|
Antes de entrar
ele pressentiu. Frio estranho lambendo o corpo. Arrepio bolinando a alma.
Com calma. Mesmo assim entrou. Sempre entrava “mesmo assim”. E naquele dia
resolveu ver. Observar. Coisas que não via. No cérebro, algo sempre
tilintava. Sinal? Tinha sempre a sensação de que sua visão não era boa. De
que não conseguia ver tudo. Olhava. Olhava muito. Para tudo. Traços, rostos,
relevos, linhas, cores, ângulos, texturas, estilos, épocas, conceitos. Mas
algo dentro dizia que alguma coisa estava errada. E ele decidiu.
“Não é grande
coisa,” um amigo dissera. O outro “que era mediano”. Alguns, por falta de
propaganda, mídia e badalação, negaram veementemente a intenção. “Não vale a
pena, o tempo, o movimento, as cores, o comentário.” Mesmo assim ele foi.
E era estranho.
Intrigante. O espaço em que o quadro o corpo em tinta e traço olhava. Espaço
de brancura iluminista. Claridade anormal cegante-sufocante. Paredes nuas,
explícitas. E no meio de todo o nada - ele. O quadro. Único.
Mão e olho.
Rosto sugerido, cores infringidas. Delirante pincel. Escuro e sombrio.
Sombra e cor além da luz. E o olho branco. Vago. Profundo. Janela. E da mão
um furo. Outro rasgo. Outra brecha.
E as linhas e
os cortes. Traços que separavam ou juntavam pedaços. A imagem em construção.
Destruição?
E então a
visão. Toda. Furiosa. Facho, fluxo. O olho no olho e ambos dentro e fora. O
quadro e o corpo. Simbiose. Mergulho, naufrágio no olho. Afogamento. Dança
erótica e lasciva com todas as sereias recusadas por Ulisses. Todos os
caminhos e dimensões sensoriais, corporais e táteis experimentadas por
Alice. Valsa fantástica a bordo da nau dos loucos. Tradução-devoração do
verbo insano, do verso da não-razão. Antonin Artaud cuspindo saliva e sangue
no buraco mágico dos Taraumaras. Explodindo e desorganizando-se em corpo e
mente. Criação de outro mundo. Vocábulo do além gramática. Janelas e mais
janelas ao suicídio do lugar comum. Do senso comum. Corpos em queda. Livres.
O incêndio de todas as roupas, de todas as máscaras. Nero bondoso e
fantástico e sua lira. Insanidade mortal. Fogo. Roma e Tróia.
Incandescentes.
Na pausa que se
fez. Do olho que ao fechar-se o mundo enclausurou, rio de sal aos poucos
vazou.
Dor, prazer,
júbilo, razão?
Ninguém soube
ou sabe ou saberá motivo, idéia, intenção. Mesmo assim ele levantou. E pelo
olho do quadro nova direção.
Da janela
aberta em braços e asas saltou. Final. Ponto
|