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ELA nunca é de fora para dentro. ELA sempre é de dentro
para fora.
Confuso? Eu explico. ELA, pode começar com um pequeno
mal-estar, tipo: “Fiz besteira!”. Mas, invariavelmente, termina com uma
enxurrada de acusações: “Por quê? Por quê? Por que fui fazer isso? Eu me
odeio! E agora? Peço desculpas ou me finjo de morta?”.
Realmente, quando fazemos alguma bobagem ou, em uma
linguagem menos formal, “pisamos na bola”, a ponto de querermos nos
flagelar, não devemos ter dúvidas, é ELA que está presente em toda a sua
glória.
Quem é ELA? Bem, o nome pelo qual é mais conhecida é
culpa.
Confesso não saber o que é pior: se a culpa diante do
fato de termos feito algo errado ou o constrangimento de nos sabermos
capazes de errar. Constrangimento ou culpa, eis a questão. Talvez a
resposta a esta dúvida seja que os dois são difíceis de carregar e
assimilar, principalmente para quem tem uma consciência no mínimo
desenvolvida.
Sei também que nessas situações a vontade é de se
esconder, fugir, para, quem sabe, evitar a vergonha de nos confrontarmos
com os nossos próprios erros, sempre muito difíceis de digerir. Mas
fugir, todos sabemos, não é, nunca foi, e jamais será, a solução. Fugir
não irá “aliviar a nossa barra” ou a nossa consciência; ao contrário, só
irá piorar. Essa “senhora”, a culpa, sabe ser persistente, ela não é de
desistir fácil e muito menos de permitir que a nossa consciência fique
em paz. E, aqui entre nós, ainda bem!
É claro que, muitas vezes, o chamado sentimento de culpa
é um tanto quanto exagerado e, nesse caso, devemos nos cuidar para que
ele não se transforme em uma doença. De qualquer maneira, do que ELA é
capaz todos nós já sabemos. ELA é como um predador à espera de sua
vítima, sempre à espreita, pronta para atacar quando menos esperamos e,
muito menos, queremos.
ELA pode deixar-nos insones. ELA pode fazer-nos agir de
forma inconseqüente. Ao nos sentimos eternos devedores, tomamos caminhos
equivocados acreditando que, assim, estaremos nos redimindo e,
conseqüentemente, conquistando algum tipo de absolvição.
ELA nos faz cegos e surdos. ELA nos faz querer esquecer,
mas, paradoxalmente, nos impede de mergulhar no abençoado esquecimento.
ELA pode ser grande, pequena, colorida ou cinza, não importa: quando
está presente é difícil ignorá-la.
Por todas essas razões (e outras que prefiro omitir) é
que relutei em narrar a história de um certo alguém que conheço há muito
tempo. Esse “Alguém” (vamos chamá-lo assim) não é muito velho e nem
muito moço, nem muito rico e nem muito pobre, não interessa se é homem
ou mulher, na verdade, é uma pessoa até bem comum. Sua história, preciso
dizer, não é muito bonita, mas também não tem nada de original. Em
resumo: esse “Alguém” poderia ser qualquer um de nós.
A história começa esclarecendo que Alguém nunca se sentiu
feliz. Sua lembrança mais antiga é o de considerar-se um excluído. Na
família, na escola, no trabalho sempre se sentiu de fora e por fora.
Sabendo-se, ou melhor, julgando-se “de fora”, acreditava-se inadequado,
como se sempre estivesse em falta com todos. Quando perguntei quando
começou a se sentir dessa maneira ele foi sincero ao responder que nem
ele sabia: apenas sempre se sentiu assim.
Mas quem o visse e ouvisse jamais acreditaria que esses
fossem os seus sentimentos. Nesse ponto, é preciso reconhecer, ele se
tornou extremamente habilidoso. É capaz de criar e vestir diferentes
tipos de máscaras para disfarçar suas emoções mais profundas. Ele mesmo
me confessou ter máscaras para todas as situações: havia a máscara da
segurança, da força, da independência e até mesmo a da insensibilidade.
Ele, realmente, é muito bom. Poucas pessoas, muito poucas mesmo, seriam
capazes de dizer que por baixo de todas essas máscaras haveria um alguém
se sentindo totalmente inadequado e envergonhado de ser quem era.
Vocês já devem estar se perguntando: “Tudo bem, a vida
desse sujeito (ou sujeita) não deve ser fácil, mas onde está a culpa?
Além de todas essas dificuldades, esse Alguém fez ou anda fazendo alguma
besteira que o faz se sentir culpado?”
Calma! É preciso conhecer um pouco mais Alguém para que
se possa começar a entender onde entra a culpa, a sua culpa. Sim,
porque existem muitos tipos de culpas e a de Alguém é muito especial.
A cabeça de Alguém, não é uma cabeça comum, é um
turbilhão, construindo e destruindo tudo que por ali ousa se alojar.
Seus pensamentos são confusos, repletos de vergonha de si mesmo.
Entendam: aqui um tipo de culpa já se faz presente, a culpa de ser ele
mesmo.
No entanto, como já expliquei, ele tem uma habilidade
incrível em se disfarçar e o resultado é que poucos desconfiam de alguma
coisa. Ele é capaz de criar uma imagem dele mesmo totalmente irreal e de
vendê-la a todos que o conhecem.
E assim ele tem vivido, sempre disfarçando e se
escondendo. Construindo e mantendo as mais diferentes máscaras e não
permitindo que ninguém se aproxime. Sua vergonha é confundida com
arrogância. Sua timidez é interpretada como desdém. Seu verdadeiro Eu
raramente é percebido ou reconhecido.
Esse Alguém é muito complicado. Complicação engendrada
por ele mesmo e que acabou tornando a sua vida um verdadeiro inferno. Um
inferno onde mora a tristeza, a vergonha e ELA, a culpa.
A culpa, a imensa culpa, de se sentir assim, sem ao menos
saber o porquê. De se saber infeliz, quando teria tudo (ou quase tudo)
para se sentir minimamente feliz. Culpa por considerar que nada tem e
que a aparente força e segurança nada mais são do que apenas máscaras
sem nenhum significado.
Culpa pela culpa, essa é a história de Alguém. Um circulo
vicioso começando pelo sentimento de inadequação, passando pela vergonha
de não se aceitar e fechando com ELA, a culpa, por sentir e alimentar
tudo isso em sua mente.
Percebam, não há nenhuma lição a ser aprendida aqui. Na
verdade, me parece que se a história de Alguém serve para alguma coisa é
para não aprendermos nada com ela. Ela é, entretanto, importante para
compreendermos o quanto, muitas vezes, podemos ser rigorosos conosco e o
quanto isso pode-nos custar. Custo que Alguém vem pagando há muito
tempo. Portanto, essa história não tem um final feliz, aliás, ela ainda
não acabou, pois Alguém ainda continua vivendo por aí.
E você? Conhece alguém como esse Alguém?
Esteja atento, ele pode estar vivendo ao seu lado ou,
quem sabe... ser você mesmo. |