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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 01 de novembro de 2010 18:03:28                                               

 
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CRôNICAS
Adoniran    
Gilda E. Kluppel*
publicado em 01/11/2010

Uma música, na linda voz da cantora Elis Regina, chamou tanta atenção e despertou uma grande vontade em conhecer o autor da surpreendente e cativante “Tiro ao Álvaro”. O autor chamava-se Adoniran Barbosa, nome artístico de João Rubinato ou apenas Adoniran, um nome incomum que dispensa o sobrenome.

Comecei a entrar no universo de Adoniran. Um bairro que ficou famoso pela preocupação do filho em não deixar a mãe acordada esperando sua chegada, um “Arnesto”, sujeito mal-educado que convidava os amigos para sua casa e sumia, uma Iracema que não ouviu os apelos do noivo e ao atravessar a Avenida São João, sem cuidado, foi atropelada por um carro, um casamento que não se realizou porque o noivo era casado e pai de sete rebentos, uma triste margarida, a moça que desejava conquistar se passando por engenheiro responsável pelas obras do metrô ou um Joca, o amigo de todas as horas, entre tantas preciosidades.

O criador impressionava pela personalidade ímpar, a rouquidão da voz, a elegante gravata borboleta e o indispensável chapéu. Considerado o cronista do povo paulistano, caminhando, percebendo e narrando as histórias que brotavam das ruas, dos barracos, dos bairros e dos muitos cantos da cidade. Suas letras soam bem aos ouvidos, a linguagem é a linguagem do povo com delicioso sotaque italiano, formado pelos inúmeros sotaques dos que escolheram a cidade de São Paulo para morar. As belas crônicas musicais retratam as cenas cotidianas e os problemas, ainda existentes, das grandes cidades, em “Aguenta a Mão João”, a tragédia das enchentes que derrubou o barracão e a solidariedade prestada ao amigo.

O tom não era de tristeza, mesmo diante da desgraça conseguia passar uma crítica descontraída das mazelas da sociedade, um inconfundível poeta com grande capacidade para observar as cenas urbanas. As músicas transmitem a sensação de que ouvimos o pulsar do coração da cidade de São Paulo e onde muitas pessoas veem apenas cimento e pedra, Adoniran encontrou inspiração para suas composições.

Podemos acompanhar as mudanças que transformaram a cidade em grande metrópole e o contraste entre o antigo e o novo, na letra de “Praça da Sé” na qual a praça da Sé é elevada à condição de madame estação Sé ou na letra de “Viaduto Santa Efigênia”, após o viaduto passar por reformas, “Venha ver / Venha ver Eugênia / Como ficou bonito / O viaduto Santa Efigênia”. As características das regiões da cidade e a diversidade dos povos comerciantes em cada bairro, na letra de “Bazares”, “Comprei um quimono / No japão (galvão bueno) / Fui depois ver israel / Zé paulino no sereno / 25 de março / Mão-de-obra da turquia / Levanta-se muito cedo / Quando ainda não é de dia”.

Compartilhava os sentimentos dos que ficaram à margem do progresso, os desamparados e excluídos como em “Abrigo de Vagabundos”, “Minha maloca, a mais linda que eu já vi / Hoje está legalizada ninguém pode demolir / Minha maloca a mais linda deste mundo / Ofereço aos vagabundos / Que não têm onde dormir”.

Adoniran Barbosa hoje também é nome de rua, de museu, de escola e o seu famoso “Trem das Onze” mereceu o nome de uma rua no bairro que eternizou, mas a maior homenagem talvez seja a lembrança das transformações que ele tão bem descreveu. Quando andamos pela cidade em alguns lugares transformados e muitos que desapareceram, sentimos a história preservada e contada de maneira saborosa, bastando ouvir suas belas músicas para conhecer mais sobre o passado destes lugares. O trem que inspirou Adoniran deixou de circular em 1965, mas permanece em nosso imaginário a sua presença na antiga estação, aguardando o trem e a tristeza que o assolou, expressa em uma música, quando a estação foi demolida.

A voz rouca silenciou em 1982, contudo seus personagens continuam vivos, perpetuando sua memória e provocando um olhar com mais sensibilidade para os problemas das grandes cidades. Amenizando a tristeza gerada pelo consumo exagerado, a competição desenfreada, muitas vezes desleal que transforma as pessoas e suas histórias em meros coadjuvantes do ambiente urbano. Neste ano, o cronista da terra da garoa, completaria cem anos de idade. Imagino como descreveria as novas histórias das malocas na mega metrópole que não chegou a conhecer. Em suas andanças reconheceria novos “Arnestos” e muitas Iracemas, entre tantos, em meio ao trânsito intenso e a multidão agitada, encaminhando seus personagens para o palco central das muitas cenas desta cidade.
 



 

* Professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

 

 

 

 
  

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Gilda E. Kluppel é professora de Matemática do ensino médio em Curitiba/PR, Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

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