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Comportamento/Covas

Ano I - Nº12 - março de 2001

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Adversário companheiro

Luiz Inácio Lula da Silva

Mário Covas foi um adversário leal. Com ele, podíamos sempre conversar abertamente. Esse tipo de político faz muito bem ao Brasil, ao contrário de outros que não têm ética nem cumprem compromissos.

Mesmo quando estávamos em pólos opostos, ele contribuía com grandes idéias para o debate. Dava prazer fazer política com Covas. A verdade é que ele deixa uma grande lacuna ética na política brasileira.

Covas tinha fama de mal-humorado, mas lutava e era honesto naquilo que falava. Acredito que o Brasil tenha perdido um exemplo de ética, de dignidade e de moral. Perdeu o Brasil, perdeu o PSDB e, acima de tudo, perdeu o povo brasileiro.

Isso não significa deixar de lado todas as nossas diferenças políticas e partidárias. Mas é hora de fazer o reconhecimento devido a uma pessoa por quem eu nutria um profundo respeito e admiração. Isso porque Covas tinha caráter e tinha palavra.

Na Assembléia Nacional Constituinte, quando fomos colegas, os conservadores, além de atacar a esquerda, tinham o objetivo de neutralizar e diminuir o peso de Mário Covas, que era então o principal negociador do PMDB e agia de forma honrada, cumprindo à risca o que acordava conosco.

Por mais que você pudesse discordar de Covas, você podia confiar na sua palavra. Tinha a certeza de que ele cumpriria os acordos e sabia também que ele poderia dizer não, mesmo quando seria mais fácil dizer sim.

Além disso tudo, ele sempre teve comigo um comportamento muito ético e decente, numa história que vem desde a solidariedade nas greves de 1979 e 1980, passando pela própria Constituinte, quando atuou com muita dignidade, e culminando no segundo turno das eleições de 1989, quando foi para o palanque comigo em São Paulo e no Rio de Janeiro, além do recente apoio à candidatura de Marta Suplicy na última eleição para a Prefeitura de São Paulo.

Em termos conjunturais, a morte do governador Mário Covas pode complicar ainda mais a relação entre a oposição e o governo federal. Acredito que, agora, fique mais difícil esse diálogo.

Covas tinha uma relação profunda com o PT, apesar das divergências. Esse era um dos fatores que facilitavam o entendimento entre nós.

É preciso dizer também que, dentro do PSDB, inclusive na sua alta cúpula, muita gente não gostava de Covas, muita gente o considerava muito duro. É bom lembrar que, não fosse por causa dele, certos tucanos teriam embarcado sem pestanejar na canoa furada do governo de Fernando Collor de Melo.

Como se sabe, entre os possíveis aderentes estava o presidente Fernando Henrique Cardoso e o atual governador do Ceará, Tasso Jereissati. Esse é, sem dúvida, mais um exemplo de que, além de visão política, ele tinha ética de verdade.

Luiz Inácio Lula da Silva, 54, é presidente de honra do PT (Partido dos Trabalhadores) e conselheiro do Instituto Cidadania. Foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (1975-81), deputado federal pelo PT-SP (1987-91) e presidente nacional do partido (1980-89, 1990-94 e 1995).

Texto publicado no jornal da Folha de S.Paulo, 7 de março de 2001 – pág. A-3

 

 

 

 

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Palavras desnecessárias e de mau gosto
Ozeas Duarte

Quem leu de manhã o Linha Aberta (Clique aqui e leia o artigo) deparou-se com um artigo inoportuno, inócuo e de mau gosto. Assinado pelo companheiro Julian Rodrigues, assessor da 3ª vice-presidência do DN, o texto utiliza-se do óbvio para cometer uma grosseria e agredir o sentimento humanitário das pessoas.

Quem não sabe que o PT foi oposição ao governo Covas? Será que o povo é tão estúpido assim, a ponto de não distinguir entre uma posição política e um gesto de condolências? Ou será que somos nós, ou alguns, de tal modo ideologizados que nem escolhemos oportunidade? Perdemos até mesmo o senso de conveniência?

O malfadado artigo diz: "Do ponto de vista da luta política que a esquerda trava contra os conservadores é fundamental a distinção entre adversários e aliados".

Alguém, político, jornalista ou o que seja, teria perdido noção desta distinção só porque o Lula, Zé Dirceu, Genoino, Suplicy, Marta e alguns outros petistas foram lá manifestar sentimentos à família?

E segue: "A despeito do clima de comoção causado pela morte de um político com a importância de Covas, é preciso que pelo menos a esquerda não caia na reprodução do senso comum, reforçando a falsa imagem de um político que, antes de tudo, foi nosso adversário ferrenho".

Até por dever de ofício, vi todas as declarações dos nossos companheiros que compareceram ao velório no Palácio dos Bandeirantes. Repilo a insinuação de que algum deles tenha misturado alhos com bugalhos, em declarações inadequadas. Por certo, todos eles comportaram-se como pessoas civilizadas, e ai é que está o ponto. É que algumas vezes politizamos a indecência, tratando como assunto ideológico a mera falta de educação.

Já pensou se Lula chega lá, cumprimenta a família e, abordado pela TV, diz assim: "Estamos aqui para manifestar nossa solidariedade à família, nosso mais sincero sentimento de condolências, apesar de se tratar de quem se trata, de um político neoliberal, adepto do consenso de Washington, que prestou um desserviço ao pais e ao povo brasileiro como governador de São Paulo."?

Por certo, agindo assim, Lula seria louvado como o mais puro radical por alguns companheiros, Julian inclusive. Mas, e o Brasil? E a grande maioria dos petistas? Com certeza iriam considerar que o nosso querido Luiz Inácio teria, pura e simplesmente, se comportara como um sujeito desqualificado e sem a menor educação.

Consolo: ainda bem, este tipo de pensamento jamais chegará ao poder realmente!

Ozeas Duarte é secretário nacional de Comunicação do PT