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Entre as mãos, pressionado pela
estrutura física da carne, do osso que sustenta, mas também oprime por
também ser obstáculo, peso, parede. Pulsava? Prisioneiro do próprio corpo
engendrado para si. O cérebro.
Nas mãos encharcadas, embebidas
no suor das têmporas-nectar das dúvidas e angústias, ele sentia, percebia a
aflição de seu intelecto comprimido...
Paredes... tudo eram paredes.
Da carne ao tijolo. Tudo que prendia e resumia. Reduzia. Tudo eram paredes.
Suas paredes.
Na escuridão circunstancial do
não olhar, ele percebia os vultos negros das nuanças da própria sombra que o
envolvia e invadia. Possuído pelo demônio da dependência, filho maldito do
torpor... atrelado estava à rima simplória, mas vital, da batida cardíaca.
Talvez se abrisse os olhos e
enfrentasse além do seu rosto-máscara de carne velha e dissimulada –sua
essência, sentido-alma que de tão profunda jamais conhecera. Talvez na pele?
Capacidade de se compreender?
Mas o cérebro. Abraçado ao
frágil coração gritava-lhe do cárcere onde se encontrava que compreender a
si mesmo era coisa de coragem, de desprendimento. E eles eram fracos, débeis
na sua condição retórica. Voláteis.
E a umidade das mãos agora
ficava mais amarga, pois o fel de sua alma deslizava silenciosamente por sua
pele.
Quanto tempo fazia? Quarenta
voltas os ponteiros indiferentes da morte já haviam dado ao redor de sua
cabeça?
Sair. Levantar.
Tentava sem sucesso tais ordem
ao prisioneiro conformado que se distanciava em uma valsa insensata de
antigas e novas imagens-reais-ilusórias, de frases ditas e outras nunca
mencionadas. Não havia resgate para o encarcerado que se implodia em
incoerências. A razão é coerente?
Entre os dedos da mão escorria
sua sanidade, fluindo para o esgoto/desgosto? Toda sua capacidade de
percepção. Fronteiras ruíam.
E as dias mão que seguravam,
agora chacavam-se débeis, delirantes. Surdo aplauso seco. Único. Ploft.
E ser já não era, agora, o que
se fora outrora.
Então abriu os olhos. No aço do
espelho seus olhos do outro o fitaram. De quem eram aqueles olhos cravados
na sua carne. Aquela carne moldada em seu idêntico rosto?
De quem era o organismo tecido
em seu espelho?
O que era aquele corpo que na
realidade do espelho, na “verdade” do reflexo se escrevia, se inscrevia em
seu texto. sem nome e em desalinho?
Na antítese que se instaurava
se criara; e na mesma intensidade em que em volume, massa e peso se gerava,
também pelo olho - no aço que o encarava – tão simples fácil se rendia. No
leito estranho do desespero se permitia outro sono de falácias. Sonhos?
Do outro lado da porta. Sons.
Porta? Lado?
Espalmada a mão na parede fria.
Realidade instaurada na solidez do prédio.
A mesma parede que esmaga
também protege. O espelho sorriu. A carne ficou indiferente, intacta na
ruptura interna da estrutura que se partia.
Qual porta estava fechada? a
porta da lúcida madeira? Que se abria de súbito unindo dimensões fantásticas
de todos os desatinos.
Estava nu. Desprovido dos
panos. Encobrir as vergonhas. Nesta constatação eventual a carne se abriu em
gargalhada infindável entre o espaço do aço do espelho e o reflexo da corpo.
Carne entre o corpo de espelho e o reflexo do corpo.
Silêncio!
Sérios se olharam – decrépitos
ambos.
No ar do olho que se encherga
dentro do seu mesmo olho, cicatriza o distante; mesmo que no próximo olho
que se vê diante, já se perca no profundo espaço do que já fora antes.
No piscar de ambos que se
defrontam o que se alcança são só molduras...
Casado. Não está preso. Casado.
Aliança no dedo. Dinheiro eroupa não.
Onde a sombra que se pretende
homem? Na escuridão deste apodrecer?
Corpo ereto. Alto. Esguio,
curvo. Respira a densidade negra que o emoldura. Pretende um grito. Forte,
sacro/santo, mas e voz de onde?
Cadê palavras nessa boca murcha
que se costura. Onde atitude nessa massa pálida que se constitui?
Onde a sintaxe da texitura
deste verbo que não se estrutura. Dessa frase que não se coaduna. Cadê a
palavra que neste deserto subserviente se abandona?
Noolho do teu olho no reflexo
do teu despojo, no cérebro preso ao osso que o protege; congelas num segundo
o tempo que te engendra; do materno exílio ao parto onde te encontras. Olho
no olho no olho do teu próprio olho... Infindavelmente. Nesse espelho que
não existe. Deste quarto que não desistes. Neste berro que ecoa.
A mão cansada que no movimento
se afoga na densa massa que te engole – escuro – onde tudo se confunde. Vago
fundo do teu quarto nu. A chave solta pende morta no fio que a conduz a luz.
E no passo que teu peso grita
noutro espaço teu corpo afunda. No além da porta-luz.
Luz que te agride o corpo que
reduz.
Pardais cinzentos em bandos te
observam através do vidro da parede. No muro que individualiza, singulariza
os espaços do mesmo. Delimitam os passos de cada um.
Abertos os vidros que iludem
com as imagens das coisas. Respiras a terra.
Tudo é terra.
Vestindo as roupas, vestia
também seu nome. Novamente recriado a personagem para o dia. Pedro. Pedra
que se submete ao formão e ao martelo do escultor. Ao martelo.
A cada amanhecer recriava-se
novamente a entidade Pedro. Vestido como Pedro. Pensando como Pedro, agindo
como Pedro. Falando. Só lhe era permitido ser o não-pedro à noite e só.
Quando despia-se do rótulo que o algemava ao ícone Pedro. Mas nem isso
entendia.
Pedro Salinas. Pedra de sal.
Desmanchava na singularidade coletiva de todos. Que também se resumiam.
Em um passo de tempo em que sua
forma, imagem e sombra traça, mente, cérebro se afastam. Foge, mas em vão
não encontra alma alguma. Corpo e carne e osso que sustenta o vulto já
bastam, fartam... então parte.
Mesmo sendo pedra consegue ser
mais ausência.
Massa de anti-matéria que
perambula pelo universo. De qualquer folha o verso. Não o que canta a dor e
a idolatra, mas sim as costas. O resto de qualquer escritura. Sepultura?
Findo o trabalho. Traz sua
bunda magra e ossuda para o assento gasto da poltrona que lhe abraça. Engole
e consome.
Click. E faz-se a luz. De
volta.
O calo.
Não fala.
Nada diz.
Calado retira o sapato.
Na térmica ainda água.
O mate?
Morto. Todos os sonhos.
Sorve toda a amargura.
O calo lateja em sua profunda e
singular sintonia.
Retira a meia. Entre o dedinho
e o outro. Sem emoção. Com as unhas...
Arrancado, desmembrado o
inimigo. Tinge o dedo o sangue, também o pé e o chão.
Vai chover?
Quanto mesmo? Quarenta?
Levanta-se.
É preciso fazer alguma coisa.
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