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Uma música,
na linda voz da cantora Elis Regina, chamou
tanta atenção e despertou uma grande vontade em conhecer o autor da
surpreendente e cativante “Tiro ao Álvaro”. O autor chamava-se Adoniran
Barbosa, nome artístico de João Rubinato ou apenas Adoniran, um nome
incomum que dispensa o sobrenome.
Comecei a entrar no universo
de Adoniran. Um bairro que ficou famoso pela preocupação do filho em não
deixar a mãe acordada esperando sua chegada, um “Arnesto”, sujeito
mal-educado que convidava os amigos para sua casa e sumia, uma Iracema
que não ouviu os apelos do noivo e ao atravessar a Avenida São João, sem
cuidado, foi atropelada por um carro, um casamento que não se realizou
porque o noivo era casado e pai de sete rebentos, uma triste margarida,
a moça que desejava conquistar se passando por engenheiro responsável
pelas obras do metrô ou um Joca, o amigo de todas as horas, entre tantas
preciosidades.
O criador impressionava pela
personalidade ímpar, a rouquidão da voz, a elegante gravata borboleta
e o indispensável chapéu. Considerado o cronista do povo
paulistano, caminhando, percebendo e narrando as
histórias que brotavam das ruas, dos barracos, dos bairros e dos
muitos cantos da cidade. Suas letras soam bem aos ouvidos, a linguagem é
a linguagem do povo com delicioso sotaque
italiano, formado pelos inúmeros sotaques dos que escolheram a cidade de
São Paulo para morar. As belas crônicas musicais retratam as cenas
cotidianas e os problemas, ainda existentes, das grandes cidades, em
“Aguenta a Mão João”, a tragédia das enchentes que derrubou o barracão e
a solidariedade prestada ao amigo.

O tom não era
de tristeza, mesmo diante da desgraça conseguia passar uma crítica
descontraída das mazelas da sociedade, um inconfundível poeta com grande
capacidade para observar as cenas urbanas. As músicas transmitem a
sensação de que ouvimos o pulsar do coração da cidade de São Paulo e
onde muitas pessoas veem apenas cimento e pedra, Adoniran encontrou
inspiração para suas composições.
Podemos
acompanhar as mudanças que transformaram a cidade em grande metrópole e
o contraste entre o antigo e o novo, na letra de “Praça da Sé” na qual a
praça da Sé é elevada à condição de madame estação Sé ou na letra de
“Viaduto Santa Efigênia”, após o viaduto passar por reformas, “Venha ver
/ Venha ver Eugênia / Como ficou bonito / O viaduto Santa Efigênia”. As
características das regiões da cidade e a diversidade dos povos
comerciantes em cada bairro, na letra de “Bazares”, “Comprei um quimono
/ No japão (galvão bueno) / Fui depois ver israel / Zé paulino no sereno
/ 25 de março / Mão-de-obra da turquia / Levanta-se muito cedo / Quando
ainda não é de dia”.
Compartilhava
os sentimentos dos que ficaram à margem do progresso, os desamparados e
excluídos como em “Abrigo de Vagabundos”, “Minha maloca, a mais linda
que eu já vi / Hoje está legalizada ninguém pode demolir / Minha maloca
a mais linda deste mundo / Ofereço aos vagabundos / Que não têm onde
dormir”.
Adoniran Barbosa hoje também é
nome de rua, de museu, de escola e o seu famoso “Trem das Onze” mereceu
o nome de uma rua no bairro que eternizou, mas a maior homenagem talvez
seja a lembrança das transformações que ele tão bem descreveu. Quando
andamos pela cidade em alguns lugares transformados e muitos que
desapareceram, sentimos a história preservada e contada de maneira
saborosa, bastando ouvir suas belas músicas para
conhecer mais sobre o passado destes lugares. O
trem que inspirou Adoniran deixou de circular em 1965, mas permanece em
nosso imaginário a sua presença na antiga estação, aguardando o trem e a
tristeza que o assolou, expressa em uma música, quando a estação foi
demolida.
A voz rouca
silenciou em 1982, contudo seus personagens continuam vivos, perpetuando
sua memória e provocando um olhar com mais sensibilidade para os
problemas das grandes cidades. Amenizando a tristeza gerada pelo consumo
exagerado, a competição desenfreada, muitas vezes desleal que transforma
as pessoas e suas histórias em meros coadjuvantes do ambiente urbano.
Neste ano, o cronista da terra da garoa, completaria cem anos de idade.
Imagino como descreveria as novas histórias das malocas na mega
metrópole que não chegou a conhecer. Em suas andanças reconheceria novos
“Arnestos” e muitas Iracemas, entre tantos, em meio ao trânsito intenso
e a multidão agitada, encaminhando seus personagens para o palco central
das muitas cenas desta cidade.
* Professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em
Educação pela Universidade Federal do Paraná. |