Ontem,
depois
de muito
tempo
maquiando minha
depressão
(que
é hormonal, física
e real)
com
o sorriso
amarelo
da falsidade,
acalmando meus
desgostos
com
maciças doses
de reclusão,
me
senti satisfeito,
eu
não
estava atrasado nem
devedor.
Levei os arquivos
do livro
para
a editora,
paguei as contas,
as idéias
estavam no lugar,
aquela sensação
opressiva
de que
tem algo
errado me
dava uma folga.
O
dia
estava lindo,
o sol
quente
no céu
azul,
o vento
refrescante
brincava com
os cabelinhos dos
meus
braços,
que
ficam estendidos
enquanto
piloto
minha
motoca.
Eu
tinha
resolvido uma sinuca
em
que
meti o personagem
Mão
Branca
no conto
que
andava escrevendo, a
solução
era
tão
boa quer
resolvi acelerar
para
escrever
logo
a história.
O carro à minha frente iria atravessar um
cruzamento, havia espaço suficiente, porém a motorista (sim, tive tempo de
olhar o condutor) resolveu parar, ali, de sopetão, quase peando as rodas. Eu
contava com sua aceleração, iria passar com a moto no lugar em que o carro
não estaria mais. Estava a 04 metros do carro, a 60 km/h. Ainda pude pensar:
putz, bastou ficar satisfeito por alguns segundos, será perseguição?
Eu ia encaixotar na traseira do gol. Meu
corpo voaria por muitos metros antes de beijar o asfalto. Eu previa todo o
incômodo nos próximos meses, fraturas, hospitais, dores, médicos, invalidez
, se eu não morresse, é claro. Minha única saída seria realizar uma manobra
bem difícil, mas que era comum na época da bicicleta de garoto: a derrapada!
Não tive dúvida e reagi. Joguei de lado a roda de trás enquanto a travava,
juntei o freio da frente no máximo, ao mesmo tempo em que deitava o corpo
para o lado oposto da roda traseira. O chiado dos pneus parecia um grito
desesperado, o meu, íntimo.
Parei com a roda da frente tocando
levemente o pára-choque da infeliz freadora, que partiu com seu carro sem
imaginar o apuro que me fez passar. Quase quis ter deixado explodir a moto
em sua traseira, ao menos ela ficaria atenta enquanto dirige.
- bem, não morri! – Consegui murmurar. –
qual a próxima?
Engatei a primeira e sai. O vento voltou
a me acalmar, o ronco do motor mostrava que tudo funcionava corretamente. No
serviço, me dediquei às coisas diárias: reguei as plantas da repartição,
bebi um café, conferi os emails, bati papo, apontei uns lápis. Desci para um
cigarro, mas já que não fumo, fiquei bundando pelo Venâncio 2000.
Vi um sujeito numa antiga XL250. Me
aproximei para apreciar a raridade, conservadinha, pintada de preto. Ele me
viu, puxou papo. Motoqueiro é tudo igual, conversador, adora salivar sobre
as máquinas. Eu também babava.
- a minha tá naquele estacionamento. –
Apontei com o nariz.
- que moto é?
- CB450 com guidão seca-sovaco e baús de
“puliça”.
- uau. – Ele estendeu a mão num
cumprimento animado. – você é dos meus. clássico!
Marcamos um rolé, trocamos telefone e nos
despedimos. Logo meu aparelho tocou.
- uau, tua moto é mais bonita que uma
harley! – Ele falou que estava montado nela e o flanelinha, meu broder, o
ameaçava com um porrete. – diz pro teu segurança que sou limpeza. – O
telefone trocou de mãos.
- Cascão, fica frio. – Falei. – o
motoqueiro é parceiro. – Ele concordou e devolveu o telefone.
- uau, é linda, linda. – Repetiu o
motoqueiro.
É mesmo, pensei, mas respondi “bondade
sua”. Ele ficou uns cinco minutos exaltando-a. Fiquei todo satisfeito, até
pensei no livro que está na editora, sonhando que seja um sucesso.
Hoje, depois de paquerar uma XT660 da
Yamaha num sinal da W3, voltei a me divertir com os cabelinhos dos meus
braços. Terminara o conto, tudo certo na editora, a depressão continuava
longe. Me sentia até mais que satisfeito, estava mesmo é feliz. Sorri dentro
do capacete.
De repente, um “abeleão” (preto,
gigantesco) atingiu meu pescoço como um tiro. Tô acostumado com besouradas e
outras insetadas, mas aquele não só me acertou como também subiu pelos meus
cabelos, andou pela minha cabeça e se alojou no meu ouvido esquerdo. Senti
toda a movimentação extremamente nervoso, o capacete impedia que eu
acessasse o bicho para expulsá-lo com um piparote (não mato nada que não
mereça morrer. Aquele inseto, coitado, até já havia sido atropelado por mim,
eu não lhe faria mais mal). O medo era que ele se irritasse com a carona e
me ferroasse.
Parei a moto, tirei o capacete, puxei o
invasor da orelha e o soltei pelo ar. Ele voou livre, satisfeito, percebi
pelo seu zumbido. Gosto de ser magnânimo.
- epa. – O zumbido continuava no meu
ouvido. Limpei a aurícula novamente. Nada. Percebi, então, que era mais um
simples zumbido, era um aviso da Força, alguma coisa iria acontecer. Voltei
para a moto, pianinho, atento a cada movimento ao meu redor.
Um engarrafamento me fez rodar apreensivo
pelo corredor de carros. Vi que a causa era um acidente. Quando cheguei mais
perto, o zumbido pareceu aumentar.
- uau. – Resmunguei. Uma moto havia se
esborrachado na traseira de um gol, exatamente como aconteceria comigo se eu
não tivesse conseguido fazer a derrapada. Eu pressentia algo mais, o zumbido
continuava. Olhei mais atentamente e vi que era a XL250 do motoqueiro de
ontem. – o cara sobreviveu? – Gritei ao bombeiro, que balançou tristemente a
cabeça.
Segui meu caminho. O zumbido sumira. A
satisfação também. Eu teria que voltar a lutar contra a depressão, sentia
que ela flutuava ao meu redor como uma nuvem carregada de desânimo.
Levantei mais uma vez a guarda, é minha
defesa social contra as vicissitudes. Voltarei à minha reclusão, aceitarei
meus desgostos. A contraparte de esquecer as dificuldades é o relaxamento
que enfraquece, é a facilidade que amolece. Toda a tensão depressiva que me
enche de rugas também me mantém atento aos atalhos traiçoeiros, às
facilidades superficiais. O zumbido irritante que alerta sobre as próprias
ações enganadas, manterei no volume máximo, não posso deixar de escutá-lo
quando surgir. Ele me salvará, eu confio na Força.