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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 11 de abril de 2008 22:57:22                                               

 
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CRôNICAS

Alguém

   

Margarete Hülsendeger

publicado em 07/10/2007

ELA nunca é de fora para dentro. ELA sempre é de dentro para fora.

Confuso? Eu explico. ELA, pode começar com um pequeno mal-estar, tipo: “Fiz besteira!”. Mas, invariavelmente, termina com uma enxurrada de acusações: “Por quê? Por quê? Por que fui fazer isso? Eu me odeio! E agora? Peço desculpas ou me finjo de morta?”.

Realmente, quando fazemos alguma bobagem ou, em uma linguagem menos formal, “pisamos na bola”, a ponto de querermos nos flagelar, não devemos ter dúvidas, é ELA que está presente em toda a sua glória.

Quem é ELA? Bem, o nome pelo qual é mais conhecida é culpa.

Confesso não saber o que é pior: se a culpa diante do fato de termos feito algo errado ou o constrangimento de nos sabermos capazes de errar. Constrangimento ou culpa, eis a questão. Talvez a resposta a esta dúvida seja que os dois são difíceis de carregar e assimilar, principalmente para quem tem uma consciência no mínimo desenvolvida.

Sei também que nessas situações a vontade é de se esconder, fugir, para, quem sabe, evitar a vergonha de nos confrontarmos com os nossos próprios erros, sempre muito difíceis de digerir. Mas fugir, todos sabemos, não é, nunca foi, e jamais será, a solução. Fugir não irá “aliviar a nossa barra” ou a nossa consciência; ao contrário, só irá piorar. Essa “senhora”, a culpa, sabe ser persistente, ela não é de desistir fácil e muito menos de permitir que a nossa consciência fique em paz. E, aqui entre nós, ainda bem!

É claro que, muitas vezes, o chamado sentimento de culpa é um tanto quanto exagerado e, nesse caso, devemos nos cuidar para que ele não se transforme em uma doença. De qualquer maneira, do que ELA é capaz todos nós já sabemos. ELA é como um predador à espera de sua vítima, sempre à espreita, pronta para atacar quando menos esperamos e, muito menos, queremos.

ELA pode deixar-nos insones. ELA pode fazer-nos agir de forma inconseqüente. Ao nos sentimos eternos devedores, tomamos caminhos equivocados acreditando que, assim, estaremos nos redimindo e, conseqüentemente, conquistando algum tipo de absolvição.

ELA nos faz cegos e surdos. ELA nos faz querer esquecer, mas, paradoxalmente, nos impede de mergulhar no abençoado esquecimento. ELA pode ser grande, pequena, colorida ou cinza, não importa: quando está presente é difícil ignorá-la.

Por todas essas razões (e outras que prefiro omitir) é que relutei em narrar a história de um certo alguém que conheço há muito tempo. Esse “Alguém” (vamos chamá-lo assim) não é muito velho e nem muito moço, nem muito rico e nem muito pobre, não interessa se é homem ou mulher, na verdade, é uma pessoa até bem comum. Sua história, preciso dizer, não é muito bonita, mas também não tem nada de original. Em resumo: esse “Alguém” poderia ser qualquer um de nós.

A história começa esclarecendo que Alguém nunca se sentiu feliz. Sua lembrança mais antiga é o de considerar-se um excluído. Na família, na escola, no trabalho sempre se sentiu de fora e por fora. Sabendo-se, ou melhor, julgando-se “de fora”, acreditava-se inadequado, como se sempre estivesse em falta com todos. Quando perguntei quando começou a se sentir dessa maneira ele foi sincero ao responder que nem ele sabia: apenas sempre se sentiu assim.

Mas quem o visse e ouvisse jamais acreditaria que esses fossem os seus sentimentos. Nesse ponto, é preciso reconhecer, ele se tornou extremamente habilidoso. É capaz de criar e vestir diferentes tipos de máscaras para disfarçar suas emoções mais profundas. Ele mesmo me confessou ter máscaras para todas as situações: havia a máscara da segurança, da força, da independência e até mesmo a da insensibilidade. Ele, realmente, é muito bom. Poucas pessoas, muito poucas mesmo, seriam capazes de dizer que por baixo de todas essas máscaras haveria um alguém se sentindo totalmente inadequado e envergonhado de ser quem era.

Vocês já devem estar se perguntando: “Tudo bem, a vida desse sujeito (ou sujeita) não deve ser fácil, mas onde está a culpa? Além de todas essas dificuldades, esse Alguém fez ou anda fazendo alguma besteira que o faz se sentir culpado?”

Calma! É preciso conhecer um pouco mais Alguém para que se possa começar a entender onde entra a culpa, a sua culpa. Sim, porque existem muitos tipos de culpas e a de Alguém é muito especial.

A cabeça de Alguém, não é uma cabeça comum, é um turbilhão, construindo e destruindo tudo que por ali ousa se alojar. Seus pensamentos são confusos, repletos de vergonha de si mesmo. Entendam: aqui um tipo de culpa já se faz presente, a culpa de ser ele mesmo.

No entanto, como já expliquei, ele tem uma habilidade incrível em se disfarçar e o resultado é que poucos desconfiam de alguma coisa. Ele é capaz de criar uma imagem dele mesmo totalmente irreal e de vendê-la a todos que o conhecem.

E assim ele tem vivido, sempre disfarçando e se escondendo. Construindo e mantendo as mais diferentes máscaras e não permitindo que ninguém se aproxime. Sua vergonha é confundida com arrogância. Sua timidez é interpretada como desdém. Seu verdadeiro Eu raramente é percebido ou reconhecido.

Esse Alguém é muito complicado. Complicação engendrada por ele mesmo e que acabou tornando a sua vida um verdadeiro inferno. Um inferno onde mora a tristeza, a vergonha e ELA, a culpa.

A culpa, a imensa culpa, de se sentir assim, sem ao menos saber o porquê. De se saber infeliz, quando teria tudo (ou quase tudo) para se sentir minimamente feliz. Culpa por considerar que nada tem e que a aparente força e segurança nada mais são do que apenas máscaras sem nenhum significado.

Culpa pela culpa, essa é a história de Alguém. Um circulo vicioso começando pelo sentimento de inadequação, passando pela vergonha de não se aceitar e fechando com ELA, a culpa, por sentir e alimentar tudo isso em sua mente.

Percebam, não há nenhuma lição a ser aprendida aqui. Na verdade, me parece que se a história de Alguém serve para alguma coisa é para não aprendermos nada com ela. Ela é, entretanto, importante para compreendermos o quanto, muitas vezes, podemos ser rigorosos conosco e o quanto isso pode-nos custar. Custo que Alguém vem pagando há muito tempo. Portanto, essa história não tem um final feliz, aliás, ela ainda não acabou, pois Alguém ainda continua vivendo por aí.

E você? Conhece alguém como esse Alguém?

Esteja atento, ele pode estar vivendo ao seu lado ou, quem sabe... ser você mesmo.

 

 

 

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::sobre o autor::

 Margarete Hülsendeger é professora de Física em escolas particulares de Porto Alegre/RS e Mestre em Educação em Ciências e Matemática/PUCRS.

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