Tarde de Inverno, 1975. A
chuva fria começava a cair muito tímida como se não fosse chover mais. Na
pequena varanda de minha casa no interior de São Paulo eu observava calmo e
tranquilamente a chuva. Perscrutava aqueles pingos com os olhos de artista e
imaginava-os tocando o chão em câmara lenta. Um espetáculo maravilhoso e
memorável. As formas que tomavam os pingos eram cada uma diferente da outra,
a estrutura assimétrica lembravam fractais e o resultado, uma obra de arte.
Eu estava bem acomodado
sentado confortavelmente em uma daquelas gostosas cadeiras, vez ou outra
minha mulher aparecia, tocava meus cabelos, trazia alguma coisa, biscoitos,
café ou chá.
O som da chuva
incorporava os acordes melodiosos vindos de algum rádio nas proximidades,
então eu sabia que eram dezoito horas, a música Ave Maria de Franz Schubert
identificava o prefixo desse horário na emissora local.
A tarde já se despedia e
levava a chuva fina, fria e fazia brotar de dentro da alma a nostalgia.
No horizonte despontava o
tom indescritível de laranja; ouro; amarelo e reluzia com o sol que parecia
se recolher ao mesmo tempo cedia lugar ao entardecer espetacular que hoje
ainda inspira fotógrafos e artistas de todos os gêneros.
No aposento de minha
filha, criança ainda, ecoava um gemido de voz fraca, melancólico que não
esqueço. Ao ouvir, a tristeza me invadia o coração e as lágrimas marejavam
meus olhos que teimavam em rolar por minha face. Eu as camuflava para que as
pessoas ao passar por ali não me vissem chorar e também disfarçava de minha
mulher para que a atmosfera triste não se estendesse ainda mais.
Todos alimentavam a
esperança e muita fé, mas eu, desolado, não via resposta satisfatória para
aquele quadro.
Passei pelo curso de
medicina, então tinha noção da gravidade do problema. A ciência médica
assimilava progressos nessa área e eu tinha conhecimento que um
neuroblastoma havia se instalado no abdome da menina e outros profissionais
também diagnosticavam leucemia. Eram neoplasias irreversíveis que atacavam o
sistema nervoso periférico e linfático.
Minha tristeza não tinha
fim ao me sentir frustrado e impossibilitado de fazer qualquer coisa que não
fosse administrar medicamentos para amenizar a dor e orar.
Eu continuava na varanda
vendo a chuva e o tempo passar, a noitinha já estava chegando, aquele tom
triste ressoava do aposento da menina e me colocava em introspecção, fazia
refletir sobre minha infância; adolescência e questionar sem respostas, por
que tudo isso.
Meu trabalho era na
Capital, estava para me mudar, mas aquela situação me colocava em
dificuldades e após alguns meses pude me transferir definitivamente.
Minha mulher serviu o
jantar e o quarto em silencio era um sinal que a menina estava dormindo sem
problemas. Fui até lá, beijei sua face, toquei seus cabelos louros e fui
tentar digerir alguma coisa.
Sem apetite e para
relaxar ou disfarçar a tristeza coloquei uma música na velha vitrola,
Eternity.
Voltei para a varanda, me
instalei confortavelmente outra vez com uma manta quente e aconchegante para
apreciar a noite fria e sem vestígios de chuva, sentir no firmamento alguma
esperança e contemplar as estrelas que pareciam querer me dizer alguma
coisa. Quando criança eu gostava de olhar o céu à noite e admirava aquela
beleza que só podia vir de Deus. Diziam que nossos desejos eram atendidos
pelas estrelas.
Encostei-me na almofada
da cadeira, reclinei minha cabeça e as pálpebras pesadas era convite para
uma sonolência relaxante que aos poucos me tomou, olhei o meu relógio no
pulso, dezenove horas e vinte e nove minutos.
O tempo foi passando e
adormeci.
De repente como a um
flash vi tudo se modificar a minha volta. Não era mais noite, pensei estar
enlouquecendo, vestia roupas diferentes, de outras épocas, vi pessoas que já
tinham partido desta vida, automóveis novos, mas antigos.
Olhei para meus pés,
estava eu de \Keds\, nome que se dava ao tênis branco de cano alto,
masculino de educação física nos tempos de colegial, diferente dos atuais e
eu os adorava.
Lá fora, na rua muito sol
e amigos que nunca mais os tinha visto. Um deles parou em minha varanda e
perguntou:
- Já
almoçou?
Respondi – Já.
- Então vamos até
minha casa, vou pegar meus cadernos, o calção de banho, vamos nadar e depois
do clube, estudar.
Incrível! Era 1963, eu
tinha uma bicicleta marrom, Monark e ele uma Caloi verde, vi meu pai, minha
mãe, meus irmãos e avisei-os que ia sair e lá fomos dois adolescentes de 15
anos de idade para mais uma aventura jovem.
Fomos nadar e ele tinha
uma irmã lindíssima que chamava a atenção ao colocar maiô, então na piscina
ela dizia - Vai olhar muito as
minhas pernas? Ela hoje é
professora doutora em uma grande Universidade. Ele se formou médico, um
excelente pediatra, mas partiu muito jovem.
