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A maior descoberta da minha
geração é que qualquer ser humano pode mudar de vida, mudando de atitude.
(WILLIAN apud CARLSON, 1998,
p.15)
A luz do sol refletia na água do
caudaloso riacho que cortava em duas partes o belo e movimentado bosque.
Alguns animais achavam que havia
animais com muita sorte, outros se achavam a si próprios sortudos e tantos
outros nunca tinham parado para refletir sobre isso. Mas a sorte consistia
em poder frequentar os dois lados do bosque separados pelas águas.
Para os pássaros isso era normal e
não tinha relevância alguma, já para os gansos era motivo de tirar proveito,
barganhar, enobrecer-se e até mesmo, de vez enquando, chantagear. Afinal,
eles podiam transitar livremente entre os dois extremos, ora carregando uns,
fazendo singelos favores e deixando no ar aquela tão conhecida expressão de
“uma mão lava a outra”, ora arrastando outros, obrigando-lhes a se submeter
a suas vontades e vaidades, amedrontando-os com ameaças provenientes de seus
temidos poderes de alarde, o que é típico dos gansos. E as vezes, também,
sempre tinham os que “por acidente” ingenuamente se afogavam por
considerarem algum ganso como amigo.
Mas nem todos os gansos juntos
conseguiam se igualar ao Escorpião em sua astúcia e ofício de espalhar o
pânico ao ser avistado. Sempre só, porque fere a todos a sua volta. Amigos?
Não os tem. Não saberia vivenciar o sublime sentimento de uma boa amizade. O
que ele tem aos montes são companheiros de conveniência, que socialmente se
mostram admiradores por medo, mas que no fundo o repudiam por ser ter
destrutivo.
Num dia qualquer o Escorpião
almejou aumentar seu território, conquistar novas e desavisadas vítimas e
assim, pensava ele, eternizar-se pela fama tão ostentada. Decidiu que se
atravessasse o riacho encontraria vários animais que não o conheciam e por
isso seriam pressas fáceis. Sapateou de alegria e empolgação!
Mas como atravessar? Se todos são
vítimas em potencial? Ora! Basta arranjar um tolo. Alguém que não consiga
ver a maldade, mesmo que ela esteja com um outdoor luminoso se
identificando. E é tão fácil enganar os outros, pensou o Escorpião.
Todo confiante em suas ações e
posturas começou a percorrer a margem do riacho até encontrar a vítima
certa. Quem seria ela? Qualquer um! Tanto faz, desde que ele consiga seu
objetivo.
E quem diria que não foi
necessário procurar muito, pois bem pertinho, ao sol, estava o Sapo. Que
para ajudar tinha a fama de não fazer mal a ninguém, pelo contrário sempre
auxiliava aos outros. Era o plano perfeito!
O Escorpião chegou de mansinho e
todo educado começou a dialogar com o Sapo, perguntando coisas como do tipo:
“Como está calor hoje? Será que vai chover? E como está esse nosso
riacho?” O Sapo, que era bom e não bobo, logo desconfiou da súbita crise
de delicadeza do Escorpião e perguntou-lhe o que realmente queria.
Preciso muito atravessar o riacho,
contou-lhe o Escorpião. Não consigo ninguém para me ajudar. Esse mundo é
muito injusto, tudo culpa desse sistema instalado historicamente em nosso
bosque, que contamina as relações sociais ... etc, etc e tal.
Bom... Não posso te ajudar, falou,
calmamente, o Sapo.
Como não! Que história é essa! E o
discurso de miserabilidade que acabei de lhe professar? Bem vi que você não
tinha intelecto suficiente para dialogar comigo. Respondeu o Escorpião
indignado.
Não é por nada, Senhor Escorpião,
é que conheço bem o Senhor e as coisas do que é capaz. Pode parecer meu
amigo nesse momento, mas quando eu menos esperar vai me ferir, pois tenho na
memória o que já fez com outros animais. Seu passado o condena, explicou o
anfíbio se aproximando da água.
Rapidamente, grita o Escorpião:
Por favor! Eu imploro, não se vá ainda. Preciso que ouça a minha defesa, eu
tenho direito de me defender, me pronunciar e fazer algumas colocações. Tudo
bem?
Sei que sou um dos animais mais
vis e nocivos que existe, desse lado do bosque. Não é a toa que estou no
grupo dos animais peçonhentos. Está em meu ser, não posso evitar. Mas posso
tentar construir uma imagem nova sobre meu respeito. Se você me ajuda
atravessar o riacho eu terei oportunidade de um recomeço, de uma vida nova.
Já que do outro lado os animais não me conhecem e não sabem da minha
história e de todas as coisas horríveis que eu fiz. Depende de você
colaborar para que isso aconteça.
Ok! Se é isso o que quer. Vou
levá-lo em minhas costas até o outro lado. Espero que cumpra suas promessas
e lembre-se de que estou te ajudando e que não almejo teu mal. Na verdade
nem faço parte de sua vida, nem temos relações e nunca fiz nada a você.
Sempre mantemos distância um do outro, ponderou o Sapo, que na verdade
pensava: por que ele faria mal a mim? Se não faço nada a ele? Não o ameaço e
nem lhe causo incomodo algum?
Só que ao finalizar a travessia o
Escorpião, prontamente, feriu o Sapo na altura de sua cabeça e rindo passou
para o outro lado do bosque, ridicularizando-o: Só sendo muito otário mesmo!
Eu sou um gênio! Não há ninguém que se compare a mim! A minha inteligência e
astúcia são únicas!
Mesmo sofrendo com a gravidade do
ferimento, o Sapo questionou: Por que você fez isso? O que você ganhou com o
que fez? Pelo contrário só perdeu, pois se fosse confiável eu poderia te
atravessar sempre e você desfrutaria de ambos os lados do bosque.
Aprenda uma coisa querido,
ironizou o Escorpião. A moral da história é esta: Para uma criatura má
prejudicar os outros, não necessita de razões ou pretextos. Ela simplesmente
faz, porque gosta, não importa a quem. |