|
|
Estarrecimento e
silêncio
Paulo de Abreu Lima
Numa
noite recente de fevereiro último, uma segunda feira, um barulho
persistente de helicóptero, muito próximo de onde moro, chamou-me a atenção.
Em princípio não dei bola, pois esta é uma região de intenso tráfego aéreo,
muito próximo ao aeroporto. Repentinamente, e muito espantada, minha esposa
me chama para olhar pela janela uma cena incomum.
De uma posição razoavelmente privilegiada, no 7º andar de onde moro,
pudemos ver, não com muito a nitidez, é verdade - já era noite fechada e
a cena acontecia a cerca de cem metros - mas com muito espanto e
curiosidade, uma
aglomerado de pessoas e luzes vermelhas piscando insistentemente de quase
duas dezenas de viaturas policiais. No ar , a cerca de cinqüenta metros do
solo, permanecia um helicóptero imóvel, também com luzes vermelhas, e com
um refletor de alta potência sobre algo, que não conseguíamos identificar
exatamente o que era.
- Provavelmente é uma caçada policial; estão atrás de algum bandido
muito pesado.
A região onde moramos é muito próxima de uma área de periferia muito
pobre e miserável. É muito comum caçadas e sirenes barulhentas e
assustadoras. Mas havia muitas pessoas em torno da cena, o que fazia supor
que, se fosse uma caçada, ou já haviam tocaiado o bandido, ou todos em
volta eram completamente malucos em ficar muito perto do acontecimento. O
que é muito comum na nossa cidade; a curiosidade é algo muito forte nas
pessoas. Pensamos, assim, que não seria uma caçada policial.
- Será que caiu um aviãozinho ou helicóptero?
Em outubro de 1996, a menos de mil metros de nosso prédio, caiu um avião
comercial de grande porte, matando quase cem pessoas. Nos últimos doze
meses, dois outros aviões menores também caíram em áreas próximas de
onde moramos - também com vítimas fatais.
- Não pode ser, senão teríamos ouvido o estrondo.
- Mas afinal, o que será que está acontecendo lá?
- Será que não foi o prédio da esquina...
Era um prédio de 4 andares, com cerca de 30 metros de frente por 10 metros
de fundo; não era muito grande, mas também não era muito pequeno. As
luzes do helicóptero continuavam piscando insistentemente e muitos e muitos
carros policiais misturados a pessoas se aglomeravam próximo ao prédio.
Este prédio ficava na esquina de uma movimentada avenida com a rua em que
moro; uma esquina irregular, ou seja, o cruzamento das duas vias formam uma
quina pontiaguda e a avenida encontra-se em aclive de modo que o terreno do
prédio fica num buraco.
A esquina faz parte do nosso caminho habitual para chegarmos em casa e, há
cerca de três meses, temos observado a evolução da construção do prédio.
- De fato o prédio tinha um aspecto estranho.
As paredes levantadas estavam nuas, pois ainda não haviam recebido reboco.
Notava-se muito, assim, a cor avermelhada dos blocos e quase nada do cinza
das vigas e pilares de concreto de sua sustentação.
Enfim descobrimos a razão de tantas luzes e tanta gente concentrada naquela
esquina: o prédio ruiu abaixo. Em segundos, toneladas de concreto cinza e
tijolos avermelhados e talvez nem tanto ferro, virou um amontoado de sucata
e poeira que, na escuridão da noite, não se destacou na paisagem daquela
esquina.
Estarrecimento e silêncio. Operários moravam na obra. Uma pessoa morreu na
hora. Outras seis ou sete pessoas ficaram em estado gravíssimo.
Estarrecimento e silêncio. Silêncio coberto por luzes artificiais tentando
iluminar uma escuridão de pavor e assombro. Uma escuridão de susto, pesar
e
tristeza.
Estarrecimento e silêncio. Estarrecimento de um prédio mal construído; de
uma engenharia ineficaz e mal qualificada.
- Se um prédio cai, ou o engenheiro é incompetente, ou os materiais
utilizados eram de segunda linha.
Estarrecimento e silêncio. Estarrecimento de uma ética que ainda é frágil,
personalista e gananciosa; de um universo de ocorrências quase que freqüentes;
de um conhecimento público de que a ganância e a incompetência são
normais - estatisticamente e moralmente.
Estarrecimento. Quando conseguiremos transformar nossa história
predadora,de fome e afeto, numa história de troca e partilha?
Silêncio.
Paulo de Abreu Lima é psicólogo

|
|