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Cotidiano

Ano I - Nº12 - março de 2001

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              Estarrecimento e silêncio

Paulo de Abreu Lima

Numa noite recente de fevereiro último, uma segunda feira, um barulho persistente de helicóptero, muito próximo de onde moro, chamou-me a atenção. Em princípio não dei bola, pois esta é uma região de intenso tráfego aéreo, muito próximo ao aeroporto. Repentinamente, e muito espantada, minha esposa me chama para olhar pela janela uma cena incomum.

De uma posição razoavelmente privilegiada, no 7º andar de onde moro, pudemos ver, não com muito a nitidez, é verdade - já era noite fechada e a cena acontecia a cerca de cem metros - mas com muito espanto e curiosidade, uma
aglomerado de pessoas e luzes vermelhas piscando insistentemente de quase duas dezenas de viaturas policiais. No ar , a cerca de cinqüenta metros do solo, permanecia um helicóptero imóvel, também com luzes vermelhas, e com um refletor de alta potência sobre algo, que não conseguíamos identificar exatamente o que era.

- Provavelmente é uma caçada policial; estão atrás de algum bandido muito pesado.

A região onde moramos é muito próxima de uma área de periferia muito pobre e miserável. É muito comum caçadas e sirenes barulhentas e assustadoras. Mas havia muitas pessoas em torno da cena, o que fazia supor que, se fosse uma caçada, ou já haviam tocaiado o bandido, ou todos em volta eram completamente malucos em ficar muito perto do aconteci­mento. O que é muito comum na nossa cidade; a curiosidade é algo muito forte nas pessoas. Pensamos, assim, que não seria uma caçada policial.
- Será que caiu um aviãozinho ou helicóptero?
Em outubro de 1996, a menos de mil metros de nosso prédio, caiu um avião comercial de grande porte, matando quase cem pessoas. Nos últimos doze meses, dois outros aviões menores também caíram em áreas próximas de onde moramos - também com vítimas fatais.

- Não pode ser, senão teríamos ouvido o estrondo.
- Mas afinal, o que será que está acontecendo lá?
- Será que não foi o prédio da esquina...

Era um prédio de 4 andares, com cerca de 30 metros de frente por 10 metros de fundo; não era muito grande, mas também não era muito pequeno. As luzes do helicóptero continuavam piscando insistentemente e muitos e muitos carros policiais misturados a pessoas se aglomeravam próximo ao prédio.

Este prédio ficava na esquina de uma movimentada avenida com a rua em que moro; uma esquina irregular, ou seja, o cruzamento das duas vias formam uma quina pontiaguda e a avenida encontra-se em aclive de modo que o terreno do
prédio fica num buraco.

A esquina faz parte do nosso caminho habitual para chegarmos em casa e, há cerca de três meses, temos observado a evolução da construção do prédio.

- De fato o prédio tinha um aspecto estranho.

As paredes levantadas estavam nuas, pois ainda não haviam recebido reboco.
Notava-se muito, assim, a cor avermelhada dos blocos e quase nada do cinza das vigas e pilares de concreto de sua sustentação.

Enfim descobrimos a razão de tantas luzes e tanta gente concentrada naquela esquina: o prédio ruiu abaixo. Em segundos, toneladas de concreto cinza e tijolos avermelhados e talvez nem tanto ferro, virou um amontoado de sucata e poeira que, na escuridão da noite, não se destacou na paisagem daquela esquina.

Estarrecimento e silêncio. Operários moravam na obra. Uma pessoa morreu na hora. Outras seis ou sete pessoas ficaram em estado gravíssimo.

Estarrecimento e silêncio. Silêncio coberto por luzes artificiais tentando iluminar uma escuridão de pavor e assombro. Uma escuridão de susto, pesar e
tristeza.

Estarrecimento e silêncio. Estarrecimento de um prédio mal construído; de uma engenharia ineficaz e mal qualificada.

- Se um prédio cai, ou o engenheiro é incompetente, ou os materiais utilizados eram de segunda linha.

Estarrecimento e silêncio. Estarrecimento de uma ética que ainda é frágil, personalista e gananciosa; de um universo de ocorrências quase que freqüentes; de um conhecimento público de que a ganância e a incompetência são normais - estatisticamente e moralmente.

Estarrecimento. Quando conseguiremos transformar nossa história predadora,de fome e afeto, numa história de troca e partilha?

Silêncio.

Paulo de Abreu Lima é psicólogo

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