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Não. Não era
Gregor. Mas era imenso. E era uma barata. E sendo o que era rastejava.
Movimento silencioso-furtivo. Era o que era. E ponto. Barata. E estava no
lixo. Todos não estavam? Todos não eram baratas? Não eram?
E
empanturrava-se de tudo. A fome intensa. Pretensa forma da fome. Saciar.
Saciar os espaços todos do corpo, do desejo, do prazer. Saciar.
A alimentação.
Devorava o senso-comum. Todinho. Era o próprio. Não se é o que se come? Pois
este era ele. Máquina veloz e rastejante de ser habitado e habitar o
bom-senso, o consenso... corpo apropriado. Antenas compridas, sensação,
cheiro, paladar... a imagem. Consumia a imagem mesma, sempre e todo o dia.
Podia voar. Mas não gostava, preferia rastejar no senso. Comum a todos.
Marcas, idéias, opiniões, doxa. Adorava. Adorava encher o corpo e o ser de
restos. Do resto de tudo e todos. Comia. Fartava-se nos lugares comuns, nas
ilusões do sujeito, nas crenças da imaginação. Devorava crenças e mitos e
acreditava. Sempre acreditava. Não sabia em que. Mas isso não importava.
Os discursos de
poder tinham um sabor refinado. Comia com singular prazer. De olhos
fechados. Degustando cada pedacinho. Salivando o gozo da doutrina, da
subserviência. Tradição e moral. Lambia até os beiços. Era o que gostava. E
mesmo assim não sabia o motivo. O gosto. Porque gostava mais disto e não
daquilo? Nunca entendera claramente como se dava a obtenção do gosto e seus
processos de composição. Mas era barata... Grande barata. Imensa. Já os
livros... não. Secos demais. Espessos além da medida. Insípidos.
Preferia os
doces programas de domingo. Tranqüilidade, passividade. Docilidade.
Fantásticos docinhos que saciavam seu prazer. Prazer?
Pelas paredes a
opção dos ângulos, das distancias. As visões variadas-alteráveis inusitadas,
mas o olho era o chão. Apenas. Pena. Restrição da opção. Opacidade visual.
Restrição sensorial. E podia tanto.
Mas não queria.
Ou achava que não queria. Vai saber? Era barata. Como ia saber se queria ou
não. Livre arbítrio? Ainda não se alimentara de Schopenhauer. Os clássicos
eram os piores. Duros para uma mastigação rápida. Degustação imediata.
Fast food.
Mas não havia
solidão. Havia sim a algazarra. Varias e tantas outras. Roliças e felizes.
Iguais e mesmas. Eco. Reflexo. Tantas quantas fossem possíveis ser
produzidas. Reproduzidas, conduzidas, definidas. O lixo é fome e come. O
lixo é carne e forma. Outro e mesmo rosto-roto, turvo-parvo.
A morte. O fim.
Imenso em sua crença não viu, não olhou nem se importou. Enorme sola sob
grande pé dos céus a buscou. O corpo. Em uníssono movimento e som
interrompeu.
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