Outros amigos e colegas
de colegial surgiam e me perguntavam se eu estudaria com eles no dia
seguinte. Alguns tinham problemas de física, matemática, línguas e eu de
ciências além do compromisso de apresentar um trabalho sobre citologia e
tecidos para a próxima aula.
Algumas colegas apareciam
e me convidavam para o esperado \bailinho\ dos sábados na casa de algum
amigo. Conversas sobre \paqueras\; dos \namoricos\, das paixões e de alguém
que estaria a me esperar para falar de amor.
À noite, após os afazeres
de casa, me arrumava, pedia um dinheirinho aos meus pais e lá ia novamente
para o sadio divertimento.
Não existia Vídeo; DVD;
CD; calculadoras de bolso e nem informática, o computador era conhecido por
\cérebro eletrônico\, para muitos, utopia e hoje uma realidade em forma de
Microcomputador.
Imaginem como era a vida
de um estudante ao ter que se debruçar em cima de livros em casa ou nas
bibliotecas para adquirir conhecimento, realizar pesquisas, apresentar
trabalhos e dissertações. Livros, blocos de rascunhos e caneta eram nossos
instrumentos de estudo.
Impressoras? – Nem em
sonho, eram máquinas grosseiras de datilografia com papel carbono se
quisesse fazer cópias. Xerox? Eram fotocópias tiradas em lojas fotográficas,
péssima qualidade e muito cara. Mimeógrafos eram utilizados pelos docentes.
A facilidade da Xerox apareceu depois.
Líamos muito durante o
ano. Hoje se pergunta a um aluno: - Quantos livros você leu esse ano? –
Resposta: - Nenhum.
A minha aventura no
passado Continuava, à noite, fui direto ao clube dançar, falar sobre o dia
no colégio e jogar um monte de conversa fora. A música era gostosa, Ray
Conniff. Depois uma seleção de samba e uma bebida sem álcool ou um Cuba
Libre para mostrar que já éramos adultos.
Outra noite eu fui a um
dos cinemas e assisti a um dos filmes da série Tammy, romântico, cuja música
até hoje é lembrada e apreciada. Sempre acompanhado de alguém de minha
simpatia ou a namorada.
Tudo era tão real e na
manhã seguinte um grupo de amigos me convidou para ir até uma fazenda de
trem. Lá fomos na \Maria Fumaça\. Transporte saudável, seguro e de tempo em
tempo um apito soava para alertar da chegada na estação ou uma maneira de
cumprimentar colonos por todo o trajeto. Muita alegria.
Obedecer ao horário de
volta para casa era respeitado com rigor. Todos tinham horário para tudo. As
regras familiares eram mais rígidas, havia o controle da hora de estudar;
refeição; diversão; trabalhar e agradecer a DEUS de acordo com o credo
religioso de cada um.
Gentilezas e boas
maneiras eram coisas primordiais e normais, o único vício era o de ser
feliz. Algumas tragadas em cigarros nos \bailinhos\ para mostrar a
masculinidade e fazer \poses\.
Assim eu estava vivendo
aqueles momentos de adolescência sem entender o que estava acontecendo.
Muito feliz.
Quantos problemas eram
considerados grandes e hoje tão pequenos que faz rir a exemplo das paixões
não correspondidas, a bronca dos pais pela nota baixa ou não atender a um
compromisso, coisas de adolescentes.
Na manhã do dia seguinte,
1963, acordei cedo como de costume, calcei meu Keds, peguei minha bicicleta,
minha bolsa (não se usava mochilas) e fui ao colégio.
Terminada a aula voltei
para casa junto a muitos colegas, amigos e amigas, felizes, muita energia e
mil \palhaçadas pelo caminho\. No percurso, um deles, ao fazer gracinhas
teve que desviar de um poste e levou um \belo\ tombo. Felizmente não
aconteceu nada a não ser por um gemido de dor que se espalhou por todos os
cantos.
Foi nesse exato momento,
olhei o relógio em meu pulso e fiquei surpreso. Dezenove horas e trinta
minutos, 1975.
Estava eu de volta a
realidade atual. Fui correndo ao quarto ver o que estaria acontecendo. A
menina havia acordado com dores e aí percebi que tudo aquilo se passou tão
rápido, um LAPSO DE TEMPO.
Pode ter sido um presente
que ganhei ao voltar no tempo para refletir e aceitar todas as situações que
nos são impostas. Ter encontrado e ficado muitos dias com meus amigos, meus
pais, no colégio, na praça, no cinema, no clube, reviver momentos de prazer
em companhia de tudo o que deixei no passado.
Tudo em uma fração de
tempo.
Voltei à realidade com
mais vigor, mais fé e um pouco mais sábio ao entender que os desígnios de
DEUS, que não são fáceis de compreendê-los, são inquestionáveis.
Uma lição, saber que cada
um de nós tem um tempo e uma missão aqui na Terra, alguns longos e outros
curtos demais; ajudar; aceitar as pessoas e os problemas como nos são
entregues.
Hoje ao ouvir e ver a
chuva cair, contemplar o firmamento nas noites de inverno, sinto em meu
coração a saudades ir de encontro a alguém que de alguma estrela me acena
com um sorriso lindo e me diz: - Está
tudo bem!
A Giulianna querida,
Que no pouco tempo aqui,
foi o bastante para me fazer entender que o amor nos aproxima de Deus e é
pelo amor que devemos viver.
Johnny Notariano – 2011