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Paulicéia – a grande boca de mil dentes
Mário de Andrade
A
imagem da cidade de São Paulo enquadrada pela pequena janela da aeronave
e uma senhora cantarolando, na poltrona detrás, a música do Caetano,
“Alguma coisa acontece no meu coração...”; para acalmar a filha nervosa
com o sobrevoo pela cidade.
Pouco depois, o pior momento, a aterrizagem
no Aeroporto de Congonhas, cercado pela imensidão de prédios. Os
batimentos cardíacos pulsam acelerados no compasso do movimento da
cidade. Enfim, o solo paulistano.
São Paulo ou carinhosamente Sampa,
o abrigo onde inúmeras pessoas deixam para trás seus laços e embaraços
em busca do sonho nesta mega metrópole que insiste em não dormir.
Amor à primeira vista e reforçado em todas as vistas e visitas. Alguns
atropelos para quem não se acostumou em utilizar a passarela para
atravessar a rua; vinte agoniantes minutos numa parada forçada no
canteiro da avenida. Logo se habitua, a terra dos apressados assusta
pela grandeza, mas em pouco tempo a admiração se torna diretamente
proporcional ao seu tamanho.
Lugar de muitas falas, nas ruas transitam diversas faces, cheias de
esperanças, vindas de diferentes regiões do país; onde a ordem é o
trabalho na desordem ruidosa da Paulicéia desvairada. Acolhe muitos,
outros apenas recolhe em suas ruas, embaixo de viadutos, habitam
viajantes de um sonho desfeito; a metrópole não tem tempo para todos,
neste lugar em que o tempo não para.
Num ritmo mais lento dos passos paulistanos, caminho
pelas
ruas de nomes singelos, chamadas de Augusta e de Aurora,
até avistar
um prédio ondulado que por capricho destoa do concreto reto e armado.
Subitamente,
o endereço poético: a famosa esquina da Ipiranga
com a São João e no meu coração alguma coisa também acontece.
Uma parada obrigatória em um viaduto qualquer para admirar o alucinante
fluxo de pessoas e veículos; ao contrário do paulistano, dispondo de
tempo se aprecia também o enorme engarrafamento na Avenida Vinte e Três
de Maio. No centro, uma das chagas da cidade, a região da “cracolândia”;
a legião de pessoas perambulando sem destino e no desatino de uma
insaciável busca.
Acompanhar
o nascer do Sol na Liberdade, espaços com tatame no salão para saborear
sushi, sashimi ou teishoku, entre tantas opções. Os
ideogramas em letreiros e
o
Japão estava ali. De metrô rapidamente se chega à Estação Brigadeiro
para atravessar o coração da cidade; a soberana avenida e se olha para o
alto na Paulista. Logo, uma grande concentração de pessoas e diferentes
sotaques entoando o que parecia uma sinfonia da brasilidade; deliciosos
aromas em diversas cores no Mercadão e ninguém resiste ao sanduíche de
mortadela.
De repente um clarão: a Luz,
uma estação, uma relíquia. No museu, composto
por palavras que percorrem as paredes, uma atenção especial ao verso do
poema de Carlos Drummond de Andrade: “Penetra surdamente no reino das
palavras”; apenas desta forma se pode admirar o fascinante e inigualável
Museu da Língua Portuguesa.
Entre tantos roteiros para as compras, o favorito: o estonteante
comércio da Rua 25 de Março. Na multidão subindo e descendo, o vai e vem
de pacotes; embalando presentes, lembranças ou o meio de sobrevivência
para muitos.
Nas andanças pela cidade parece que por aqui aconteceu o milagre da
multiplicação dos pães, pela surpreendente quantidade de padarias
existentes. Aliás, o famoso pingado acompanhado do pãozinho francês foi
substituído por serviços de bufê e a mais nova: o Brunch, uma
combinação de café da manhã com almoço.
É prazeroso se deslocar para todos os lados e sentidos, utilizar o
ônibus ou o metrô em qualquer horário, seja dia ou noite. Pode-se até
não perder o trem das onze...
Domingo, no centro, ao passar por um viaduto
sente-se vontade de beber chá e de ouvir canto gregoriano. No Mosteiro
de São Bento, com a acústica perfeita da igreja, o divino canto dos
monges beneditinos. Entre as feiras da cidade, compro uns balangandãs na
Praça da República. Uma indispensável visita à Catedral da Sé para rezar
entre os vitrais moldados pela história da igreja.
Abro o guarda-chuva, o
tempo é instável e de delicadas garoas, mas
como diz a canção: “O clima
engana...” e a qualquer momento desaba um aguaceiro em
Sampa.
Embarco em um táxi com destino ao Ibirapuera, no trajeto sinto saudades
da minha maloca. Volto ao Bixiga para andar pela escadaria, ver as
estrelas
e saborear
pão de linguiça com provolone. Depois,
apreciar MPB na Vila Madalena em uma rua de purpurina.
A névoa é constante nas madrugadas frias, os dias são curtos e a noite é
clara.
A cidade
que possui tudo o que possamos imaginar, até aonde a imaginação não
alcança e apenas aqui existe; a poesia também existe, no concreto, no
cotidiano e nas muitas frases que inspira. No mês de janeiro, em que
completa mais um aniversário, a lembrança da sinfonia que cadencia a
mega metrópole soa mais forte: Olha a hora São Paulo, São Paulo! |