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Cotidiano

Ano I - Nº11 - fevereiro de 2001

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Os meios de comunicação e o PT

Bernardo Kucinski

Nos seus 21 anos de existência, o PT só tem sido maltratado pela grande imprensa brasileira. Como um filho enjeitado de uma grande família senhorial, cresceu levando pancadas de todos os lados. Parece que um partido político de trabalhadores é dose demais para as nossas elites.

Esse padrão negativo de relacionamento delineou-se primeiro no massacre dos trabalhadores rurais pela Polícia Militar durante a greve em Leme, interior de São Paulo, ainda em 1986. A mídia deu ampla guarida à tentativa grosseira da Polícia Militar de atribuir a autoria dos tiros que mataram os bóias-frias a deputados do PT, que ali estavam para se solidarizar com os grevistas. O mesmo conluio com a polícia se repetiria no episódio do seqüestro de Abílio Diniz, em 1989, quando o governador Fleury obrigou os seqüestradores a vestirem camisetas do PT; cinco anos depois, a mídia tentou envolver Lula no assassínio do presidente do sindicato dos condutores de veículos do ABC, Oswaldo Cruz.

Nos três episódios a mídia foi instrumento de acusações altamente infamantes e obviamente falsas contra o PT, às vésperas de uma eleição. O objetivo é claro: quebrar as perspectivas eleitorais do partido ou de Lula. Mais do que denotar um mero viés ideológico ou um alinhamento político, o que seria natural, a mídia tem servido de força auxiliar de uma estratégia de guerra das elites dominantes, na qual vale tudo para derrotar o PT. A derrota de Lula por Collor em 1989 foi resultado de uma manobra de mídia, que não hesitou em usar os recursos mais pusilânimes, da mentira e da difamação.

Mecanismos mais sutis de desinformação também foram se desenvolvendo com esse mesmo objetivo. Entre eles, ignorar ou não informar substantivamente sobre os programas, propostas e ações do PT ou das administrações por ele controladas. Não trabalhar com a informação é pré-requisito para desinformar e maltratar a imagem do PT. Para poder dizer e repetir que "o PT não tem propostas e só sabe criticar", é preciso antes ignorar as propostas do PT. Não noticiá-las.

Assim se explica a percepção das lideranças do PT de que a mídia se constitui no Brasil em um dos principais bloqueios ao acesso do PT ao poder. E de que as vitórias do PT são conseguidas a despeito da mídia, contra a mídia, quando consegue neutralizar a mídia. A mídia e não os partidos conservadores, tornou-se o adversário a ser vencido. Os esforços para montar frentes partidárias amplas em torno do PT, às vezes sacrificando em excesso princípios ideológicos, são motivados mais pela necessidade de somar tempo de TV gratuita na campanha eleitoral, para fazer frente ao antagonismo da mídia, do que por uma concepção determinada de governabilidade ou hegemonia do campo popular.

Pelos mesmos motivos, uma das barreiras mais fortes ao projeto político do PT é hoje o do desgaste da imagem de Lula, principal liderança do partido e a que simboliza nossos compromissos com os trabalhadores e os excluídos da sociedade. Foi grande e em parte irreversível o estrago na imagem de Lula após duas décadas de tratamento preconceituoso e desrespeitoso pelos meios de comunicação, de fotos escolhidas cuidadosamente para danificar, de frases retiradas de seus contextos, de injúrias e insinuações caluniosas.

Esse padrão de relacionamento diz muito sobre a natureza da própria mídia no Brasil, sua falta de pluralismo, sua cultura autoritária e promíscua, sua ética de "tirar vantagem", sua tradição de "rabo preso" com o governo, por meio de favores fiscais, inclusive o grande favor de não pagar os atrasados do INSS, da ordem de centenas de milhões de reais.

Temos uma categoria profissional de jornalistas, trabalhando em condições sub-democráticas e ela mesma vítima de uma cultura autoritária. E controlando-os, um patronato que tem como função histórica fazer a corretagem dos favores do Estado aos grandes grupos econômicos internacionais. Um patronato de mídia não só escravocrata em sua mentalidade, mas também testa-de-ferro de interesses estrangeiros na sua vinculação subordinativa de classe.

Mesmo apanhando o tempo todo, esse enjeitado chamado PT cresceu sem grandes seqüelas e hoje, aos 21 anos, se constituiu em sub-poder, em vários Estados e grandes prefeituras. Por isso e somente por isso, a mídia, viciada no poder, passou a moderar sua hostilidade. Descobriu que existe um "PT light", ou "cor de rosa". Certamente ignora menos o PT, informa um pouco mais. Mas estrategicamente ainda está de prontidão. Para servir de força auxiliar nos grandes e decisivos embates, entres os quais o maior é sempre o de eleição presidencial

Bernardo Kucinski, coordenador de comunicação do Instituto Cidadania e professor titular da ECA-USP

Texto publicado no jornal PT Notícias nº 100, de 8 a 21 de fevereiro/2001, em sua edição comemorativa dos 21 anos do Partido dos Trabalhadores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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