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Revista Partes - Ano V - 13/07/2009 21:36:49 

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Abraçar
Por Arthur Virmond de Lacerda Neto

escrito por Arthur Virmond de Lacerda Neto, em 21.XI.2005

  

"Os grandes pensamentos provém do coração". Vauvenargues

 

Dentre as características que individualizam o ser humano e o distinguem dos animais, contam-se o desenvolvimento superior da sua inteligência e da sua afetividade. Mais inteligente de todos os seres vivos, o humano é também o dotado da maior capacidade afetiva, de experimentar sentimentos e de exprimi-los, tanto os maus quanto os bons.

São maus a inveja, a possessividade, o ciúme, o ódio, o ressentimento, a zanga, a animadversão, a antipatia, o desprezo, a altanaria, a vaidade, a intolerância, a prepotência, a indiferença. Todos eles provocam, em graus diversos, alguma espécie de sofrimento no nosso semelhante e identificam-se na sua comum atitude negativa face a ele.

Por outro lado, há o carinho, a bondade, a admiração, a veneração, a ternura, a paciência, a compaixão, a tolerância, a fraternidade, o desprendimento, a solidariedade, o preocupar-se com os outros. Todos eles propiciam, em graus diversos, alguma espécie de conforto no nosso semelhante e caracterizam-se pela sua comum atitude positiva face a ele.

No caso dos bons sentimentos, predomina o altruísmo; no caso dos maus, o egoísmo: naqueles, achamo-nos com o outro, nestes, sem ele ou apesar dele; aqueles aproximam e unem, estes, afastam e dividem; aqueles felicitam o nosso semelhante, estes, infelicitam-no.

Assim como há diversidades de temperamento entre as pessoas, as há também de afetividade: cada um de nós encarna um sistema de sentimentos em que os bons e os maus combinam-se, em diferentes proporções e em que eles verificam-se em diferentes situações.

Entre os maus e os bons, são preferíveis estes. Porém adotá-los apenas, não basta: é preciso também exprimi-los: uma sensibilidade que não se confessa, do ponto de vista do nosso semelhante, é uma sensibilidade que inexiste.

Um dos aspectos da diversidade entre as pessoas, corresponde às diferentes formas como elas exprimem-se afetivamente, desde quantos, por timidez ou por temperamento, contém-se e ocultam o seu sentir, até quantos exteriorizam os seus sentimentos.

Há várias formas de exteriorização dos bons sentimentos: algumas pessoas preferem presentear, e o fazem com carinho, outras preferem visitar ou telefonar ou parabenizar no natalício; outras, dão-se as mãos, outras, beijam-se, outras, recostam-se sobre o outro e deixam-se estar assim, em silêncio.

Outras ainda, abraçam: abraçar corresponde ao gesto, físico e afetivo, de aproximação: peito contra peito é o mesmo que coração junto de coração; são duas afetividades que se confessam, dois corpos que se tocam, duas emoções que se partilha.

As pessoas, muitas vezes, são carentes: necessitam de atenção, de afeição, de carinho, e não os tem, não os recebem, sentem-lhe a falta, sentem-se mal por isto, o que lhes chega mesmo a provocar alterações orgânicas: o físico padece quando padece o moral.

Abraçar corresponde a um gesto de carinho, a uma externização de afetividade. É natural, é natural, sobretudo é humano e principalmente é bom. Abraçar é bom, provoca uma sensação de prazer emocional e de conforto psicológico e mesmo físico: o organismo beneficia-se quando beneficiamo-nos com as boas emoções.

No abraço, há uma externização de apego, de afeição, de amizade, que eventualmente, alguns confundem com inclinações homossexuais, motivo porque evitam abraçar e desgostam-se quando são abraçados. Trata-se de um preconceito profundamente desumano e nocivo, porque ele dificulta a expressão afetiva e portanto, inibe uma forma de felicitar-se as pessoas.

Quem abraça quer bem, confessa amizade, solidariedade, compreensão, perdão, carinho, amor, bondade. Tudo isto é bom e é bom manifestar tudo isto e ser objeto disto tudo.

É bonito abraçarem-se pais e filhos, pais entre si, irmãos entre si, amigos entre si, estranhos entre si, porque é bonito uma pessoa abraçar outra, como é bonito, e humano, tratarem-se carinhosamente as pessoas entre si, por gestos e palavras.

Tudo isto ocorreu-me ao pensar em um amigo que abraçou-me muitas vezes e eu a ele: era sincero e recíproco, era-me e era-lhe carinhoso. Em uma delas, conversamos abraçados. Chorei de saudades dele: queria abraçá-lo e ficar abraçado nele por todo o tempo, e não o posso fazer: estou onde ele não está, ele está onde não estou. 

 

 

 

Arthur Virmond de Lacerda Neto
 contato: www.viladoprincipe.com.br



 

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