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Foi logo após o almoço de Ano Novo, com a mesa farta e a
família reunida que, sem querer, começou o jogo da memória.
Alguém falou sobre o antigo sabonete “Vale Quanto Pesa”. Este
era o sabonete da família. Seu preço era acessível, seu tamanho – enorme –
todavia ao lembrar seu cheiro horrível, as filhas torceram o nariz.
Palmolive, Gessy, Eucalol, Phebo foram lembrados como
produtos de consumo dos ricos, devido a propaganda, o mais desejado entre
eles era o “Lever - o preferido por 9 entre 10 estrelas do cinema”. Porém
nenhum deles fez parte da história da família, pelo menos naquela época.
O assunto correu para os produtos de tratamento de cabelos da
marca Vinólia que chegaram ao Brasil por volta dos anos 60, mas a família
nem chegou a conhecer, usavam o sabão de coco mesmo, quando tinha, porque
não havia recursos para estes luxos. O shampoo e creme rinse da marca
Colorama, usados pela matriarca, surgiram na década de 80, ainda hoje é o
preferido dela, embora reclame da dificuldade de achar.
Rapidamente alguém lembrou que enquanto o pai, por muitos
anos, pagava uma mensalidade para no final de cada ano receber em casa uma
cesta de natal – Cesta de Natal Amaral, que fazia a alegria da criançada, a
mãe pagava o carne do Baú, e como nunca foi premiada ao final trocava o
valor por produtos “de luxo”, mais caros do que na concorrência, numa das
lojas da rede.
Era assim que a mãe tinha alguns mimos como o - Pó de Arroz
Cashmere Bouquet, o creme Antisardina e meias de seda. Entre risadas a filha
mais velha contou que, escondido, usava o único creme da mãe, embora não
tivesse idade para tal, pois ficava deslumbrada ao ver o potinho verde cheio
de creme cor de rosa, por isto vivia com a pele irritada.
Neste momento a matriarca, rodeada dos filhos, netos e
bisnetos, emocionada, lembrou-se mais uma vez do natal do porco.
Ano de 1960, aquele seria um natal magro, sem Cesta, sem Baú,
sem a carne de segunda comprada nas festas e o tradicional Guaraná Champagne
Antártica – este era comprado só no natal e na páscoa. Era apenas uma
garrafa para cada um, as crianças, com um prego furavam a tampa e passavam o
dia “mamando” na garrafa, gota por gota para que demorasse a acabar.
Tudo estava fora do orçamento naquele ano, ela estava
inconformada. Aquele natal seria mais magro do que já era normalmente.
Presentes nunca havia, o Conga, calçado da época, passava
longe dos pés dos filhos, as toalhas de banho eram feitas de saco de farinha
com as pontas amarradas formando um desenho cheio de losangos e as colchas,
para as camas, de retalhos emendados manualmente pela avó cega. O sonho de
consumo das crianças era o jogo de varetas e o jogo de tômbola que nunca foi
consumado.
Tudo ela aceitava, mas aquilo era demais, naquele natal até a
dispensa estava vazia. Ela, o marido, três filhos pequenos e a sogra,
comeriam arroz e feijão com o costumeiro “mato” que era colhido na horta da
modesta casa alugada.
Todavia o destino queria que fosse diferente. Naquela tarde
antevéspera de natal, eis que alguns porcos ultrapassaram a cerca de arame
farpado e o bambuzal, que dividia os terrenos vizinhos, em busca de comida e
pisotearam a horta que iria garantir a frugal ceia de natal da família.
A mulher desesperada coloca as crianças para dentro de casa,
apodera-se de uma pedra e correndo atira-a na direção dos porcos com a
intenção de assustá-los tentando evitar que sua plantação fosse dizimada. A
pedrada foi direta. Acertou a cabeça do maior porco entre eles, que caiu
morto instantaneamente. O porco não fez nenhum barulho, simplesmente... caiu
morto!
Contrariamente ao esperado, ou seja, ao invés de agradecer a
Deus o “banquete inesperado”, ela, com medo de ser cobrada pelo dono do
porco, mesmo sem saber a quem pertencia, sem dinheiro para pagar o prejuízo
que acreditava ter causado, acreditando que poderia ser presa, decidiu
enterrar o porco. Pegou uma picareta e começou a cavar.
O dono do imóvel ao ver sua aflição em abrir um buraco de
proporções avantajadas para plantar alguma semente e inteirar-se do assunto,
começou a rir e a impediu de desperdiçar o banquete divino, ajudando-a a
pelar e recortar o animal em pedaços generosos garantindo um natal a ano
novo fartos, pelo menos de carne de porco, para sua família e de alguns
vizinhos que sofriam as mesmas privações.
Dizem, os místicos, que nas festas de final de ano deve-se
comer peixe para ir para frente ou porco para garantir a fartura, como o
porco fuça para frente, garante armários cheios por todo o ano, coincidência
ou não aquele foi o último natal e ano novo magros da família.
Depois de tantos anos, foi com sorriso no rosto, já enrugado,
que ela comentou:
-: aquele foi o porquinho da sorte, nunca mais faltou nada em
casa e hoje somos nós que garantimos “porquinhos” para algumas famílias.
Abençoado seja aquele porquinho!
* Advogada, Mestre em Políticas Sociais, Pós-Graduada
em Gestão e Organização do 3º Setor, Psicogerontologia e Memórias.
Palestrante, professora, dirige o PEEM Ponto de Encontro e Estudo da
Maturidade, voluntária da 3ª Idade e Recanto do Idoso Nosso Lar.
Email: cidamell@uol.com.br |