinado ainda numa prisão, ficou nela
por 27 anos, desde os 45 de vida confinada pelo apartheid, submetida a uma maior -,
foi à força no fundo do lodo onde, certamente se encontrou com outras ostras. Dentre
elas, por causa do seu reconhecimento como líder e dirigente delas e de outros é,
certamente, a mais fina das Pérolas
Você poderia, e nós sabemos que até por razões táticas, beneficiar-se como o
fez e corretamente o guiano, sul americano, como eu, E. R. Braithwaite, da mania dos
racistas de todo o mundo que, na África do Sul recebeu o título de Branco honorário. Ele denunciou, a partir desta brecha, (ou honra, sei lá), a tragédia sul-africana, uma tragédia da humanidade deles e não nossa. Mas você, um negro, negou-se. Ninguém é o que não é. Você combateu a tragédia. Recentemente um brasileiro, filho de imigrantes japoneses, Terumi Maeda, que foi para o Japão trabalhar na Honda do Japão, foi contratado lá como imigrante, entrou em depressão, visitou uma japonesa que dizem, ele queria conquistar ou seduzi e foi recusado. Ele a estrangulou. Agora corre o risco de ser condenado à morte. Os jornais brasileiros disseram algo interessante: ele tinha cara de japonês, jeito de japonês, mas não era. Era brasileiro. O ex-embaixador guiano que foi condecorado com o título de Branco Honorário por sorte não acreditou na história. E denunciou o fato em um livro publicado em 75 na Inglaterra, com este título: Branco honorário. Ajudou a matar um pouquinho do apartheid. Aqui no Brasil, onde o racismo não é e nunca foi legal, - é péssimo, por sinal existe a condecoração, concedida no plano individual e emocional o Negro de Alma Branca que foi rejeitada, inclusive, pelos negros da África do Sul e é utilizada para muitos dos nossos, até publicamente. Mas você, ao que me consta, e pelo que demonstra, rejeitou as duas... Tudo isto, meu caro, o torna uma Pérola Fina. |